Os Salesianos, ou o próprio P.e Humberto Pascoal, abriram a Autobiografia
da Ven. Alexandrina com esta nota:
A Autobiografia, redigida por ordem do
Padre Mariano Pinho, S. J., foi ditada por Alexandrina, aos poucos, a D. Maria
da Conceição Leite Reis Proença, professora de Balasar. Em apêndice,
recolhem-se outros pormenores apontados pelo Padre Humberto Maria Pasquale e
Padre Ismael de Matos, salesianos, em conversa adrede tida com a Alexandrina.
Esta
é assim a primeira obra de fôlego que a autora ditou. E não é uma obra
qualquer, é antes o átrio que dá acesso às restantes. Há nela páginas notáveis,
que nos introduzem no âmago das experiências místicas que a Ven. Alexandrina
viveu. De facto, ao tempo em que a ditou, estava-se no início dos anos quarenta,
quando ocorreu a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, quando
o P.e Terças fez a sua publicação, quando o P.e Mariano Pinho teve de
abandonar a sua direcção espiritual, quando, deixando de viver visivelmente o
fenómeno da Paixão, já passara a vivê-lo apenas na intimidade, etc. Numa
palavra, ela percorrera já grande parte da sua caminhada mística.
Repare-se
que a autora não menciona muitas coisas que com ela se passaram. O exemplo mais
significativo é o de calar o papel que teve na consagração do mundo ao
Imaculado Coração de Maria.
Quer
o P.e Mariano Pinho quer o P.e Humberto Pascoal referem e citam a Autobiografia
nos seus livros. Este último transcreve muitos fragmentos no seu importante Cristo Gesù in Alexandrina. Era possível, a partir destes estudos
(e também de Figlia del Dolore Madre di
Amore), juncar o texto de notas, as mais das vezes bem úteis. Nós mesmo,
tendo estudado com afinco o período em que a autora viveu na Póvoa e tendo
recolhido tantos dados sobre os seus amigos, poderíamos acrescer por nossa
conta tais notas. Estudámos, além disso, a biblioteca do P.e José Cascão, o
reitor da Capela da Senhora das Dores ao tempo em que a Venerável a frequentou,
uma biblioteca que ajuda a entender muito melhor o contexto devocional em que
ela cresceu. Deixamos contudo esse aparato crítico para uma edição escrita
– quando houver empenho nesse sentido. As poucas notas que acompanham o texto
encontram-se na original de Balasar.
Terminamos
com o voto de que os amigos e admiradores da Venerável Alexandrina possam, com
esta cópia digitalizada da Autobiografia,
tornar ainda mais arraigada a devoção que já lhe dedicam.
José
Ferreira
Balasar,
20 de Outubro de 1940
Depois
de uns momentos de oração, a implorar auxílios do Céu e a luz do Divino Espírito
Santo para poder fazer o que o meu Padre espiritual me determinou, principio a
descrever a minha vida, tal qual como Nosso Senhor ma for recordando, embora com
grande sacrifício.
NASCIMENTO
E BAPTISMO – Eu chamo-me Alexandrina Maria da Costa, nasci na freguesia de
Balasar, concelho da Póvoa de Varzim, distrito do Porto, a 30 de Março de 1905[i],
numa quarta-feira de trevas, e fui baptizada a 2 de Abril do mesmo ano, era então
Sábado de Aleluia.
Serviram
de padrinhos um tio de nome Joaquim da Costa e uma senhora de Gondifelos,
Famalicão, de nome Alexandrina.
PRIMEIROS
ANOS DA MINHA INFÂNCIA – Encontro em mim, desde a mais tenra idade, tantos,
tantos defeitos, tantas, tantas maldades que, como as de hoje, me fazem tremer.
Era meu desejo ver a minha vida, logo desde o princípio, cheia de encantos e de
amor para com Nosso Senhor.
Até
aos três anos de idade não me recordo de nada, a não ser de algum carinho que
dos meus recebia. Com os meus três anos recebi o primeiro mimo de Nosso Senhor.
Como
era desinquieta e, enquanto minha mãe descansava um pouco, tendo-me deitado
junto dela, eu não quis dormir e, levantando-me, subi à parte de cima da cama
para chegar a uma malga que continha gordura de aplicar no cabelo – conforme
era uso da terra – e, por ter visto alguém fazê-lo, principiei também a
aplicá-la nos meus cabelos. Minha mãe deu por isso, falou-me e eu assustei-me.
Com o susto, deitei a malga ao chão, caí em cima dela e feri-me muito no rosto.
Foi preciso recorrer imediatamente ao médico que, vendo o meu estado,
recusou-se a tratar-me, julgando-se incapaz. Minha mãe levou-me a Viatodos, a
um farmacêutico de grande fama, que me tratou, embora com muito custo, porque
foi preciso coser a cara por três vezes e levou bastante tempo a cicatrizar a
ferida. O sofrimento foi doloroso. Ah, se desta idade soubesse já aproveitar-me
dele!... Mas não. Depois de um curativo, fiquei muito zangada com o farmacêutico;
este ofereceu-me alguns biscoitos e vinho, que depois de amolecidos no vinho
queria que os comesse. Eu tinha fome e, às vezes, até chegava a chorar porque
não podia mexer os queixos. Não aceitei a oferta e ainda maltratei o farmacêutico.
Ora aqui está a minha primeira maldade.
Pelos
quatro anos e meio de idade, punha-me a contemplar o céu (abóbada celeste) e perguntava aos meus se poderia chegar-lhe se
pudesse colocar umas sobre as outras todas as árvores, casas, linhas dos
carrinhos, cordas, etc., etc. Como me dissessem que nem assim chegaria, ficava
descontente e saudosa, porque não sei o que me atraía para lá.
Lembro-me
de que, nesta idade, tinha em casa uma tia doente, que morreu de cancro, e
chamava-me para ir embalar um filho, primeiro fruto do seu matrimónio, serviço
que fazia com toda a prontidão, quer de dia quer de noite.
Já
nesta idade amava muito a oração, pois lembra-me que minha tia pedia-me para
rezar com ela a fim de obter a sua cura.
DESENVOLVIMENTO
DA MINHA INSTRUÇÃO RELIGIOSA. FREQUÊNCIA DA CATEQUESE – Comecei a
frequentar a catequese e a dar mostras de um grande defeito, a teimosice. Um dia
fui à doutrina à igreja e o coadjutor do Senhor Abade, P.e António Matias,
indicou-me o lugar que devia tomar entre as meninas da minha idade, mas, como ia
acompanhada de outras mais velhas, quis tornar lugar delas. Por mais carinhos
que o Reverendo me fizesse e me mostrasse santinhos, eu não fui capaz de ceder
à sua ordem. Dias depois, Sua Reverência convenceu-me e ficou sendo muito meu
amigo e até me abrigava da chuva debaixo do seu viatório, de casa à igreja e
desta a casa. Lembro-me que era muito teimosa.
Quando
me encontrava na igreja, punha-me a contemplar os santos, e os que mais
encantavam eram as imagens de Nossa Senhora do Rosário e S. José, porque
tinham uns vestidos muito bonitos e eu desejava ter uns iguais aos deles. Não
sei se seria já princípio da manifestação da minha vaidade. Queria ter uns
vestidos assim, porque perecia-me que ficava mais bonita com eles.
E,
se nesta idade manifestava os meus defeitos, também mostrava o meu amor para
com a Mãe do Céu, e lembra-me com que entusiasmo cantava os versinhos a Nossa
Senhora e até me recordo do primeiro cântico que entoei na igreja, que foi «Virgem
pura, tua ternura, etc.»
Gostava
muito de levar flores às zeladoras que compunham o altar da Mãezinha.
VIVEZA
DE CARÁCTER – Era viva e tão viva que até me chamavam Maria-Rapaz. Dominava
as companheiras da minha idade e até as mais velhas do que eu. Trepava às árvores,
aos muros e até preferia estes para caminhar em vez das estradas.
Gostava
muito de trabalhar: arrumava a casa, acarretava a lenha e fazia outros serviços
caseiros. Tinha gosto que o trabalho fosse bem feito e gostava de andar
asseadinha. Também lavava roupa e, quando mais não tinha, era o meu
aventalinho que trazia à cinta. Quando não sabiam de mim, era quase certo
encontrarem-me a lavar num ribeiro que corria perto de casa.
Um
dia, fui com a minha irmã e uma prima apascentar o gado, entre ele uma égua. A
certa altura, a égua fugia para o lado do campo que estava cultivado e, como a
fosse tornar, ela atirou-me ao chão, dando-me com a cabeça, e depois
colocou-se sobre mim; de vez em quando raspava-me o peito com uma pata sobre o
meu coração, como quem brinca. Levantava-se, relinchava e voltava a fazer o
mesmo. Fez assim algumas vezes, mas não me magoou.
As
minhas companheiras gritaram e acudiram várias pessoas que ficaram admiradas de
eu sair ilesa da brincadeira do animal.
Quando
me encontrava com umas primas que moravam distantes, cantava com elas pelos
caminhos a Ave-Maria. Também gostava de cantar cantigas do campo e até me
lembro do lugar em que cantei a primeira quadra e da letra da mesma. Era assim:
Ó
Maria, dá-me lume,
Que
eu bem o vejo luzir.
Bota
o teu amor cá fora,
Que
eu bem o vi p’ra lá ir.
Uma
vez fui visitar a minha madrinha e tive de atravessar o rio Este, que levava
grande corrente, chegando a abalar umas pedras que serviam de passadiço; e, sem
reparar no perigo a que me expus, atravessei a corrente por essas pedras e a água
ia-me levando. Foi milagrosamente que escapei à morte, bem como minha irmã que
me acompanhava. Gostava muito de a (a
madrinha) visitar, porque ela dava-me bastante dinheiro. Pouco depois,
morria ela, e foi o meu primeiro desgosto. Tinha pena dela, do folar e da roupa
dos sete anos que me tinha prometido. Minha avozinha soube amenizar esse
desgosto, dando-me o folar todos os anos.
Tinha
eu 6 anos quando, de noite, me entretinha, por muito tempo, a ver cair sobre mim
inúmeras pétalas de flores de todas as cores, parecendo chuva miudinha. Isto
repetiu-se várias vezes. Eu via cair estas pétalas, mas não compreendia;
talvez fosse Jesus a convidar-me à contemplação das suas grandezas.
IDA
PARA A PÓVOA A FIM DE FREQUENTAR A ESCOLA – Em Janeiro de 1911, fui com a
minha irmã Deolinda para a Póvoa de Varzim, para frequentarmos a escola. Não
quero pensar quanto sofri com a separação da minha família. Chorei muito e
durante muito tempo. Distraíam-me, acariciavam-me, faziam-me todas as vontades
e, depois de algum tempo, resignei-me.
Continuei
a ser muito traquinas: agarrava-me aos americanos e deixava-me ir um pouco e
depois atirava-me ao chão e caía; atravessava a rua quando eles iam a passar,
sendo preciso o condutor deles acusar-me à patroa. Muitas vezes fugia de casa e
ia apanhar sargaço para a praia, metendo-me no mar, como fazem as pescadeiras;
trazia-o para casa e dava-o à patroa, que o vendia depois aos lavradores. Com
isto afligia a patroa, pois fazia isto às escondidas, embora rapidamente.
PRIMEIRA
VISTA DE JESUS À MINHA ALMA – Foi na Póvoa de Varzim que fiz a minha
Primeira Comunhão, com sete anos de idade. Foi o Senhor P.e Álvaro Matos quem
me perguntou a doutrina, me confessou e me deu pela vez primeira a Sagrada
Comunhão. Como prémio, recebi um lindo lenço e uma estampazinha. Quando
comunguei, estava de joelhos, apesar de pequenina, e fitei a Sagrada Hóstia que
ia receber de tal maneira que me ficou tão gravada na alma, parecendo-me unir a
Jesus para nunca mais me separar d’Ele. Parece que me prendeu o coração. A
alegria que eu sentia era inexplicável. A todos dava a boa nova. A encarregada
da minha educação levava-me a comungar diariamente.
RECEBI
O SANTO CRISMA – Foi em Vila do Conde onde recebi o Sacramento da Confirmação,
ministrado pelo Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo do Porto.
Lembro-me
muito bem desta cerimónia e recebi-a com toda a consolação. No momento em que
fui crismada, não sei o que senti em mim; pareceu-me ser uma graça
sobrenatural que me transformou e me uniu cada vez mais a Nosso Senhor. Sobre
isto, queria exprimir-me melhor, mas não sei.
AMOR
À ORAÇÃO – À medida que ia crescendo, ia aumentando em mim o desejo da oração.
Tudo queria aprender. Ainda conservo as devoções que aprendi na minha infância,
como: Lembrai-vos, ó puríssima Virgem
Maria, Ó Senhora minha, ó minha Mãe,
o oferecimento das obras do dia – Ofereço-Vos,
ó meu Deus –, a oração ao Anjo da Guarda, oração a S. José e várias
jaculatórias.
Quando
ia a passeio com a patroa para o campo, acompanhada com outras meninas, fugia do
convívio delas e ia colher flores que desfolhava para fazer tapetes na igreja
de Nossa Senhora das Dores. Era em Maio e toda me comprazia de ver o altar da Mãezinha
adornado de rosas e cravos e de respirar o perfume dessas flores. Algumas vezes,
oferecia à Mãezinha muitas flores que minha mãe propositadamente me levava.
O
capelão de Nossa Senhora das Dores organizou várias comissões de meninas para
angariar meios para o culto da mesma capela. Essas comissões espalhavam-se
pelas freguesias vizinhas da Póvoa de Varzim. Eu fui para a Aguçadoura e aceitávamos
tudo o que nos dessem, como batatas, cebolas, etc. Por mais que pedíssemos,
pouco arranjámos e tivemos a má ideia de saltar a um campo e tirámos batatas,
cerca de dois quilogramas. Fui eu uma das que fiz tal acção, enquanto outras
vigiavam. Entregámos as ofertas, não contando nada do que se tinha passado.
DEDICAÇÃO
PELA ENCARREGADA DA MINHA EDUCAÇÃO – Lembro-me de ir acompanhar a minha
patroa a Laundos cumprir uma promessa a Nossa Senhora da Saúde. Connosco foi
uma filha dela e a minha irmã. Esta ajudava-a pegando-lhe na mão, porque ia de
joelhos, e eu ia à frente dela e arrumava-lhe todas as pedrinhas que encontrava
no caminho. A filha, que era mais velha do que nós, foi para a brincadeira.
Era
muito dedicada à mulherzinha e, quando me davam qualquer coisa, como frutas,
doces, etc., repartia com ela, que ficava toda satisfeita. Eu procedia assim
porque o meu coração assim o queria, apesar de ser muito má.
Uma
ocasião, a minha irmã pediu-lhe licença para ir estudar à casa de uma colega
que morava perto de nós, e eu também queria ir. Como ela não me deixasse,
chorei e por fim chamei-lhe «poveira»; estava zangada. Não me castigou, mas
disse-me que não podia confessar-me sem lhe pedir perdão. Minha irmã disse-me
o mesmo. Isto fez-me muita repugnância e, como quisesse confessar-me e comungar,
venci o orgulho. Pus-me de joelhos e, de mãos erguidas, pedi-lhe perdão. Ela
comoveu-se até às lágrimas e perdoou-me. Senti uma grande alegria por já
poder no dia seguinte confessar-me e receber Jesus.
PERSEGUIÇÃO
DOS GUARDAS-REPUBLICANOS – Depois de umas férias, ia para a Póvoa, eu e a
minha irmã; tínhamos quem nos acompanhasse, mas só depois de atravessarmos a
freguesia. Íamos pelo caminho-de-ferro e avistámos ao longe dois
guardas-republicanos. Tivemos medo deles e refugiámo-nos na volta de um caminho.
Como minha irmã levasse um cestinho com linho, eles imaginaram que ela levava fósforos
(espera-galegos) – proibidos naquele tempo – e perseguiram-nos. Nós fugimos
e gritámos muito. Aos nossos gritos acudiram várias pessoas. Já estavam para
fazer fogo quando compreenderam que não éramos portadoras de tal contrabando.
Felizmente desta vez escapámos à morte.
Ainda
na Póvoa de Varzim, lembro-me que tinha muito respeito pelos sacerdotes. Quando
estava sentada à porta da rua, só ou com a minha irmã e primas, levantava-me
sempre à sua passagem, e eles correspondiam tirando o chapéu, se era de longe,
ou dando-me a bênção se passavam junto de mim. Observei algumas vezes que várias
pessoas reparavam nisto e eu gostava e até chegava a sentar-me propositadamente
para ter ocasião de me levantar no momento em que passavam por mim, só para
ter o gosto de mostrar a minha dedicação e respeito pelos ministros do Senhor.
REGRESSO
À TERRA NATAL – Passados dezoito meses, como minha irmã fizesse exame,
viemos embora. Minha mãe queria que eu continuasse, mas sozinha não quis ficar;
fiquei a saber pouco. Voltámos ao lugar onde nascemos e aí estivemos quatro
meses; depois fomos morar para perto da igreja, numa casa da minha mãe.
Uma
vez minha mãe deu-me uns soquinhos. Eu fiquei tão contente com eles, porque
eram lindos!... Para ver a figura que fazia com eles, preparei-me como se fosse
à Missa, calcei-os e depois ajoelhei-me, pondo-os à minha frente, fingindo que
estava na igreja. Como era vaidosa!
Era
muito amiga da minha irmã, mas, quando me zangava com ela, atirava-lhe com o
que tivesse à mão. Lembro-me de fazer isso pelo menos duas vezes. Quero que o
meu génio não fique encoberto. Também gostava de lhe fazer partidinhas e,
quando me levantava primeiro do que ela, punha-lhe à porta do quarto paus a
impedir-lhe a passagem para ela cair, quando por ali passasse. Era mesmo como
quem lhe chamava preguiçosa. Fazia várias partidas deste género. Também as
tinha de mau gosto, pois uma vez levantei a tampa de uma caixa e deixei-a cair
com força, começando a gritar, fingindo assim que me magoei. Minha irmã
acudiu logo e afligia-a bastante. Ficava muito pesarosa por a ter ofendido. Não
guardava ódio nenhum, antes queria acariciar as pessoas que ofendia. Apesar de
tudo isto e de subir às árvores – pois trepava muito bem – nunca fiz mal
às avezinhas. Não era capaz de tirar os ninhos, nem de brincar com os
passarinhos. Sofria muito quando via ninhos desfeitos ou quando ouvia o piar
triste e dolorido dos pais pelos filhinhos. Cheguei a chorar com pena das
avezinhas que ficavam sem os sus filhinhos ou destes que perdiam os seus pais.
Nas
reuniões de família, não sei o que dizia, mas dispunha bem as pessoas que me
rodeavam, que se riam a bom rir. Minha mãe dizia: «Os fidalgos têm um bobo
para os fazer rir e eu não sou fidalga, mas também tenho quem me esteja a
fazer festa».
AS
MINHAS PRIMEIRAS CONTEMPLAÇÕES – Pelos nove anos, quando me levantava cedo
para ir trabalhar nos campos e quando me encontrava sozinha, punha-me a
contemplar a natureza. O romper da aurora, o nascer do sol, o gorjeio das
avezinhas, o murmúrio das águas entravam em mim numa contemplação profunda
que quase me esquecia de que vivia no mundo. Chegava a deter os passos e ficava
embebida neste pensamento, o poder de Deus! E, quando me encontrava à beira-mar,
oh, como me perdia diante daquele grandeza infinita! À noite, ao contemplar o céu
e as estrelas, parecia esconder-me mais ainda para admirar as belezas do Criador!
Quantas vezes no meu jardinzinho, onde hoje é o meu quarto, fitava o céu,
escutando o murmúrio das águas e ia contemplando cada vez mais este abismo das
grandezas divinas! Tenho pena de não saber aproveitar tudo para começar nesta
idade as minhas meditações.
OS
MEUS ESCRÚPULOS – Lembro-me de dizer duas palavras que tomei por pecados,
sendo uma delas «diabo». Fiquei muito envergonhada e custou-me muito a
confessar-me delas. Não gostava de ouvir conversas maliciosas e, embora não
compreendendo o sentido delas, chegava a dizer que me retirava se não falassem
doutra forma. Também me indignava toda quando presenciava cenas indecentes
entre pessoas adultas. Tinha medo de perder a minha inocência e receio que
Nosso Senhor desse algum castigo.
Foi
aos nove anos que fiz pela primeira vez a minha confissão geral e foi com o Sr.
P.e Manuel das Chagas. Fomos, a Deolinda, eu e a minha prima Olívia, a
Gondifelos, onde Sua Reverência se encontrava, e lá nos confessámos todas três.
Levámos merenda e ficámos para arde, à espera do sermão. Esperámos algumas
horas e recorda-me que não saímos da igreja para brincar. Tomámos nosso lugar
junto do altar do Sagrado Coração de Jesus e eu pus os meus soquinhos dentro
das grades do altar. A pregação dessa tarde foi sobre o inferno. Escutei com
muita atenção todas as palavras de Sua Reverência, mas, a certa altura, ele
convidou-nos a ir ao inferno em espírito. Para mim mesma disse: «Ao inferno é
que eu não vou! Quando todos se dirigirem para lá, eu vou-me embora!», e
tratei de pegar nos soquinhos. Como não vi ninguém sair, fiquei também, não
largando mais os soquinhos.
AMOR
AOS POBREZINHOS, DOENTINHOS E VELHINHOS – Era muito amiga dos velhinhos,
pobrezinhos e enfermos e, quando sabia que alguém não tinha roupinha para se
vestir, pedia-a a minha mãe e ia levar-lha, ficando por vezes a fazer-lhe
companhia. Assisti à morte de alguns, rezando o que sabia e, por fim, ajudava a
vestir os defuntos, o que me custava imenso; fazia-o por caridade: não tinha
coração para deixar sozinha a família dos mortos e, por serem pobrezinhos,
fazia-o com muito gosto.
Dava
esmola aos pobres e sentia grande alegria em fazer obras de caridade. Algumas
vezes chorava com pena deles e por lhes não poder valer em todas as suas
necessidades. A minha maior satisfação
era dar-lhes daquilo que tinha para comer, privando-me assim do meu alimento.
Quantas vezes fiz isto!... Apesar de muito criança ainda, dei muitas vezes
conselhos a pessoas de bastante idade, evitando até que praticassem crimes
horrendos, e de tudo guardava absoluto silêncio. Vinham ter comigo e faziam-me
conversas que não eram próprias da minha idade, e eu confortava-as e
dizia-lhes o que entendia. Presenciei e soube de viários casos que por caridade
não contei.
Quanto
hoje estou agradecida a Nosso Senhor por ter procedido assim: era a Sua graça e
não a minha virtude!
AMOR
À ORAÇÃO – Gostava muito de ir à igreja e chegava-me para junto da minha
catequista[ii]
e rezava quanto ela queria. Não deixava dia nenhum de rezar a estação ao Santíssimo
Sacramento, meditada, quer fosse na igreja quer em casa, até pelos caminhos,
fazendo sempre a comunhão espiritual assim:
«Ó
meu Jesus, vinde ao meu pobre coração! Ah, Eu desejo-Vos, não tardeis! Vinde
enriquecer-me das Vossas graças; aumentai-me o Vosso santo e divino amor.
Uni-me a Vós! Escondei-me no Vosso Sagrado Lado! Não quero outro bem senão a
Vós! Só a Vós amo, só a Vós quero, só por Vós suspiro! Dou-vos graças,
Eterno Pai, por me haverdes deixado a Jesus no Santíssimo Sacramento. Dou-Vos
graças, meu Jesus, e por último peço-Vos a Vossa santa bênção! Seja
louvado em cada momento o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento da Eucaristia!»
Também
dizia várias jaculatórias, como «Bendito e louvado seja…» e «Graças e
louvores se dêem…»
Gostava
muito de fazer meditações ao Santíssimo Sacramento e à Mãezinha e, quando não
podia fazê-las de dia, fazias de noite, às escondidas de todos, reservando uma
vela, que escondida, para esse fim. Vidas de santos ou meditações muito
profundas não me satisfaziam, porque via que em nada ma assemelhava aos santos
e, em vez de me sentir bem, faziam-me mal.
GRAVE
DOENÇA – Aos doze anos, tive uma doença muito grave, chegando a receber os
últimos sacramentos. Preparei-me para morrer, e lembro-me que estava bem
disposta para a morte. Um dia em que a febre estava muito alta, delirei, mas
lembro-me que pedi à minha mãe que me desse Jesus; ela deu-me um crucifixo e
eu disse-lhe: «Não é esse que eu quero. Eu quero o Senhor do sacrário.»
PERÍODO
MAIS DOLOROSO DA MINHA VIDA DE TRABALHO – Dos doze aos catorze a os vivi com
regular saúde. Minha mãe pôs-me a servir em casa de um vizinho, mas, ao
ajustar-me, tirou certas condições, como: confessar-me todos os meses, passar
as tardes dos domingos em casa, para ir à igreja e estar sob o domínio dela, não
andar de noite, etc. A combinação foi de cinco anos, mas não estive até ao
fim. O patrão era um perfeito carrasco; chamava-me nomes, obrigava-me a
trabalhar mais do que as forças que tinha. Tinha mau génio e pouca paciência
– até os animais o conheciam, porque batia-lhes e assustava-os, sendo quase
impossível chamar o gado, quando ele ia junto do gado. Envergonhava-me sem
causa, fosse diante de quem fosse, e eu sentia-me humilhada. Apesar de estar no
princípio da minha mocidade, não sentia alegria com aquele triste viver. Um
dia fui à azenha levar a fornada, mas era já noitinha quando lá cheguei e,
portanto, muito tarde quando regressei a casa, pois gastava no caminho uma hora.
Depois que cheguei a casa, ralhou-me muito, insultou -me e até me chamou ladra.
O pai dele, homem velhinho, revoltou-se contra ele, defendeu-me, dizendo que eu
não tinha tido tempo para mais. Todos os dias vinha ficar à casa, e naquele
dia, como estava melindrada – porque a minha consciência não me acusava a
mais pequena falta – queixei-me a minha mãe que, depois de se informar do
caso, não me deixou voltar, apesar de pedir muito para que continuasse a
trabalhar lá. Minha mãe, vendo que ele não cumpria o contracto, tirou-me de
servir.
Uma
vez estive das dez horas da noite às quatro da manhã na Póvoa de Varzim a
tomar conta de quatro juntas de bois, porque o patrão e um seu amigo
ausentaram-se de mim; e eu, cheia de medo, lá passei aquelas horas tristíssimas
da noite. Enquanto vigiava o gado, ia contemplando as estrelas que brilhavam
muito e serviam de minhas companheiras.
Foi
aos doze anos que me deram o cargo de catequista e cantora; trabalhava com muito
gosto, tanto num cargo como noutro, mas pelo canto posso dizer que tinha uma
paixão louca.
Quando
comungava e me encontrava no meio das minhas companheiras a dar graças, sentia
uma humilhação tão grande que julgava a mais indigna de receber Jesus-Hóstia!...
UM
SONHO – Uma noite, ia da cozinha para a sala com ma candeia acesa e ela
apagou-se. Tratei de a acender, voltando à cozinha, mas ela apagou-se por várias
vezes, tendo de andar abaixo e acima. Não me recordo que fosse vento que a
pudesse apagar. Da última vez em que tentei acendê-la, caí, entornei o petróleo,
que me saltou para a a boca. Julgando que era o mafarrico, disse: «Podes ir
embora, que hoje não arranjas nada». Fui deitar-me muito sossegada, adormeci e
tive um sonho que se gravou na minha alma para nunca mais me esquecer. Foi assim:
Subi
ao Paraíso por umas escadinhas tão estreitinhas que mal me cabiam as pontas
dos pés. Foi com muita dificuldade e com
muito tempo que lá cheguei, porque não tinha nada onde me amarrar. Pelo
caminho, via algumas almas que ficavam ao lado das escadas, dando-me conforto
sem me falarem. Lá em cima, vi ao centro, num trono, Nosso Senhor, e, ao lado
d’Ele, a Mãezinha. Todo o céu estava cheio de bem-aventurados. Depois de
contemplar tudo isto, tive que vir à terra, o que eu não queria. Desci com
muita dificuldade e encontrei-me na terra, e tudo tinha desaparecido. Depois,
acordei.
UMA
TARDE DE RECREIO – Uma vela tarde, fui passear com as minhas primas para um
monte próximo de casa, onde andavam algumas jumentinhas a pastar. Atirei-me
para cima duma delas; como não sabia montar, fui cair, pouco depois, entre o
mato; mas não me feri nos picos dele. Ri-me a bom rir com as minhas companheiras.
Quando
recordo estas brincadeiras, tenho pena de as ter feito; antes queria só ter
amado Jesus.
UM
SALTO – Até aos catorze anos, trabalhei nos campos e com tal cuidado que me
pagavam o jornal como a minha mãe. Uma vez, andava a apanhar hera numa
carvalheira para dar ao gado e caí dela abaixo, ficado algum tempo sem me poder
mexer e sem respirar, levantando-me pouco depois para continuar o meu serviço.
Uma
ocasião, estando eu, minha irmã e uma pequena mais velha que nós a trabalhar
na costura, avistámos três homens: o que tinha sido meu patrão, outro casado
e um terceiro solteiro. Minha irmã, percebendo alguma coisa e vendo-os seguir o
nosso caminho, mandou-me fechar a porta da sala. Instantes depois, sentimos que
eles subiam as escadas que davam para a sala e bateram à porta. Falou-lhes
minha irmã. O que tinha sido meu patrão mandou abrir a aporta, mas, como não
tivessem lá ora, não lhes abrimos a porta. O meu antigo patrão conhecia em a
casa e subiu por umas escadas pelo interior da habitação e os outros ficaram
à porta onde tinham batido. Ele, não podendo entrar pelo interior por um alçapão
que estava fechado e resguardado por uma máquina de costura, pegou num maço e
deu fortes pancadas nas tábuas até rebentar o alçapão, tentando passar por aí.
Minha irmã, ao ver isto, abriu a porta da sala para fugir, mas essa ficou
presa, e eu, ao ver tudo isto, saltei pela janela que estava aberta e que
deitava para o quintal. Sofri um grande abalo porque a janela distava do chão
quatro metros. Quis levantar-me logo, mas não pude, porque me deu uma forte dor
na barriga. Com o salto caiu-me o anel que usava, sem dar por ela. Cheia de
coragem, peguei num pau e entrei pela porta do quintal para o eirado onde estava
a minha irmã a discutir com os dois casados. A outra pequena estava na sala com
o solteiro. Eu aproximei-me deles e chamei-lhes «cães» e disse que o deixavam
vir a pequena ou então gritava contra eles. Aceitaram a proposta e deixaram-na
ir.
Foi
nesta altura que dei pela falta do anel e disse-lhes de novo: «Seus cães, por
vossa causa perdi o meu anel». Um deles, que trazia os dedos cheios de anéis,
disse-me: «Escolhe daqui um.» Mas eu, toda zangada, respondi: «Não quero.»
Não lhes demos mais confiança; eles retiraram-se e nós continuámos a
trabalhar. De tudo isto não contámos a ninguém, mas minha mãe veio a saber
tudo. Pouco depois, comecei a sofrer mais e toda a gente dizia que foi do salto
que dei. Os médicos também afirmaram que muito concorrera para a minha doença.
SOFRIMENTOS
FÍSICOS E MORAIS – Aos catorze anos e quatro meses, deixei o trabalho para
sempre, embora há meses trabalhasse com muito custo. Principiei a consultar médicos,
coisa que me custava imenso. Eles tratavam-me de várias doenças; a princípio
tudo corria bem e todos tinham pena de mim e eu só sentia o desgosto dos meus
males. Isto durou bem pouco tempo. As minhas maiores amigas, pessoas da família
e o próprio pároco revoltaram-se contra mim. Chegaram a fazer caçoada de mim,
do meu modo de andar, da posição que tinha na igreja…, mas eu não podia
estar doutra forma.
O
Sr. Abade dizia-me que eu não comia porque não queria e se morresse que ia
para o inferno. Quando me ia confessar dizia-me também que o meu maior pecado
era não comer. Estas palavras fizeram-me sofrer muito sozinha; com Nosso Senhor
é que eu desabafava.
Quando
ia de casa para a igreja e desta para casa, olhava os montes em volta e pensava
fugir e refugiar-me onde mais ninguém me visse, mas Nosso Senhor nunca me
deixou fazer isto. Chorei tanto, tanto ao ver-me na situação em que me
encontrava… não me recordo bem do tempo que durou este sofrimento, mas sei
que não chegou a um ano.
Como
piorasse cada vez mais e ao verem o mau estado, foi o próprio Sr. Abade quem
aconselhou minha mãe a levar-me a um médico conhecido dele. Foi esse que me
veio tirar do martírio em que vivia, dizendo aos que lhe perguntavam que não
comia porque não podia. Apesar de estar longe de compreender todos os meus
sofrimentos, era muito meu amigo.
DORES
SEM ALÍVIO, DOZE ANOS DE PREOCUPAÇÃO CONTÍNUA – Nosso Senhor aliviou-me de
um, mas deu-me outro sofrimento maior ainda[iii].
Só dele teve conhecimento Jesus e, alguns anos mais tarde, o meu Pai espiritual.
Passaram-se
seis anos de doença, um pouco a pé, outro pouco na cama. Durante este período
cheguei a estar cinco meses sem me levantar, continuando no mesmo sofrimento
moral por espaço de doze anos sem nunca, nunca dizer nada a ninguém. Quando me
encontrava sozinha e presa no meu leito, voltava-me para o quadro da entronização
do Sagrado Coração de Jesus, pedia-lhe que me libertasse de tal sofrimento,
que me desse luz para conhecer o que havia de fazer, enquanto ia chorando muitas
lágrimas.
Não
deixei de pedir muito à Mãezinha para que intercedesse por mim nas mesmas
intenções.
TRATAMENTO
A SÉRIO DA MINHA DOENÇA, VÁRIAS PRETENSÕES DE CASAMENTO – Com os meus
dezasseis anos, pouco mais ou menos, fui continuar o meu tratamento para a Póvoa
de Varzim.
Numa
manhã, quando me dirigia para a igreja, percebi que alguém apressadamente se
aproximava de mim. Era um militar que se dirigia a mim a pedir-me namoro.
Recusei imediatamente, mas como ele insistisse e não deixasse de me acompanhar,
disse-lhe que se retirasse, que ia para a igreja. Pediu-me licença para estar
comigo quando voltasse da igreja. Prometi-lhe que estaria, só para me livrar
dele, com a ideia de trocar o caminho. Ao voltar, pus-me a ver se o via e, como
nada enxergasse, vim pela mesma rua. A certa altura surgiu-me ele, não sei de
onde, e disse-me: «Ó menina, você que me prometeu?», e tratava de me
acompanhar a casa. Parei e falei-lhe, dizendo que era doente e que minha mãe não
consentia que eu namorasse. Custou-me muito a convencê-lo. De repente, apareceu
a minha irmã e ralhou-me, pensando que eu estava a namorar. Não voltei mais
por aquele caminho, com receio de me encontrar com ele. Com isto, tudo terminou.
Várias
vezes me vi apoquentada por rapazes a pedirem-me namoro, mas nunca aceitei.
Cheguei a dizer a um que me falava em casamento: «Não deixo a minha família
por causa de um homem.»
Sendo
do conhecimento do Senhor Abade que um outro me pretendia, Sua Reverência
falou-me assim: «Se queres o rapaz, isso é tudo comigo.» Eu respondi-lhe: «Eu
estou boa para casar!», pois já me sentia bastante doente e, além disso, não
tinha inclinação nenhuma para o casamento.
Às
vezes pensava, se um dia fosse casada, como educaria os filhinhos para serem
todos de Nosso Senhor.
VIGILÂNCIA
DA QUERIDA MÃEZINHA – Com os meus dezoito anos, vi-me num perigo muito
grande, inesperadamente. Lembro-me que levava o meu tercinho na mão e que
apertei uma medalha da Nossa Senhora das Graças e, de repente, livrei-me do
perigo. Foi sem dúvida a Mãezinha do Céu a velar-me. Oh, como lhe estou
agradecida!...
DESEJOS
DE SER CURADA, CONFORMIDADE COM A VONTADE DE DEUS – Aos dezanove anos acamei
e, desta vez, não tive, como da outra, quem me dissesse: «Deixa passar algum
tempo, que ainda virás a levantar-te.» Nesta altura, o médico do Porto, Sr.
Dr. João de Almeida, informou minha mãe de que temia que eu entrevasse.
A
partir desta ocasião, comecei a ter por enfermeira minha irmã, porque minha mãe
ocupava-se em serviços do campo e minha irmã costurava. Tive momentos de desânimo,
mas nunca de desespero. Nada no mundo me prendia, só tinha saudades do meu
jardinzinho, porque amava muito as flores. Algumas vezes fui vê-lo, matar essas
saudades, ao colo da minha irmã. Tinha muitas saudades de Jesus, da nossa
igreja e, quando havia festas do Sagrado Coração de Jesus ou Missas cantadas,
eu chorava amargamente. Como era cantora, entristecia-me muito por ver a minha
irmã, que também cantava, e eu ficar. Quantas vezes ela me dizia: «Se lá
pudesses estar deitadinha, eu levava-te ao colo!» Chorava ela por ir e eu ficar
e chorava eu por a ver a sair e não poder acompanhá-la, mas conformava-me
sempre com a vontade de Nosso Senhor. A pouco e pouco, fui-me habituando à cama
e fui perdendo todas as saudades.
Nos
primeiros anos, fazia por me distrair e até pedia que jogassem às cartas
comigo, outras vezes jogava eu sozinha. Tenho pena de não ter pensado desde o
princípio como penso agora, de viver só unida ao meu Jesus.
Cheguei
a fazer algumas promessas para ser curada, como: cortar rente o meu cabelo (que
era para mim grande sacrifício), dar todo o meu ouro e vestir-me de luto toda a
minha vida, ir de joelhos desde a minha casa até à igreja. Minha mãe, irmã e
primas fizeram também grandes promessas. Por fim, compreendi que a vontade de
Nosso Senhor era que estivesse doente. Deixei de pedir a minha cura. No decorrer
dos anos, estive várias vezes às portas da morte; preparava-me com os últimos
Sacramentos e esperava a hora da morte resignada. Na medicina, não tinha outro
alívio senão um bocadinho de morfina que me injectavam.
A
DEVOÇÃO À MÃEZINHA, PREDILECÇÃO PELO MÊS DE MARIA – Todos os anos, no mês
de Maio, fazia o mês da Mãezinha. Gostava muito de o fazer sozinha: meditava,
cantava, rezava e chorava algumas vezes ao mesmo tempo que pedia à Mãe do Céu
que me libertasse da grande tribulação que estava a passar. Cantava o «Tantum
ergo» como se estivesse na igreja e fosse receber a bênção de Nosso Senhor.
Como não tinha o Santíssimo Sacramento em casa, nem nenhum sacerdote que me
viesse dar a bênção, pedia a Nosso Senhor que ma desse do Céu e de todos os
sacrários. Oh, que momentos tão
felizes!... Sentia cair sobre mim todas as bênçãos e amor de Nosso Senhor!
Nestes momentos, pedia a Jesus para abençoar toda a minha família e todas
aqueles que me eram queridos.
Como
não tinha nenhuma imagem da Mãezinha, nos primeiros anos, vinha uma de casa do
Senhor abade – o Coração de Maria. Durante o mês, tudo estava bem, mas ao
terminar sentia grandes saudades quando tinha de ficar sem a imagem. Principiei
a pensar na maneira de arranjar uma que fosse só minha. Como não tinha
dinheiro, várias pessoas ajudaram-me. Uma amiga deu-me uma franguinhas que
minha irmã foi criando até porem ovos, para mais tarde nascerem pintainhos.
Assim fui arranjando a quantia precisa para a imagem, redoma e altarzinho, etc.
Não sei descrever a consolação que senti ao ver que possuía para sempre a
imagem da querida Mãezinha e que ficaria a contemplá-la dia e noite.
NOVOS
DESEJOS DE SER CURADA. INTEIRA CONFORMIDADE COM A VONTADE DIVINA – Como me
falassem dos milagres de Fátima e sabendo eu, em 1928, que várias pessoas iam
à Cova da Iria, nasceram em mim desejos de ir também. O médico assistente e o
meu pároco não me deixaram, dizendo que era impossível ir tão longe, se eu
mal consentia que me tocassem na cama. O Sr. Abade dizia-me que pedisse daqui a
acura e que, depois, iria a Nossa Senhora de Fátima agradecer tão grande graça.
O médico prometeu passar o atestado se o milagre se desse.
Nesse
ano, o Sr. Abade foi a Fátima e perguntou-me o que queria de lá. Pedi-lhe que
me trouxesse uma medalha, mas ele ofereceu-me um terço, uma medalha, o «Manual
de Peregrino» e alguma água de Fátima. Sua Reverência aconselhou-me a fazer
uma novena a Nossa Senhora e a beber água de Fátima com o fim de ser curada. Não
fiz uma, mas muitas. Cantava muito e dizia às pessoas vizinhas que me visitavam:
se um dia me vissem pelo caminho e me ouvissem cantar, era eu que ia agradecer a
Nossa Senhora o benefício que recebia. Pensava que seria curada, mas enganei-me;
era a minha grande confiança na Mãezinha e em Jesus que me fazia falar.
Pensava: se for curada, vou logo, logo para religiosa, pois tinha medo de viver
no mundo. Nem sequer visitava a minha família. Queria ser missionária, para
baptizar pretinhos e salvar almas a Jesus.
Como
não consegui nada, morreram os meus desejos de ser curada e para sempre,
sentindo cada vez mais ânsias de amor ao sofrimento e de só pensar em Jesus.
Um
dia em que estava sozinha e, lembrando-me de que Jesus estava no sacrário,
disse:
«Meu
bom Jesus, Vós preso e eu também. Estamos presos os dois: Vós preso para meu
bem e eu presa das Vossas mãos. Sois Rei e Senhor de tudo e eu um verme da
terra. Deixei-Vos ao abandono, só pensando neste mundo, que é das almas a
perdição. Agora, arrependida de todo o coração, quero o que Vós quiserdes e
sofrer com resignação. Não me falteis, bom Jesus, com a Vossa protecção.»
OFERECI-ME
A JESUS COMO VÍTIMA – Sem saber como, ofereci-me a Nosso Senhor como vítima,
e vinha, desde há muito tempo, a pedir o amor ao sofrimento. Nosso Senhor
concedeu-me tanto, tanto esta graça que hoje não trocaria a dor por tudo
quanto há no mundo. Com este amor à dor, toda me consolava em oferecer a Jesus
todos os meus sofrimentos. A consolação de Jesus e a salvação das almas era
o que mais me preocupava.
Com a perda das
focas físicas, fui deixando todas as distracções do mundo e, com o amor que
tinha à oração – porque só a orar me sentia bem – habituei-me a viver em
união íntima com Nosso Senhor. Quando recebia visitas que me distraíam um
pouco, ficava toda desgostosa e triste por não me ter lembrado de Jesus durante
esse tempo.
PEQUENINOS SACRIFÍCIOS
POR AMOR DE JESUS – Por amor de Jesus e da Mãezinha, fazia sacrificiozinhos
como: deixava de me ver ao espelho, chegando a tê-lo muitas vezes na mão; não
falava quando me apetecia, e vice-versa; deixava de dormir durante a noite para
fazer companhia a Jesus. Comungava sacramentalmente poucas vezes, mas vivia
unidinha a Ele o mais possível. Consentia que as moscas me mordessem, etc.,
etc.
COMO HONRAVA JESUS E
A SSª VIRGEM – Para honrar Jesus e a SSª Virgem, escrevia em papéizinhos,
santinhos, etc., o que se segue:
«Amo-Vos, Jesus, de
todo o meu coração. Compadecei-Vos desta pobre doentinha e levai-a para Vós
quando for da Vossa vontade. Sim, amado Jesus? Nunca Vos esqueçais de mim, que
sou uma grande pecadora.»
Em 1930:
«Ó meu querido Jesus, quero ir visitar-Vos aos
Vossos sacrários mas não posso, porque a minha doença obriga-me a estar
retida no meu querido leito de dor. Faça-se
a Vossa vontade, Senhor, mas, ao menos, meu Jesus, permiti que nem um momento se
passe sem que à portinha dos Vossos sacrários eu vá em espírito dizer-Vos:
Meu
Jesus, quero amar-Vos, quero abrasar-me toda nas chamas do Vosso amor e
pedir-Vos pelos pecadores e pelas almas do Purgatório.»
Em
Maio de 1930, escrevi assim nas capas de um livrinho:
«Ó
minha querida Mãe do Céu, vinde apresentar ao Vosso e meu querido Jesus, nos
Vossos sacrários, as minhas orações e fazer mais valiosos os meus pedidos. Ó
Refúgio dos pecadores, dizei a Jesus que quero ser santa! Sim, Santíssima
Virgem? Ah, dizei-Lhe também que quero muitos sofrimentos, mas que não me
deixe sozinha nem um momento, porque só tenho que confundir-me, porque nada sou,
nada possuo, nada valho. Dizei-Lhe que O amo muito, mas que O quero amar ainda
muito mais. Quero morrer abrasada no amor de Jesus e no Vosso. Sim?
Dizei-Lhe muitas coisas de mim; fazei-Lhe todos os meus pedidos. Confio,
confio em Vós! Ó Maria, dai-me o Céu!»
Em
1931, escrevi no verso de um santinho isto:
«Ó
minha querida Mãe, rogai a Jesus por esta filhinha tão pobre, tão pecadora. Não
há outra como eu. Não mereço ser atendida. Como me tenho eu atrevido a
ofender o meu querido Jesus!? Que miserável eu tenho sido por ter ofendido o
meu Jesus!»
AS
MINHAS ORAÇÕES E UNIÃO ÍNTIMA COM JESUS SACRAMENTADO – Pela manhãzinha,
principiava a fazer as minhas orações, começando pelo sinal da cruz, e logo
me lembrava de Jesus Sacramentado, fazendo a comunhão espiritual e dizendo esta
jaculatória: «Sagrado Coração de Jesus, este dia é para Vós.» Repetia-a
por três vezes. Depois, continuava: «A Vossa bênção, Jesus! Eu quero ser
santa! Ó meu Jesus, abençoai a Vossa filhinha que quer ser santa.» Dizia também:
«Louvado seja Nosso Senhor… As Três Pessoas da Santíssima Trindade me abençoem,
assim como S. José, Maria Santíssima e todos os Anjos, Santos e Santas do Céu!
Que as bênçãos desçam sobre mim e nada terei que temer. Serei santa: são
esses os meus mais ardentes desejos.» Rezava três Gloria
Patri. Depois oferecia as horas do dia assim: «Ofereço-Vos, ó meu Deus,
em união…», Pai-Nosso, Ave-Maria
e Glória ao Pai… «Sagrado Coração de Jesus que tanto nos amais…»
e o Credo.
Depois
continuava: «Ó meu Jesus, eu me uno em espírito, neste momento e desde este
momento para sempre, a todas as Santas Missas que de dia e de noite se celebram
na Terra. Jesus, imolai-me convosco a cada momento no altar do sacrifício;
oferecei-me convosco ao Eterno Pai pelas mesmas intenções porque Vós mesmo
Vos ofereceis.»
Voltada
para a Mãezinha, dizia-lhe: «Ave Maria, cheia de graça! Eu vos saúdo, ó
cheia de graça! Ó Mãezinha, eu quero ser santa! Ó Mãezinha, abençoai-me e
pedi a Jesus que me abençoe!»
E
consagrava-me a ela assim: «Mãezinha, eu Vos consagro os meus olhos, meus
ouvidos, minha boca, meu coração; a minha alma, a minha virgindade, a minha
pureza, a minha castidade; a pureza e a virgindade de ……...
Aceitai,
Mãezinha, é Vossa, sois Vós o cofre sagrado, o cofre bendito da nossa riqueza.
Consagro-Vos o meu presente e o meu futuro, a minha vida e a minha morte, tudo
quanto me deram a mim, rezaram por mim e ofereceram por mim. Ó Mãezinha,
abri-me os Vossos santíssimos braços, tomai-me sobre eles, estreitai-me ao
Vossos santíssimo Coração, cobri-me com o Vosso manto e aceitai-me como Vossa
filha muito amada, muito querida, e consagrai-me toda a Jesus.
Fechai-me
para sempre no Seu Divino Coração e dizei-lhe que O ajudais a crucificar-me,
para que não fique no meu corpo nem na minha alma nada por crucificar. Ó Mãezinha,
fazei-me humilde, obediente, pura, casta na alma e no corpo. Fazei-me pura,
fazei-me um anjo. Transformai-me toda em amor, consumi-me toda nas chamas do
amor de Jesus. Ó Mãezinha, pedi perdão a Jesus por mim! Dizei-Lhe que é o
filho pródigo que volta a casa do seu bom Pai, disposto a segui-Lo, a amá-Lo,
a adorá-Lo, a obedecer-Lhe e a imitá-Lo. Dizei-Lhe que não quero mais ofendê-Lo.
Ó Mãezinha, obtende-me uma dor tão grande dos meus pecados, que seja tal o
meu arrependimento que eu fique pura, que eu fique um anjo! Pura como fiquei
depois do meu Baptismo, para que pela minha pureza mereça a compaixão de Jesus
de O receber sacramentalmente todos os dias e de possuí-Lo para sempre em mim
até dar o último suspiro. Mãezinha, vinde comigo para os sacrários, para
todos os sacrários do mundo, para toda a parte o lugar onde Jesus habita
sacramentado. Fazei-Lhe a minha humilde oferta. Oh, como Jesus ficará contente
com a oferta mais pobrezinha, mais miserável, mais indigna!... Ó Mãezinha, eu
quero andar de sacrário em sacrário a pedir favores a Jesus, como a abelhinha
de flor em flor, a chupar-lhe o néctar! Ó Mãezinha, eu quero formar um
rochedo de amor em cada lugar onde Jesus habita sacramentado, para que não haja
nada que possa intrometer-se entre o amor e ir ferir o Seu Santíssimo Coração,
renovar as Suas Santíssimas Chagas e toda a Sua Santa Paixão. Mãezinha, falai
no meu coração e nos meus lábios, fazei mais fervorosas as minhas orações e
mais valiosos os meus pedidos.
Ó
meu Jesus, eu me consagro toda a Vós. Abri-me de par em par o Vosso Santíssimo
Coração. Deixai que eu entre nesse Coração bendito, nessa fornalha ardente,
nesse fogo abrasador. Fechai-o, meu bom Jesus, deixai-me toda dentro do Vosso
Santíssimo Coração, deixai-me dar aí o meu último suspiro, embriagada no
Vosso divino amor, queimada nas chamas do amor. Não me deixeis separar de Vós
na terra senão para me tornar a unir a Vós no Céu, por toda a eternidade.
Jesus,
vou convidar a Mãezinha! É Ela quem Vos
vai falar por mim. Vou e já venho, sim, meu Jesus?
Ave
Maria, cheia de graça, eu vos saúdo, cheia de graça! Mãezinha, vinde comigo
para os sacrários, vinde cobrir o meu Jesus de amor. Oferecei-Lhe tudo quanto
se passar em mim, tudo quanto tenho costume de oferecer, tudo quanto se possa
imaginar, como actos de amor para Nosso Senhor Sacramentado.»
Dizia
três vezes: «Graças e louvor se dêem a cada momento…» e fazia a comunhão
espiritual já descrita. Nesta altura, dizia tudo isto que se segue a Nossa
Senhora, para Ela repetir ao Seu amado Filho por mim:
«Ó
Jesus, cá está a Mãezinha, escutai-a, é Ela quem Vos vai falar por mim.
Ó
querida Mãezinha do Céu, ide dar beijinhos aos sacrários, beijos sem conta,
abraços sem conta, mimos sem conta, carícias sem conta, tudo para Jesus
sacramentado, tudo para a Santíssima Trindade, tudo para Vós. Multiplicai-os
muito, muito e dai-os de um puro e santo amor, dum amor que não possa mais
amar, cheios de umas santas saudades por não poder ir eu beijar e abraçar a
Jesus sacramentado e à Santíssima Trindade a Vós, minha Mãe querida. Pois não
sois Vós a criatura mais amada e mais querida de Jesus? Oh! dai-os então em
meu nome, com esse amor com que amais e sois amada.
Ó meu Jesus, eu quero que cada dor que sentir, cada palpitação do meu
coração, cada vez que respirar, cada segundo das horas que passar, sejam
actos de amor para os vossos Sacrários.
Eu quero que cada movimento dos meus pés, das minhas
mãos, dos meus lábios, da minha língua, cada vez que abrir os meus olhos ou
os fechar, cada lágrima, cada sorriso, cada alegria, cada tristeza, cada
atribulação, cada distracção, contrariedades ou desgostos, sejam
actos de amor para os vossos Sacrários.
Eu quero que cada letra das orações que reze, ou
oiça rezar, cada palavra que pronuncie ou oiça pronunciar, que leia ou oiça
ler, que escreva ou veja escrever, que conte ou oiça contar, sejam
actos de amor para com os vossos Sacrários.
Eu quero que cada beijinho que Vos der nas vossas
santas imagens ou da vossa e minha querida Mãezinha, nos vossos santos ou
santas, sejam
actos de amor para os vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu quero que cada gotinha de chuva que cai
do céu para a terra, toda a água que o mundo encerra, oferecida às gotas,
todas as areias do mar e tudo o que o mar contém, sejam
actos de amor para os vossos Sacrários.
Eu Vos ofereço as folhas das árvores, todos os
frutos que elas possam ter, as florzinhas oferecidas pétala por pétala,
todos os grãozinhos de sementes e cereais que possa haver no mundo, e tudo o
que contêm os jardins, campos, prados e montes, ofereço tudo como
actos de amor para os vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu Vos ofereço as penas das
avezinhas, o gorjeio das mesmas, os pêlos e as vozes de todos os animais,
actos de amor para
os vossos Sacrários.
Ó
Jesus, eu Vos ofereço o dia e a noite, o calor e o frio, o vento, a neve, a lua,
o luar, o sol, a escuridão, as estrelas do firmamento, o meu dormir, o meu
sonhar, como
actos de amor para
os vossos Sacrários.
Ó Jesus, eu Vos ofereço
tudo o que o mundo encerra, todas as grandezas, riquezas e tesouros do mundo,
tudo quanto se passar em mim, tudo quanto tenho costume de oferecer-Vos, tudo
quanto se possa imaginar, como
actos de amor para os vossos Sacrários.
Ó Jesus,
aceitai o Céu, a terra, o mar, tudo, tudo quanto neles se encerra, como se esse
«tudo» fosse meu e de tudo pudesse dispor e oferecer-Vos como
actos de amor para os vossos Sacrários.
Nestas
ocasiões em que fazia estes oferecimentos a Nosso Senhor, sentia-me subir, sem
saber como, e ao mesmo tempo um calor abrasador que parecia queimar-me. Como não
compreendia a causa deste calor, ponha-me a observar se estava a transpirar,
porque me parecia impossível, sendo dias de grandes frios. Sentia-me apertada
interiormente, o que me deixava muito cansada.
Não
tenho a certeza, mas deveria ser numa dessas ocasiões que eu senti esta exigência
de Nosso Senhor: SOFRER, AMAR e REPARAR.
COMO
JESUS ME ENVIOU O MEU DIRECTOR ESPIRITUAL – Eu não tinha nem sabia sequer o
que era um director espiritual; apenas tinha o meu pároco como guia da minha
alma.
Como
minha irmã fizesse um retiro aberto das Filhas de Maria, tomou nessa ocasião
para seu director espiritual o conferente desse retiro, o Sr. Dr. Mariano Pinho.
Este, sabendo que eu estava doente, mandou pedir as minhas orações, prometendo
orar por mim. De vez em quando, mandava-me um santinho. Passaram-se dois anos, e
sabendo eu que ele estava doente, sem saber como, senti tanta pena que comecei a
chorar; minha irmã perguntou-me porque chorava, se o não conhecia sequer.
Respondi-lhe: «Choro, porque ele era meu amigo e eu também sou dele.»
Em
16 de Agosto de 1933, Sua Reverência veio à nossa freguesia fazer um tríduo
ao Sagrado Coração de Jesus, tomando-o então para meu director espiritual. Não
lhe falei nos oferecimentos que fazia ao sacrário, nem nos calores que sentia,
nem na força que fazia elevar, nem nas palavras que tomei como uma exigência
de Jesus. Pensava que era assim toda a gente. Só passados dois meses é que lhe
falei nas palavras de Jesus e do resto nada disse, porque nada compreendia como
coisas de Nosso Senhor. Apesar de Sua Reverência não me dizer que eram
palavras de Nosso Senhor, eu continuei sempre e cada vez mais unida a Nosso
Senhor. Quer de dia quer de noite eram os sacrários os meus lugares predilectos.
Em
8/9/1933, escrevi nas costas de um retrato meu assim:
«Ave
Maria, eu vos saúdo, ó minha Mãe Santíssima. Ó minha querida Mãezinha, que
hei-de eu dar-Vos no dia do Vosso aniversário? Não tenho mais nada que Vos
dar, dou-Vos o meu corpo e a minha vida. Quero ser toda Vossa. Não rejeiteis a
minha oferta, ó minha querida Mãe. Rogai a Nosso Senhor por mim, ouvistes?
Quero ser toda, toda Vossa. Dou-Vos quanto tenho.
Ó
meu Jesus, não rejeiteis nada do que peço à Vossa Mãe!
Sois
minha Mãe muito querida. Oh, quem me dera ter uma boa oferta para Vos dar, mas
ao menos tenho a boa vontade! Dai-me o Céu!»
Em
Agosto de 1934, voltou a fazer outra pregação aqui e então é que abri a
minha consciência. Nesta altura fui muito tentada pelo demónio, porque
lembrava-me que, uma vez que expusesse a minha vida, não mais quereria ser meu
director espiritual. Nessa altura Nosso Senhor disse-me:
«Obedece
em tudo ao teu Padre espiritual. Não foste tu quem o escolheste, mas eu quem to
enviei.» Sua Reverência apenas me perguntou a forma como ouvi estas palavras e
não me disse que era nem que não era Nosso Senhor.
Passados
dias, como minha irmã soubesse que demorava por muito tempo a fazer as minhas
orações, perguntou-me o que é que eu dizia. Nessa ocasião, expliquei-lhe em
que me ocupava durante todo aquele tempo e o que sentia nessas ocasiões,
dizendo-lhe que certamente era a fé e o fervor com que fazia todas as minhas
orações e ela concordou comigo. Pediu-me para que lhe dissesse tudo, para se
tornar fervorosa.
COMO
HONRAVA JESUS E A SANTÍSSIMA VIRGEM – No ano de 1934: «Ó minha Mãezinha do
Céu, eis aqui aos Vossos santíssimos pés uma alma que vos deseja amar. Ó
minha amável Senhora, eu quero um amor que seja capaz de sofrer só por amor de
Vós e por amor do meu querido Jesus! Sim, do meu Jesus que é o tudo da minha
alma. Ele é a luz que me alumia, é o pão que me alimenta, é o meu caminho
pelo qual eu quero seguir. Mas, minha soberana Rainha, sinto-me tão fraca para
passar por tantas contrariedades da vida!... Que será de mim sem Vós ou sem o
meu querido Jesus? Ó minha Mãezinha do Céu, lá do trono em que estais, vede
este meu triste viver. Vinde em meu auxílio. Abençoai-me e pedi a Jesus por
mim, vossa indigna filha.»
Noutra
ocasião de 1934: «Ó Jesus, que melhor companhia posso eu ter aqui neste leito
de dor, se Vós estiverdes sempre em mim, que só para Vós quero viver? Ó
Jesus, sabeis bem todos os meus desejos, que são: estar sempre presente nos
vossos sacrários, não me esquecer deles um momento. Dai-me força, bom Jesus,
para assim o fazer:
Ainda
em 1934:
«Ó
meu Jesus, meu Amado,
No
altar sacramentado,
Por
meu amor encerrado
Nesse
sacrário de amor.
Quisera
estar contigo, ó Jesus,
Dia
e noite e a toda a hora,
Porém,
agora não posso ir,
Bem
o sabeis, ó meu bom Pai!
Estou
presinha de pés e mãos;
Mais
presa quisera estar,
Juntinha
a Vós no sacrário,
Não
me ausentar um só momento.
Ó
Sacramento tão adorado
Do
meu Jesus, do meu Amado,
Eu
Vos saúdo aqui do leito,
Vinde
morar neste meu peito!
Fazei,
Senhor,
Dele
um sacrário
Para
eu poder,
Ó
bom Jesus,
Ser
Vossa esposa.
Ó
meu Amado,
Realizai
os meus desejos
Que
são, Senhor,
Possuir-Vos
em mim
Sacramentado.
Perdão,
meu Deus, eu não sou digna de tamanha graça, de Vos receber, mas não olheis
para a minha miséria, mas sim para a Vossa infinita misericórdia. Sim, meu
querido Jesus?»
No
dia da Anunciação, em 25 de Março de 1934: «Ave Maria, cheia de graça! Eu
Vos saúdo, ó cheia de graça! Soberana Rainha do Céu e da terra, Mãe dos
pecadores, eu, a mais indigna de todas as Vossas filhas, Vos agradeço de todo o
coração, ó Santa Mãe de Deus, por terdes consentido que o meu amabilíssimo
Jesus encarnasse em Vossas puríssimas entranhas para redenção da humanidade.
Sim, minha Mãezinha, encarnar, nascer, viver trinta e três anos no mundo e por
fim morrer numa cruz pelos miseráveis filhos de Eva! Entenda quem puder tantos
excessos de amor, que eu por mim só tenho que confundir-me e lamentar este meu
pobre coração por não ter correspondido a tanta bondade dos meus dois
queridos amores, Jesus e Maria! A mais indigna das Vossas filhas.»
Em1934:
«Meu Jesus, estou doente, não posso ir visitar-Vos às Vossas igrejas, mas,
meu querido Paizinho do Céu, estou a cumprir a missão que Vós destinastes
para mim. Seja feita a Vossa santíssima vontade em todas as coisas. Meu
Bem-amado, Vós sabeis os meus desejos, que são estar na Vossa presença no
Santíssimo Sacramento. Mas, já que eu não posso, mando-vos o meu coração, a
minha inteligência para aprender todas as Vossas lições, o meu pensamento
para que só em Vós pense, o meu amor para que só a Vós ame, só a Vós
busque, só por Vós suspire, só Vós, meu Jesus, em tudo e por tudo. Vós no
sacrário preso e abandonado e eu, Jesus, presa também. Mas fazei, Senhor, que
eu abandone tudo o que é do mundo, buscando-Vos só a Vós em todas as coisas,
que sois a luz da minha inteligência, sois as minhas delícias, sois todo o meu
bem. Oh, eu vos mando tudo quanto tenho que Vos possa agradar e fazer-Vos
companhia no Vosso sacrário de amor!»
Em
1934: «Queria, ó meu Jesus, na Vossa presença estar dia e noite, a toda a
hora, unida a Vós estar, e não Vos deixar, meu Jesus, sozinho na Sacramento,
nem um momento me ausentar e dar-Vos o que possuo e que tudo a Vós pertence: o
meu coração, o meu corpo com todos os seus sentidos. É toda a minha riqueza.»
A
Nossa Senhora, em 1934: «Ó minha Mãezinha do Céu, eu tenho tanta, tanta
confiança em Vós que não sei explicar-Vos o amor que Vos tenho.
Ó
minha Mãe, é muito, mas queria muito mais, muito mais; só Vós me podeis
alcançar essa graça e também o amor ao Vosso e meu querido Jesus. Ai,
aumentai-mo muito, muito! Abrasai-me em chamas de puro amor! Sim, sim, minha boa
Mãezinha!?»
CONHECIMENTO
PERFEITO DA VOZ DE NOSSO SENHOR. VISÕES CELESTES – Foi em Setembro de 1934
que eu compreendi que era a voz de Nosso Senhor e não uma exigência, como
julgava. Foi então que Ele me pediu e falou assim: «Dá-me as tuas mãos, que
as quero crucificar; dá-me os teus pés, que os quero cravar comigo; dá-me a
tua cabeça, que a quero coroar de espinhos como Me fizeram a Mim; dá-me o teu
coração, que o quero trespassar com uma lança, como Me trespassaram a Mim;
consagra-Me todo o teu corpo, oferece-te toda a Mim, que te quero possuir por
completo e fazer o que Me aprouver.»
Nosso
Senhor pediu-me isto duas vezes. Não sei dizer a minha aflição, pois não
queria escrever e não queria dizer à minha irmã, mas também não queria
ficar calada, porque compreendia que não era a vontade de Nosso Senhor. Tinha
que dizer ao meu Pai espiritual. Resolvi-me a fazer o sacrifício, pedindo à
minha irmã que escrevesse em meu nome tudo o que lhe ia ditar. Ela não olhava
para mim, nem eu para ela e, depois da carta escrita, tudo morreu para nós
ambas, não falando mais no assunto.
Até
esse tempo, sentia uma grande alegria para mim receber uma carta do meu director
espiritual. Desde então, toda essa consolação espiritual desapareceu. Temia
que ele me maltratasse, dizendo-me que tudo era falso. Eu cedi ao convite de
Nosso Senhor, mas pensava que esses sacrifícios fossem só sofrimentos, embora
maiores; não pensava em nada de sobrenatural. O meu director obrigou-me a que
escrevesse tudo, e durante dois anos e meio não me disse que era Nosso Senhor
– o que me fez sofrer bastante, apesar dos meus poucos conhecimentos.
Desde
então, tinha Jesus à minha ordem, falando-me de dia e de noite. Sentia grande
consolação espiritual; não me assustavam os meus sofrimentos. Em tudo sentia
amor ao meu Jesus e sentia que Ele me amava, pois d’Ele recebia carícias sem
conta. Só me desejava sozinha. Oh, como me sentia em no silêncio e muito
unidinha a Ele!...
Jesus
desabafava muito comigo. Dizia-me coisas tristes, mas as consolações e o amor
que me fazia sentir obrigavam-me a esquecer o Seus desabafos. Passava noites e
noites sem descansar, a contemplar quadros que Jesus me mostrava e em conversa
íntima com Ele. Umas vezes, via Jesus como jardineiro a cuidar das florinhas,
regando-as, guiando-as, etc; passeava pelo meio delas, mostrando-me variedade de
flores. Noutras vezes, aparecia-me em tamanho natural, mostrando-me o Seu Divino
Coração cercado de raios de amor.
Também
vi a Mãezinha uma vez, representando Nossa Senhora do Carmo, com o Seu Divino
Filho nos braços. Outras vezes como Nossa Senhora da Conceição. Oh, como era
bela!... Só queria amá-la e a Jesus! Só me sentia bem a sós com Eles!
COMO
MARTIRIZAVA O MEU CORPO – Tudo queria fazer por Seus amores e, para provar que
Os amava, algumas vezes fazia bolinhas de cera a atava-as na ponta de um
lencinho e com ele batia no meu corpo, escolhendo os lugares onde mais podia
sofrer, como fossem nos joelhos e sobre os ossos, ficando com o meu corpo
denegrido das pancadas.
Outras
vezes atava a trança dos meus cabelos aos ferros da minha cama e puxava a cabeça
com toda a força para a frente, para assim mais sofrer.
Ou
então dava nós na ponta da trança, açoitando-me com ela nas costas, no peito,
nos braços e em todas as partes onde a trança chegava.
Na
tarde de um domingo, tinha tantas ânsias de amor divino, não cabendo em mim de
ansiedades, suspirava por ficar sozinha, vendo partir todos os meus para a
igreja. Como de costume, queriam fazer-me companhia, mas eu preferia ficar
sozinha, pois só com Jesus é que me sentia bem. Logo que me deixaram a sós
com Jesus, foi então que lhe provei quanto O amava. Peguei num alfinete que
segurava as minhas medalhinhas espetando-o sobre o meu coração; mas como não
visse aparecer sangue, enterrei-o ainda mais e retorci as fibras até rebentarem,
surgindo sangue. Tomei a caneta e um santinho e com o meu sangue escrevi assim:
«Com
o meu sangue Vos juro amar-Vos muito, meu Jesus, e seja tal o meu amor que morra
abraçada à cruz! Amo-os e morro por Vós, meu querido Jesus, e nos Vossos sacrários
quero habitar, ó meu Jesus. Balasar, 14/10/1934:»
Logo
que acabei de escrever isto, foi tal a repugnância e aflição que senti,
tentando rasgar imediatamente o santinho, mas não seu o que foi que me impediu
de o fazer; não senti nenhuma consolação com esta prova que Lhe dei. Quando
minha irmã regressou da igreja, eu estava numa grande inquietação; não lhe
disse o que tinha feito, mas mostrei-lhe o santinho, e ela exclamou: «Ai, minha
marota, o que tu fizeste! Assim que o Sr. P.e Pinho o souber…» Eu
respondi-lhe: «Ai, não lho digo!» Mas contei isso e tudo o mais que tinha
feito. Sua Reverência perguntou-me quem tinha dado licença, ao que respondi:
«Não sabia que era preciso pedir licença.» Desde então proibiu-me de voltar
a fazer coisas deste género.
A
PRIMEIRA MISSA CELEBRADA NO MEU QUARTINHO. PRINCÍPIO DA PERDA DOS NOSSOS BENS
– Em 20 de Novembro de 1933, tive a graça de ter pela primeira vez o Santo
Sacrifício da Missa no meu quarto. Principiou Nosso Senhor a aumentar-me os
Seus miminhos, para também aumentar o peso da minha cruz.
Bendito
seja Ele e bendita a sua graça que nunca me faltou!
Começámos
agora a sofrer muito com a perda dos nossos bens. Nesse tempo, já a nada do
mundo tinha apego, contudo sofria amarguradamente por ver que tudo quanto possuíamos
não chegava para satisfazer as dívidas de que a mãe era fiadora. Eu dizia que
não queria ficar com o valor de um tostão, enquanto tivéssemos que pagar.
Faltou-me muitas vezes o alimento que melhor poderia comer e só me alimentava
daquilo que tínhamos, mas que prejudicava o meu estado de físico. Sofria em
silêncio e não dizia que comia dessas coisas por não ter outras melhores, e
minha família julgava que eu comia com gosto e assim não a desgostava
pedindo-lhe aquilo que não tinha para me dar. Tudo que me ofereciam para comer
cedia à minha irmã, porque nessa altura ela encontrava-se bastante doente. Eu
pensava assim: já que não tenho cura, que ao menos ela possa melhorar.
A
minha família chegou a passar muitas privações e até, por vezes, chegaram a
comer o caldo sem adubo, porque não contávamos a nossa vida a ninguém. Chorei
muitas lágrimas, mas procurava sempre que não me vissem chorar. Era de noite
que desabafava com o meu Jesus e com a Mãezinha. Benditas lágrimas que mais me
uniram a Jesus e a Maria e mais firmaram a minha confiança n’Eles.
Esta
situação durou cerca de seis anos. Procurava ser o conforto da minha família.
Quantas vezes ela chorava em altos gritos e eu dizia-lhes que confiassem em
Nosso Senhor. Ele também tinha sido pobre e alegrava-me por Jesus nos ter
assemelhado à Sua pobreza.
Cheguei
a ter medo de ficar acompanhada pela mina mãe, porque ela procurava estar
comigo sozinha para desabafar e, por mais que a confortasse e lhe dissesse que
tivesse confiança, ela na sua dor dizia-me palavras desagradáveis. Eu pedia
quase continuamente a Jesus que nos valesse e, no fim da Sagrada Comunhão,
dizia a Jesus: - «Vós dissestes: pedi e recebereis; batei e abrir-se-vos-á.
Eu peço e hei-de ser ouvida; bato e hei-de ser atendida. Ó Jesus, não Vos peço
honras, grandezas, nem riquezas, mas peço-Vos que nos deixeis a nossa casinha,
para que minha mãe e irmã tenham onde viver até ao fim da vida, para que
minha irmã tenha onde colher as florinhas para compor o Vosso altar na igreja,
aos sábados. Ó Jesus, todas as florinhas são para Vós. Jesus, acudi-nos, que
perecemos! Levai esta notícia longe, a
quem nos possa acudir! Não Vos peço este nem aquele meio, porque não sei!
Confio em Vós!»
É
bem verdade, nunca é demais a confiança! Em nossa casa não havia momentos de
alegria. Quantas vezes nos faltava aquilo que nos era indispensável e eu, no
fundo, estava sempre alegre com a vontade de Deus. Confiava cegamente n’Ele.
Escondia o mais possível a minha dor, procurando em tudo animar os meus. A
minha prece foi ouvida. Passaram-se seis anos de aflições e de lágrimas.
Jesus ouviu a nossa prece. Foi mesmo longe, muito longe que uma senhora veio dar
remédio ao nosso mal, que não acabou por acanhamento meu. Não disse tudo
quanto devíamos, porque Nosso Senhor assim o permitiu, para que se prolongasse
por mais tempo o meu sofrimento. Deu-nos ela o bastante para não vendermos a
nossa casinha. Eu chorei mais de confusão do que de contentamento ao receber tão
grande graça de Nosso Senhor. Não sabia como havia de Lhe agradecer. Parecia
que estava louquinha e dizia a Jesus: «Muito obrigada! Muito obrigada!»
É
indizível a alegria que a minha mãe e irmã sentiram quando receberam a
quantia que as aliviou das grandes preocupações em que viviam. É impossível
descrevê-las, pois foram tantas e tão grandes!... Que Jesus aceitasse todas
estas aflições, e bendito Ele seja por tudo. Só com Ele se podia vencer!
COMO
HONRAVA JESUS E A SANTÍSSIMA VIRGEM – Em 1935: «Coração meu, a quem amas a
não ser o teu Jesus? É a riqueza do Céu, é o amor dos sacrários, o alimento
das almas famintas do Seu amor, é o pastor compassivo das ovelhas desgarradas
que há muito Lhe têm fugido. Procura-as por toda a parte, chama-as, não
descansa enquanto as não alcança. Depôs de as ter consigo, abraça-as,
acaricia-as.»
O mês de Maria, em 1935
– Desejosa de consolar a Mãezinha e por seu amor sofrer alguma coisa, pensei
em escrever nuns pedacinhos de papel uns pensamentos todos os dias do mês de
Maio. Em cada dia tirava um à sorte e procurava viver segundo o que estava
escrito. Isto só com o fim de consolar Jesus por meio da Mãezinha. Eis o que
saiu para cada dia do mês:
1
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para
obter um amor doido a Jesus Sacramentado e para que seja amado de todos no Santíssimo
Sacramento.
2
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelas
intenções do meu padrinho e família.
3
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelos
pecadores que me estão muito recomendados.
4
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo por
todos os pecadores do mundo.
5
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para
obter um amor doido a Maria Santíssima.
6
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelos
sacerdotes.
7
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelas
intenções que me estão recomendadas.
8
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelo
meu director espiritual.
9
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para
obter o amor dos anjos, dos querubins e dos serafins.
10
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo sem em
queixar.
11
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelo
que for da vontade de Nosso Senhor.
12
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo em memória
da Paixão de Nosso Senhor.
13
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pela
minha mãezinha.
14
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, mortificarei o mau
corpo.
15
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei só para
viver para Jesus e para Maria.
16
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelo
Santo Padre e pelas necessidades da Santa Igreja.
17
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei pelas Dores
de Nossa Senhora.
18
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei pela minha
querida Çãozinha.
19
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, entrego-Lhe o meu
corpo como vítima e renovo o meu voto de virgindade e pureza.
20
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para só
pensar em Jesus e Maria.
21
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para
ser muito amiga do meu Anjo da Guarda.
22
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, guardarei o silêncio.
23
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para
obter o amor da Santíssima Trindade.
24
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei para alcançar
tudo de Nosso Senhor e ser santa.
26
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, renovarei o voto de
oferecer tudo pelas Almas do Purgatório.
27
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo, em
primeiro lugar, pela Nossa Cruzada Eucarística e por outra que me foi
recomendada e por todas do mundo inteiro.
28
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pela
conversão e necessidade de toda a minha família.
29
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelos
pecadores que estão para mais depressa irem para a presença do Senhor.
30
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para
obter o amor de todos os santos e santas.
31
– Por amor de Maria Santíssima e de Jesus Sacramentado, não comerei
sobremesa.
No
primeiro de Maio, aos pés de Maria: um verdadeiro e sincero amor da minha parte
para com a minha Mãe Santíssima e para com Jesus Sacramentado.
Em
1 de Maio de 1935: «Mãe de Jesus e Mãe minha, ouvi a minha oração: eu Vos
consagro o meu corpo e todo o meu coração. Purificai-me, Mãe Santíssima.
Enchei-me do Vosso amor. Colocai-me mesmo Vós junto a Jesus nos sacrários,
para lhe servir de lâmpada enquanto o mundo durar.
Aceitai,
ó Mãe do Céu, as
Em
1936, já sem forças para escrever por minha mão e querendo dar a mesma prova
a Jesus e à Mãezinha do ano anterior, pedi à minha irmã para escrever os
pensamentos que se seguem em bilhetinhos, para em cada ia tirar um, sofrendo e
amando segundo essa intenção. Seguem os pensamentos:
1
– Por amor de Jesus e para muita consolação da Mãe do Céu, vou sofrer tudo
pelos sacerdotes, para que eles sejam o que Jesus quer: cumpridores dos seus
deveres e muito santos.
2
– Para consolar muito, muito a querida Mãezinha do Céu, vou sofrer neste dia
para que Jesus seja amado, muito amado na Santíssima Eucaristia.
3
– Por amor de Jesus e de Maria Santíssima, sofrerei neste dia pelas intenções
das pessoas que tenho costume de pedir mais em particular.
4
– Por amor de Jesus e de Maria Santíssima, sofrerei neste dia pelo bom êxito
das missões, para que em breve ressoe dum cantinho ao outro do mundo a palavra
de Jesus, única verdade.
5
– Por amor de Jesus e de Maria Santíssima, sofrerei tudo hoje pelos pecadores
que me estão recomendados.
6
– Por amor de Jesus e de Maria Santíssima, e como prova da minha gratidão
para com Eles, sofrerei hoje pelo meu Pai espiritual. Devo-lhe tanto, tanto!...
7
– Por amor de Jesus e da Mãezinha do Céu, sofrerei neste dia pela paz das nações
e para que Jesus as converta.
8
– Por amor de Jesus e para obsequiar a querida Mãezinha do Céu, sofrerei
tudo para que Ela seja amada e querida por todos os que vivem e hão-de ao fim
dos séculos, e que em breve a ela seja consagrado o mundo inteiro.
9
– Por amor de Jesus e da minha Santíssima Mãe, sofrerei hoje tudo pela minha
irmãzinha da Sertã, pelas melhoras da irmã dela e por todas as suas
necessidades.
10
– Por amor de Jesus e de Maria Santíssima, sofrerei tudo hoje para a canonização
e beatificação de todos os santos, para que seja dada muita honra e glória a
Nosso Senhor.
11
– Por amor de Jesus e de minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelo meu
Pai espiritual, pela minha família e pelas necessidades por que mais se
interessa e lhe são mais recomendadas.
12
– Por amor de Jesus e de Maria Santíssima, sofrerei hoje tudo por toda a família
da Çãozinha.
13
– Por amor de Jesus e de Maria Santíssima, sofrerei tudo neste dia pela minha
irmã, para que ela seja muito santa.
14
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelo Sr.
Padre Manuel Araújo, pela irmã e sobrinha.
15
– Por amor de Jesus e de Maria Santíssima, sofrerei tudo pelos sacerdotes que
desprezaram a lei de Nosso Senhor, esquecendo-se do honroso nome de Seus discípulos,
para que voltem a amar Jesus e as almas.
16
– Por amor de Jesus e da Mãe Santíssima, sofrerei neste dia pela conversão
dos pecadores que estão mais perto de dar contas a Nosso Senhor, para que
morram em estado da Sua divina graça.
17
– Por amor de Jesus e da Mãezinha do Céu, sofrerei tudo para que não venha
o bolchevismo para Portugal.
18
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei neste dia pelas
pessoas que me são mais queridas, para que Nosso Senhor lhes conceda todas as
graças e as faça santas.
19
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei neste dia para que
seja dada muita honra e glória à santíssima Trindade e que todos conheçam o
divino tesouro que trazem dentro de si.
20
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pela Çãozinha,
para que seja muito santa, e pelas suas necessidades.
21
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei tudo neste dia pela
conversão dos pecadores do mundo inteiro. Tanto, que não queria que fossem
mais alminhas para o inferno!...
22
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelas
necessidades do meu padrinho e família, para que nosso Senhor os ajude.
23
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei tudo hoje para ser
mais humilde, mais obediente, mais pura, toda abrasada no amor do querido
Paizinho e da querida Mãezinha do Céu.
24
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo para
obter de Nosso Senhor a graça de chegar ao maior grau de santidade.
25
– Por amor de Jesus e para agradar muito à querida Mãezinha do Céu, quero
hoje orar e sofrer muito pelo Santo Padre. É o pai espiritual do mundo inteiro,
é luz e guia de todas as almas, precisa do nosso auxílio.
26
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelo bom
resultado da «Acção Católica» e da nossa «Cruzada».
27
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelo bom
resultado da Acção Católica e da Cruzada Eucarística do mundo inteiro. Que
todos fossem santos, é o meu desejo.
28
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo por toda
a minha família.
29
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelas
necessidades da minha mãe, para que ela seja muito santa.
30
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei tudo neste pelo
triunfo da Santa Igreja.
31
– Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo para me
converter deveras a Nosso Senhor, cumprindo em tudo a Sua santíssima vontade,
sendo o que Ele quer que eu seja.
Em
31 de Maio de 1936 escrevi assim:
Mãezinha,
eu venho humildemente aos vossos pés depor as flores espirituais que durante o
mês colhi. Estou envergonhada e confundida. Que pobreza! Em que estado Vo-las
entrego! Estão tão murchas, tão desfolhadas! Mas Vós, ó querida Mãezinha
celestial, podeis transformá-las. Reverdecei-as, abrilhantai-as e ide consolar
e perfumar com elas a Jesus por mim. Falai-lhe das minhas penas e das minhas
aflições. Bem sabeis tudo o que me faz estar atribulada. Fazei-Lhe comigo de
novo todos os meus pedidos e despachai Vós, em nome de Jesus, Vo-lo peço, as
pobres
Querida
Mãezinha, neste último dia do Vosso bendito mês, como despedida, já que nada
mais tenho para Vos dar, dou-Vos todo o meu corpo e Vos peço, por quem sois,
que mo guardeis e me tomeis para sempre nos Vossos santíssimos braços, como
Vossa filha muito querida. Abençoai-me, pedi a Jesus Sacramentado que me abençoe
também e toda a Santíssima Trindade.
Adeus,
Mãezinha, perdoai-me tudo.
A
pobre Alexandrina Maria da Costa (a
assinatura é da própria Alexandrina).
AS
MINHAS ORAÇÕES E UNIÃO COM JESUS SACRAMENTADO – Ó meu querido Jesus, eu me
uno em espírito, neste momento e desde este momento para sempre, a todas as
santas Hóstias da terra, em cada lugar onde habitais sacramentado. Aí quero
passar todos os momentos da minha vida, constantemente, de dia e de noite,
alegre ou triste, só ou acompanhada, sempre a consolar-Vos, a amar-Vos, a
louvar-Vos e a glorificar-Vos. Ó Meu Jesus, eu queria tantos actos de amor
meus, constantemente a cair sobre Vós, de dia e de noite, como a chuva miudinha
cai do céu para a terra num dia de inverno. Não
queria só meus, mas de todos os corações de todas as criaturas do mundo
inteiro!... Oh, como eu Vos queria amar e
ver amado por todos!... Vede, Jesus, os meus desejos, aceitai-mos já, como se
eu Vos amasse. Ó Jesus, nem um só sacrário fique no mundo, nem um só lugar
onde habiteis sacramentado, sem que hoje, e desde hoje para sempre, em cada
momento da minha vida, eu esteja lá sempre a dizer:
«Jesus,
eu amo-Vos! Jesus, eu sou toda Vossa! Sou
a Vossa vítima, a vítima da Eucaristia, a lampadazinha das Vossas prisões de
amor, a sentinela dos Vossos sacrários! Ó Jesus, eu quero ser vítima dos
sacerdotes, a vítima dos pecadores, a vítima do Vosso amor, da minha família,
da Vossa Santíssima Paixão, das Dores da Mãezinha, do Vosso Coração, da
Vossa santa Vontade, a vítima do mundo inteiro!... Vítima da paz, vítima da
consagração do mundo à Mãezinha!»
MORTE
APARENTE – Em 1935, Nosso Senhor preveniu-me de que iria morrer antes da festa
da Santíssima Trindade de 1936. Como não conhecia outra morte, pensava que era
deixar este mundo e partir para a eternidade. Nesse tempo, tudo eram mimos,
consolações e alegrias espirituais. À medida que se ia aproximando o dia da
Santíssima Trindade, aumentava a minha alegria e contentamento. Ia passar no Céu
a festa dos meus tão queridos Amores, como lhes chamava: Pai, Filho e Espírito
Santo.
Os
males do corpo iam aumentando e tudo dava sinal da minha partida. Dois dias
antes, Nosso Senhor disse-me que morreria das 3h às 3,5 da manhã e que
mandasse vir o meu Pai espiritual. Assim o fiz. Ele chegou ao cair da tarde e
passou a noite junto de mim. Preparei-me para morrer. Sua Reverência fez comigo
um acto de inteira resignação e conformidade com a vontade de Deus. Pedi perdão
à minha família, a cantar de alegria, assim:
Feliz,
oh, feliz
Se
eu tal conseguia,
Morrer
a cantar
O
nome de Maria!
Feliz
quem mil vezes,
Na
longa agonia,
Com
amor repete
O
nome de Maria.
A
aflição ia aumentando, à hora marcada por Nosso Senhor, não sei o que senti,
deixando de ouvir o que se passava à volta de mim. O meu Pai espiritual e a
minha família rezaram o ofício da agonia, acenderam uma vela benzida,
meteram-ma nas mãos, mas eu já não dei por isso, e assim estive algum tempo.
Julgavam-me
já quase morta e choravam por mim. Nessa altura, já ouvi os choros dos meus;
principiei a respirar e, pouco a pouco, reanimei-me, mas, ainda debaixo do mesmo
estado, pensei: Estais a chorar e eu sempre morro. Estava sempre a ver quando
aparecia na presença de Nosso Senhor. Não tinha pena por deixar o mundo e os
meus queridos. Quando via que ia melhorar e que não se cumpriam as palavras de
Jesus, caiu sobe mim uma tristeza que não se pode calcular e um peso esmagador.
Eram
horas do meu Director espiritual se retirar, não tendo tempo para me dizer umas
palavrinhas de conforto. Passei a festa da Santíssima Trindade como uma
moribunda e dentro de mim tudo era morte. As lágrimas corriam-me, as dúvidas
eram quase insuportáveis, porque não só me tinha enganado no que dizia
respeito a este dia, isto é, à morte, como também em tudo quanto Nosso Senhor
me tinha dito antes deste dia. Nos dois primeiros dias a seguir, parecia-me que
todo o mundo estava morto. Não havia sol, nem lua, nem dia para mim. Era quase
insuportável o meu viver. Aproximavam-se de mim a Deolinda e a Çãozinha, únicas
pessoas que sabiam do caso, e diziam: «Não falas para nós? Não te ris?» Eu
respondia-lhes: «Retirai-vos de mim!” Já não sou a mesma! Jamais me vereis
rir; não haverá sol que me alumie!» – e chorava. Debaixo da maior dor e
amargura, falava-lhes de tal forma que elas não tinham mais que me dizer.
Estavam
as duas a combinar em ir uma delas ter com o meu Director espiritual, quando de
repente apareceu o Sr. Dr. Oliveira Dias, que vinha em nome do meu Pai
espiritual confortar a minha alma. Sua Reverência tinha-lhe contado tudo e,
como não pudesse vir pessoalmente, pois estava em pregação, compreendendo bem
o meu sofrimento, tratou de nos aliviar.
Sua
Reverência, o Sr. Dr. Oliveira Dias, esclareceu-me o caso, contando-nos várias
passagens que se tinham dado com alguns santos e desde então fiquei a saber que
se tratava da morte mística, da qual nunca tinha ouvido falar. O Sr. Dr.
Oliveira Dias pareceu-me um anjo que veio do Céu serenar a tempestade da minha
alma. Continuei a viver muito atribulada, pois Jesus pareceu morrer também,
ficando alguns meses sem ouvir a Sua divina voz. Quando aumentava a agonia da
alma, recordava os casos que me tinham sido contados e animava-me com o que
dizia o meu Pai espiritual.
UMA
VISÃO – Pelos fins do ano de 1936, numa noite, apresentou-se diante de mim, a
pequena distância, um prado muito viçoso e florido. As flores eram açucenas.
E tantas que eram!... E tão perfeitas!... Por entre ela pastava um grande
rebanho de ovelhinhas, sendo impossível contá-las. O pastor era Jesus, em
tamanho natural, muito belo e com um cajado na mão. Aproximei-me desse prado e,
quando ia entrar nele, tudo se transformou num caminho árido e seco. Caminhei
por uma encosta difícil de subir. Ao cimo do monte, havia um caminho bastante
assustador, porque tudo eram silvas e espinhos. Ao meu lado esquerdo, ouvia
gemidos de ovelhinhas. Queria aproximar-me delas para ver a causa dos seus
gemidos, mas uma enorme ribanceira, escura, profunda, impedia-me de ver as
ovelhinhas e a causa dos seus sofrimentos. Sentia que sofriam muito.
Continuei
a caminhar por aquele caminho e, mais acima, ao lado direito, ouvia a mesma
coisa. Nessa altura, vi a causa de tão grande sofrimento: estava uma ovelhinha,
de lã branca, mas muito suja e presa pela lã a enormes espinhos, caída sobre
eles. À primeira impressão, entendi que aqueles gemidos não podiam ser de
saudades pela sua mãe, porque a ovelhinha já era grandinha. Ao ver o estado
dela, tive tanta pena que me aproximei e, com todo o amor e carinho, fui
vagarosamente depreendendo-a dos espinhos. Depois de a soltar, desapareceu da
visão.
Isto
nunca mais me esqueceu e conto-o com a maior facilidade, porque ficou-me bem
gravado na minha memória e na minha alma.
UMA
GRANDE CRISE, SINTOMAS DE MORTE – Em fins de Abril de 1937, passei por uma
grande crise que me levou às portas da morte. Principiei a vomitar de dia e de
noite, nada conservando no estômago. Nos primeiros dias, fiquei em profunda
prostração. Não conhecia as pessoas, não tinha fome, nem sede. O Sr. Abade
leu-me as orações da agonia por três vezes. Não me lembro senão de uma vez
de poucas palavras. Ouvia gritos, mas não pensava que morria, porque o meu
estado físico assim o permitia.
Havia
talvez um ano que recebia diariamente Nosso Senhor, pois até aí recebia-O
raras vezes no mês, o que me fazia sofrer muito e sentir muitas saudades de
Jesus. Não sei o que foi, mas talvez um milagre, que levou o Sr. Abade a
trazer-me Nosso Senhor todos os dias. Eu pedia a Jesus esta graça e tinha quem
a pedisse muito por mim. Foi uma das minhas maiores alegrias alimentar-me do Pão dos Anjos todas
as manhãs.
Neste
período da minha doença – não sei se de manhã se de tarde – vi entrar no
quarto o Sr. Abade e, conhecendo-o, disse-lhe: «Eu quero receber Nosso Senhor.»
Ele respondeu-me: «Sim, minha menina, vou buscar-te uma hóstia por consagrar
e, se a não vomitares, trago-te Nosso Senhor.» Assim o fez. Logo que engoli a
hóstia por consagrar, imediatamente a vomitei. Sua Reverência estava para
desistir em me trazer Nosso Senhor, e alguém disse: «Sr. Abade, uma hóstia
por consagrar não é Jesus.» Foi então que se resolveu a ir buscar uma
consagrada. Recebi-a e não vomitei. Nunca mais deixei de receber Jesus
Sacramentado por causa desses vómitos. Quantas vezes entrava o Senhor Abade no
meu quarto para me dar Nosso Senhor, e eu a vomitar! Logo que recebia Jesus,
cessavam os vómitos, nunca vomitando antes de passar meia hora. Como era assim,
o Senhor Abade nunca temeu em me dar a comunhão. A crise durou bastante tempo,
mas, durante dezassete dias, estive sem tomar nada, absolutamente nada. A minha
medicina foi Jesus.
Eu
dizia: «Morro à fome e à sede», pois sentia uma sede abrasadora e uma
necessidade de comer muito grande. A minha maior pena depois que me senti
melhorzinha era lembrando-me que, se tivesse morrido durante aquela crise, não
teria tido perfeito conhecimento da morte.
A
PROTECÇÃO DESVELADA DE JESUS E DA MÃEZINHA – Durante o mês de Maio, ficava
sozinha e, para fazer as minhas rezas, acendia umas velinhas com um acendedor.
Uma vez aconteceu de cair um morrão e incendiar a vela, fazendo grande
labareda, podendo incendiar as toalhas do altarzinho ou estalar a redoma. Quis
apagar com um apagador que tinha junto de mim, mas nada consegui; quando estava
para deitar o castiçal ao chão, tudo se apagou. Não quero pensar na aflição
que senti por não poder levantar-me e pôr termo a uma pequena coisa que podia
ser a causa da ruína da nossa casa.
Um
dia em que houve necessidade de focar sozinha por algum tempo, sofri um grande
susto. Veio junto de mim ma vizinha saber se eu precisava de alguma coisa. Ao
retirar-se, deixou a aporta da varanda aberta e, pouco depois, entrava pela
nossa casa uma cabrinha que tínhamos e encaminhava-se para a sala onde tínhamos
os vasos de begónias e avencas muito floridos e viçosos. Com eles adornavam-se
os altares da nossa igreja por ocasião das festas. Ao vê-la dirigir-se para lá,
chamei-a, e ela, olhando para mim, não fez caso. Atirei-lhe
uns bocadinhos de maçã, mas não os comeu. Fui-lhe
mostrando a maçã e chamando por ela até que se aproximou de mim. Agarrei-a e
dei-lhe a maçã e fui sustentando nela duas horas, ora fazendo-lhe mimos, ora
dando-lhe sapatadas. Quando minha irmã chegou, ficou admirada como, na minha
cama, pude segurar o animal tanto tempo. Atribuo isto a um milagre, pois a porta
da sala estava aberta e, se a cabrinha não (sic)
comesse, estragaria tudo. Quanto devo a Jesus! Estava presa no leito, mas Ele
poupou-me este desgosto.
Pouco
tempo depois, sofri outro, mais doloroso. Minha irmã estava apara fora da terra
e minha mãe fora ao mercado da terra e eu fiquei com uma pequena, à ordem da
minha mãe, para me servir, até que esta chegasse da feira. A pequena, apesar
de ter mais de vinte anos, entendeu que devia ausentar-se antes de minha mãe
chegar e assim o fez. Quando ela saiu, falei-lhe assim: «Querendo ir, vai, que
elas encontrar-me-ão aqui viva ou morta.»
Logo
que ela saiu, vieram para junto de mim uns gatinhos fazerem-me festa, levantando
as patinhas no ar para lhe dar a minha mão e puseram-se em cima da minha cama.
Mas, como os não quisesse ali, sacudi-os e foram para o chão. Mementos depois,
senti que um deles caiu à água e morreu afogado. Ouvi-o lutar com a morte na
água e miava muito. A mãe dele miava também. E eu, que não tinha coragem
para ouvir tudo aquilo, principiei a chorar e dizia: «Ó Mãezinha, permiti que
venha aqui alguém para lhes acudir. Valei-me, Jesus, Santa Teresinha e vários
santos!» Também dizia: «Coitadinho de quem está presinho!»
Por
acaso, vieram duas pessoas e, ao ouvirem os meus soluços, entraram no meu
quarto e ficaram pesarosas ao verem a minha aflição. O gatinho estava morto. Não
me impacientei. Chorava com pena dos animaizinhos, mas não ofendi Jesus. Este
caso foi origem de grandes aflições morais, porque minha mãe e minha irmã não
levaram a bem o procedimento da pequena. Tudo lhe perdoaram, e eu perdoei também.
Como
gostava de ficar sozinha – e principalmente aos domingos, quando havia adoração
ao Santíssimo sacramento – dizia a todos os meus que fossem e que me
deixassem a sós com Jesus. Pouco depois de todos saírem, pus-me a orar e ouvi
alguém abrir a porta da rua, subir as escadinhas, mas, já falando muito alto,
dizia: «Abre-me a porta.» Pela voz conheci a pessoa. Fiquei muito assustada.
Ai, que seria de mim se ele conseguisse entrar! Apertei nas minhas mãos o meu
tercinho com toda a confiança, enquanto a pessoa continuava a empurrar a porta
com toda a força. Pensava na forma como havia de falar e, assustada, nem sequer
podia respirar. Como não conseguiu abrir a porta, retirou-se, deixando-me em
paz. Fiquei tão cheia de medo que não mais tornei a ficar sozinha, a não ser
que me fechassem à chave.
Atribuí
esta graça a Jesus e à Mãezinha, que me livraram daquela má companhia, pois
antes me queria ver acompanhada pelos demónios do inferno.
PRIMEIRO
EXAME DA SANTA SÉ[iv]
– Em 1 de Maio de 1937, recebi a vista de Rev.mo o Padre Durão. Vinha mandado
da Santa Sé para examinar o caso da consagração do Mundo a Nossa Senhora. O
meu desejo era viver ocultamente, sem que ninguém soubesse o que se passou. Sua
Reverência entregou à minha irmã um cartão do meu Director espiritual e
disse-lhe que mo lesse. Ao ouvir as palavras do cartão que eram assim «Vai aí
o Sr. Padre Durão; fale-lhe à vontade e responda-lhe a tudo o que lhe
perguntar», fiquei admirada e disse para a minha irmã: «Que hei-de eu
dizer-lhe?» Não sabia que era preciso estes exames para casos destes. Minha
irmã animou-me e disse-me: «Dirás o que Nosso Senhor te inspirar.»
Fiquei
surpreendida quando me fez perguntas das coisas de Nosso Senhor, mas, sem a mais
pequena hesitação, comecei a responder às suas perguntas. Sua Reverência
disse-me que só queria que lhe dissesse o principal, pois não me queria
cansar, visto ser grave o meu estado. Respondi-lhe que não sabia que era o
principal. Sua Reverência disse-me: «Gosto disso, gosto disso.» E foi quando
me falou da consagração do mundo a Nossa Senhora. Depois de me fazer várias
perguntas, com muito bom modo, disse-me: «Não se enganará?» Ao ouvir estas
palavras, passou-me pela mente o engano da minha morte e pensei assim: «Isto é
contra mim, vou já dizê-lo.» Então respondi: «Enganei…» E contei-lhe o
que se tinha passado na Festa da Santíssima Trindade de 1936. Sua Reverência não
mais me disse se estaria enganada, e falou assim: «Estas coisas custam muito, não
custam?» Respondi: «Custam e fico triste.» E comecei a chorar. Sua Reverência
pediu-me para o não esquecer nas minhas orações e prometeu-me nunca me
esquecer no Santo Sacrifício da Missa.
Ajoelhou-se,
rezou três Ave-Marias a Nossa Senhora e algumas jaculatórias. Despediu-se de
mim e retirou-se. Chorei muito e fiquei muito atribulada e triste por se saber o
que há tanto tempo de passava ocultamente. Escrevi logo ao meu Director
espiritual, contando-lhe tudo. Sua Reverência respondeu-me imediatamente
sossegando-me e dizendo que era tudo para glória de Nosso Senhor.
PERÍODO
EM QUE O DEMÓNIO MAIS ME APOQUENTOU – Se a vida material melhorou nesta
altura, redobraram os assaltos do demónio que há meses me vinha ameaçando.
Foi em Julho de 1937 que o «manquinho», não satisfeito de me atormentar a
consciência e de me dizer coisas demasiadamente feias, principiou a atirar-me
abaixo da cama e de noite e a qualquer hora do dia.
A
princípio, até para as pessoas da casa fui encobrindo, menos para a minha irmã,
passando por ser aflições do coração. A pouco e pouco, o mal foi aumentando
e teve que o saber minha mãe e uma pessoa que vivia connosco. Quem observava os
tombos que eu dava abaixo da cama mostravam-se muito pesarosos, não supondo
nada do que se tratava. Passavam-se os dias e o mal aumentava sempre. Uma noite
atirou-me para o chão, passando por cima da cama de minha irmã, que ficava
junto de mim. Ela levantou-se, pegando em mim ao colo, e dizia: «Anda para a
tua caminha.» Mal ela me deitou, levantei-me rapidamente e dei uns assobios.
Reconhecendo imediatamente o mal que tinha feito, principiei a chorar e disse
para minha irmã: «Ai, o que eu fiz!» Ela sossegou-me, dizendo: «Não te
aflijas, que não foste tu.» Na noite seguinte, voltou a acontecer o mesmo, e
disse-lhe em voz alta: «Não me deito» – afastando-a de mim. Quando
reconhecia que fazia mal, chorava.
Uma
note em que passei com o mafarrico as coisas piores que se podiam imaginar, o
que tudo desconhecia e ignorava, chorava amargamente e pensava não receber o
meu Jesus sem me confessar. Nesse dia, o Sr. Abade não estava na freguesia para
vir trazer Nosso Senhor, mas pensava quanto me custaria ter de dizer que não
comungava sem me reconciliar, com receio que o Sr. Abade me perguntasse a causa,
e ter de lhe dizer tudo, tudo, e não querer abrir-me com ele. Minha
irmã, ao ver as minhas lágrimas, procurava consolar-me por todas as formas. Como
não conseguisse, disse-me que à tarde iria falar com o meu Director espiritual
que se encontrava a fazer uma pregação numa freguesia vizinha da nossa.
Disse-lhe que nada adiantava, pois não lhe diria a ele o que se tinha passado.
Pedi-lhe um postal de Nossa Senhora e, com grande sacrifício, descrevi por
maior o sucedido, guardando-o debaixo do travesseiro até que chegasse a hora de
o ir entregar. De repente, entrou no meu quarto o meu Director, acompanhado por
um seminarista, trazendo-me Jesus-Hóstia para eu receber. Como soubesse que
estava para banhos o nosso pároco, teve a boa lembrança de me vir trazer
Jesus. Quando Sua Reverência me disse que trazia Nosso Senhor para receber,
respondi-lhe: «Não posso comungar sem me confessar.»
As
lágrimas e a vergonha não me deixavam falar. Com muito custo disse que tinha
escrito um postal e que o guardava sob o travesseiro. O meu Director tomou-o,
leu-o e tudo compreendeu, sossegando-me e dizendo-me que tudo previa em face de
tudo quanto se tinha passado, mas não me tinha prevenido de nada.
Foi
tremenda esta tribulação, que se repetiu por várias vezes. Tinha ataques
muito furiosos duas vezes por dia, pelas nove ou dez horas da noite e depois do
meio-dia, durante cerca de uma hora ou mais. Durante os ataques, sentia em mim
toda a raiva e furor do inferno. Não podia consentir que me falassem de Nosso
Senhor e na Mãezinha, nem podia ver as Suas imagens, cuspindo-as e calcando-as
aos pés. Também não podia consentir junto de mim o meu Director; chamava-lhe
nomes, queria espancá-lo e tinha-lhe uma raiva de morte, assim como a algumas
pessoas da casa. Ficava com o meu corpo denegrecido com as pancadas e a escorrer
sangue com as mordeduras. Também dizia palavras muito feias para quem estava
junto de mim. Hoje gostava que muita gente presenciasse só para temerem o
inferno e não ofenderem a Jesus.
Depois
que passava a influência do demónio e recordava o que tinha feito e dito,
sentia horrorosos escrúpulos; parecia-me ser a maior criminosa. Foram meses de
doloroso martírio. Muito mais tinha que dizer sobre este assunto, mas não
posso. A minha alma não resiste ao relembrar tais sofrimentos.
JESUS
MOSTRANDO-ME AS SUAS DIVINAS CHAGAS – Uma noite, apareceu-me Jesus em tamanho
natural, despido, apenas com uma faixa à cinta e nas suas divinas mãos, pés e
lado, estavam abertas profundas chagas. O sangue escorria em abundância. Da
chaga do lado escorria até à cintura, atravessando a faixa, indo cair ao chão.
Jesus
sentou-se ao meu lado, ficando com as pernas ao dependuro. Beijei com muito amor
as chagas das mãos e ansiava por beijar as dos pés. Como
estava deitada, não lhes chegava, e nada disse a Jesus. Mas Ele, que conheceu
os meus desejos, com as Suas mãos tomou um pé, levantou-o e deu-mo a beijar;
depois o outro, deixando-os cair para a mesma posição. Depois, contemplei a
chaga do lado e todo o sangue que dela corria. Muito compadecida, atirei-me para
os braços de Jesus e disse-Lhe: «Ó meu Jesus, quanto sofreste por meu amor!»
Fiquei um poucochinho encostada ao peito de Jesus e depois desapareceu-me Nosso
Senhor.
Escusado
será dizer que jamais se apagará da minha mente tudo isto e recordarei sempre,
como sempre me estivesse presente. Sinto o meu coração ferido ao recordar este
quadro. Só por obediência e amor a Jesus falo nisto. Penso que a apresentação
de Nosso Senhor neste estado seria a prepara-me para o que agora vou descrever.
Que Ele me dê forças e a Sua graça para o poder fazer.
Em
23 de Julho de 1938, escrevia: «Jesus é a minha força, é o meu amor, é o
meu esposo. Deixai, meu Jesus, que eu, a Vossa a louquinha de amor, Vos diga, não
com os lábios mas com o coração: só a Vós pertenço.
Não
tenho nada, nada que não seja de Jesus.
É
bem duro falar assim, quando se sente o contrário! Nas horas mais amargas da
minha vida, nos dias de tanta luta, em que o demónio me diz o contrário, só o
contrário.
Maldito!
Não te pertenço! Tu és só digno de desprezo! És a mentira!
Jesus
é todo meu e eu sou toda de Jesus. Coação meu, grita alto, muito alto ao teu
Jesus, que O amas! Sim? Que O amas mais que todas as coisas da terra e do Céu!!!
Sou
de Jesus na alegria, sou de Jesus na tristeza, sou de Jesus nas trevas, nas horríveis
tribulações, na pobreza, no abandono total.
Por
Jesus sofro tudo para O contemplar, para salvar as almas.
Enviai,
Jesus à Vossa Alexandrina, à Vossa vítima, tudo quanto se possa imaginar,
tudo o que houver e que se possa chamar sofrimento. Com Vós, Jesus, com o Vosso
divino auxílio e o da Vossa e minha querida Mãezinha, tudo venço. Nada temo.
Eu
beijo-te, eu abraço-te, ó Cruz bendita do meu Jesus!!!»
O
MEU RETIRO ESPIRITUAL – Sempre que ouvia falar em pessoas que iam fazer um
retiro, eu dizia: «Todos o fazem, só eu não! Eu não sei o que é um retiro.»
Cheguei
a dizer isto várias vezes na presença do meu Director espiritual. Este
prometeu-me pedir licença ao Sr. Padre Provincial e, uma vez que ele o
autorizasse, viria aqui fazer-me um. Por altos desígnios de Deus, a licença
foi concedida e, em 30 de Setembro de 1938, veio o meu Padre espiritual principiá-lo.
Já
há tempos que sentia grandes agonias na minha há alma e por vezes prestes a
cair em assustadores abismos. Nestes dias redobraram os meus sofrimentos. Os abismos
eram aterradores. A justiça do Pai Eterno
caía sobre mim e Ele bradava-me repetidas vezes: «Vingança, vingança, etc.»
Aumentavam os meus sofrimentos da alma e do corpo. É impossível descrevê-los,
só sentidos e presenciados. Passava os dias e as noites rolando pela cama, a
ouvir a voz assustadora do Eterno Pai.
Na
manhã de 2 de Outubro de 1938, disse-me Nosso Senhor que iria passar por toda a
Paixão, do Horto ao Calvário, só não chegaria ao «Consummatum est». Seria
a primeira vez no dia 3 e depois ficaria a passar pela Paixão todas as
sextas-feiras, pouco depois do meio-dia, às 3 horas, mas na primeira vez
ficaria até às 6 horas, a desabafar comigo, fazendo-me os Seus queixumes.
Não
disse que não a Nosso Senhor. Preveni o meu Director espiritual de tudo que
Nosso Senhor me disse. Esperava o dia e a hora com grande aflição, pois nem eu
nem o meu Director fazíamos ideia do que se ia passar. Na noite de 2 para 3 de
Outubro, se era grande a agonia da alma, também foi grande o sofrimento do meu
corpo, começando a vomitar sangue e a sentir dores horríveis. Vomitei
bastantes dias seguidos e, durante cinco dias, não tomei alimento algum. Foi
neste sofrimento que eu fui para a primeira crucifixão. Que horror eu sentia em
mim! Que medo e até pavor!... É indizível a minha aflição.
PRIMEIRA
CRUCIFIXÃO – Depois do meio-dia, veio Nosso Senhor convidar-me assim: «Olha,
minha filha, o Horto está pronto e o Gólgota também, aceitas?»
Senti
que Nosso senhor me acompanhou por algum tempo no caminho do Calvário, depois
senti-me sozinha, vendo-O a Ele lá no alto, em tamanho natural, pregado na
cruz. Percorri todo o caminho do Calvário sem O perder de vista… era junto
d’Ele que eu tinha de ir parar.
Vi
por duas vezes Santa Teresinha. Na primeira vez, via vestida de freira, entre
duas irmãs, à porta do Carmelo. Na segunda, vi-a cercada de rosas e envolvida
num manto celestial.
Nota
– Dado que a Alexandrina nunca se dispôs a descrever a Paixão, transcrevemos
a carta seguinte, em que descreve ao seu Director espiritual os sentimentos da
sua alma durante as horas que precediam a Paixão.
Balasar,
7/4/1939.
«Busco
um bocadinho de alívio para o meu sofrer. Espero a hora da minha crucifixão.
Nem posso falar. O coração está em marcha acelerada. É uma revolta, é uma
barafunda na minha alma. O peso esmaga-me. Trevas, noite medonha e triste; estou
num abandono tremendo. Figura-se-me que ando no meio de todo o ódio, de
tribunal em tribunal. Pobre de mim! E não recebi Jesus! Mas confio que Ele
suprirá a falta nas Comunhões espirituais, apesar do nojo que tenho de mim
mesmo e horror à minha enorme miséria.
Ontem
a temperatura acalmou. Que horror eu sentia! O meu corpo era-me trespassado
todo, de um lado ao outro, com agudos ferros. Que momentos tão terríveis!
Apesar do bocadinho de alívio, fiquei sempre numa noite escuríssima, numa
tristeza profunda. A noite, passei-a, posso dizê-lo, quase que toda a fazer
companhia a Nosso Senhor Sacramentado e concentrava-me um pouquinho em toda a
tragédia da noite. Parecia que Jesus me convidava ao Horto. Que movimento de
gente! Mas tudo isto era sentido na minha alma.
Ai,
meu padre, parece que tudo isto que estou a dizer-lhe é mentira! Ai, tantas dúvidas!...
Ai, ai os medos de toda a Paixão! Já disse à Deolinda: do modo que sinto o
coração, é preciso um milagre para eu resistir. Jesus seja comigo! Não digo
mais nada, que não posso.»
Aqui,
interrompeu a carta, porque logo se seguiu a Paixão. Sua irmã Deolinda assim
no-la descreve:
«Ai,
meu padre, o que foi o dia de sexta-feira santa! É bem sexta-feira da Paixão!
Antes de principiar, oh, como se via nela cara de aflição! Ela temia passar
este dia! E dizia-me: Ai, se eu vejo este dia passado!... Eu confortava-a quanto
podia e acariciava-a; apesar de eu também estar cheia de medo e muito aflita.
Durante
a Paixão, eu não podia passar sem chorar e vi correr lágrimas pelas faces de
quase todos os assistentes. Que espectáculo tão comovedor! A agonia no Horto
foi muito demorada e aflitiva… Ouviam-se gemidos muito profundos e por vezes
via-se soluçar. Mas a flagelação e a coroação de espinhos é que foi! Os
açoites forma tomados de joelhos, com as mãos (
O
Sr. Cónego Borlido veio assistir com mais duas pessoas. Também veio o Sr. Dr.
Almiro de Vasconcelos com a esposa e a irmã D. Judite.»
Continua a Alexandrina:
Durante
alguns dias foi doloroso todo o meu sofrimento. Continuaram os vómitos de
sangue e uma sede abrasadora, que não havia água que me saciasse. Eu não
podia beber, mas passava dias e noites seguidas com a água a corre pela boca, não
podendo engolir nenhuma. Cheguei a cansar-me e a cansar as pessoas que me
tratavam. Depois de passar muita e muita água pela minha boca ainda exclamava:
«Dai-me água, muita água, pipas de água!» Parecia-me que estava a arder,
nada havia que me saciasse.
Sentia
uns cheiros horrorosos; não queria que as pessoas se aproximassem de mim,
porque todas e tudo me cheirava a cães mortos. Davam-me violetas e perfumes a
cheirar, mas tudo repelia, porque era sempre o mesmo mau cheiro que me
atormentava.
Não
passei sem sentir mau paladar nos dias em que me alimentava e, desde que comia,
de tudo tinha nojos, porque tudo me sabia aos maus cheiros que tinha.
Quanto
não teria eu que dizer sobe isto, se pudesse descrever tudo quanto sinto!
Falta-me a coragem, pois custa-me tanto lembrar estas coisas!...
DÚVIDAS
E RECEIOS DE ENGANAR. EXAMES DOS MÉDICOS E TEÓLOGOS – Assim como iam
aumentando as graças e favores para comigo, assim cresciam também as dúvidas
e receios de me enganar e enganar o meu Director espiritual, bem como todos os
que conviviam comigo. Crescia o meu martírio, momento para momento. Tudo me
aprecia falso e inventado só por mim. Meu Deus, que dor para o meu coração!
As trevas caíam sobre mim; não havia luz que me mostrasse o caminho. Por mais
que o meu Director me infundisse confiança, não havia quem me confortasse.
Contudo, entreguei-me nos braços de Jesus, confiada a não ser arrastada pela
corrente.
Sofria
por ver as lágrimas em todos os que me rodeavam e pensava: Meu Deus, se falta a
coragem a eles, como não há-de faltar-me a mim?
Que
grande humilhação ter de ser observada! Ah, se eu pudesse sofrer sozinha, sem
que pessoa alguma me visse!... Bastava que Jesus soubesse quanto por Ele sofria.
Logo
na segunda crucifixão, principiaram os exames feitos por uns Padres da
Companhia de Jesus. Que vergonha eu sentia! Não nas horas da crucifixão, mas
antes e depois!...
Principiei
a sentir que o meu Director espiritual sofria muito no íntimo, por minha causa,
isto é, por tudo o que se passava.
Sucederam-se
a estes os dos médicos, que foram bem dolorosos, deixando o meu corpo em mísero
estado. Parecia-me que andava a ser julgada de tribunal em tribunal, como se
tivesse praticado os maiores crimes. Quanto me custava vê-los entrar no meu
quarto e, depois de me examinarem e observarem, vê-los reunir-se numa sala para
discutirem e minha causa, deixando-me sob o peso da maior humilhação.
Se
não me engano, foi na terceira crucifixão que vieram os médicos examinar o
meu caso. É difícil e sei que não posso descrever todo o meu sofrimento.
Deixavam o meu corpo martirizado, mas outras coisas havia que me custavam muito
mais. A vergonha que me faziam passar! Triste cena eu fazia diante deles! Nem a
maior criminosa seria julgada num tribunal com mais cuidado! Se pudesse abrir a
minha alma e deixar ver o que nela se passa, porque estou a reviver esses dias,
fá-lo-ia só com o fim de fazer bem às almas, mostrando quanto sofro por amor
de Jesus e das almas. Foi só por isto que me expus a tais sofrimentos.
Quando
o meu Director espiritual me falou em ser examinada pelos médicos, foi para mim
um grande tormento, uma grande barreira que se levantou em minha alma. Queria
sofrer escondida, que só Jesus soubesse do meu sofrimento. Mandava a obediência.
Calei-me e tudo aceitei por Jesus. Faltavam os médicos para completar o meu
calvário. Alguns foram verdadeiros algozes que no meu caminho encontrei.
Resolveram
que fosse ao Porto. Custou-me muito a convencer-me, devido ao estado em que me
encontrava. Temia não poder fazer a viagem e, ao convite do médico assistente,
respondi-lhe: «Então o Sr. Doutor, em 1928, não consentiu que eu fosse a Fátima
e agora que eu tenho piorado tanto quer que eu vá ao Porto?» Sua Exa.
disse-me: «É verdade que não consenti, mas agora queria que fosse.»
Perguntei-lhe se o meu Director espiritual sabia do caso e, como me afirmaram
que sim, cedi ao pedido.
No
dia 6 de Dezembro de 1938, pelas 11 horas, fui tirada da minha cama para uma
auto-maca. Naquela manhã, fui muito visitada por pessoas amigas e em quase
todas via lágrimas nos olhos, assim como nas pessoas da minha família. Eu
procurava alegrar a todos, fingindo que nada sofria. Foi dolorosa a minha
viagem, pois foram precisas três horas e meia para chegar ao Porto. Parámos inúmeras
vezes.
No
Porto, no consultório do Sr. Dr. Roberto de Carvalho, tirei a radiografia e por
ele fui tratada com todo o caminho. Disse-me assim: «Ai minha menina, quanto
sofres!»
De
lá fui transportada para o Colégio das Filhas de Maria imaculada, onde me
trataram muito bem. O que mais me custava era sofrer os ruídos da rua, chegando
por vezes quase a perder os sentidos. Lá, fui examinada pelo Sr. Dr.
Pessegueiro, exame este que só serviu para maior sofrimento meu.
No
regresso a casa, voltei a ter uma viagem penosa. Quando me encontrei no meu
quartinho, vi-me cercada de várias pessoas amigas. Em 26 de Dezembro de 1938,
fui visitada e examinada pelo Sr. Dr. Elísio de Moura, que me tratou
cruelmente, tentando sentar-me numa cadeira com toda a violência. Como nada
conseguisse, atirou-me ara cima da cama, fazendo várias experiências que me
fizeram sofrer horrivelmente. Tapou-me a boca, atirou-me contra a parede,
fazendo-me dar uma forte pancada. Vendo-me quase desmaiada, disse-me: «Ó minha
Joaninha, não percas os sentidos!».
Sem
querer, chorei, mas todas as minhas lágrimas ofereci a Jesus com os meus
sofrimentos, que foram muitos, pois o que digo nada é do muito que passei. Tudo
lhe desculpei, porque ele vinha em missão de estudo.
SEGUNDO
EXAME DA SANTA SÉ – Em 5 de Dezembro de 1939, recebi a visita do nosso Sr.
Abade, acompanhado pelo Ex.mo e Rev.mo Senhor Cónego Vilar que, depois de me
ser apresentado, ficou a sós comigo. Falámos de várias coisas de Nosso Senhor
cerca de duas horas, para depois entrarmos verdadeiramente no assunto que o
trouxe aqui. Sua Reverência disse-me assim: «A Alexandrina deve estranhar a
minha visita, não me conhece…»
Sorri-me
e respondi-lhe: «Eu sei com certeza ao que V. Reverência vem aqui.» Ao que
ele disse: «Diga, diga, Alexandrina.» Então disse eu: «Vem de mando da Santa
Sé», pois era o que eu sentia na minha alma nesse momento. Sua Reverência
confirmou, dizendo: «É isso mesmo.» E apresentou os documentos que tinham
vindo de Roma. Fez-me várias perguntas a que respondi. Não falei da crucifixão,
mas falou-me ele, dizendo: «Parece que há mais qualquer coisa que se passa há
meses…», apontando a Paixão, mostrando desejo de vir assistir, como veio
logo na primeira sexta-feira seguinte.
Falando
disto ao meu Director espiritual, este aconselhou-me a que lhe falasse com toda
a franqueza. Visitou-me quatro vezes, mas só duas foram obrigatórias. Se não
me engano, logo da primeira vez disse-me: «Olhe, Alexandrina, gostava de há
muito a ter conhecido, mas não queria ter vindo como vim.» Confiou-me o
segredo da sua partida para Roma, pois naquela ocasião só era sabedor o Sr.
Arcebispo.
Como
me sentia muito bem a conversar com ele e como tinha toda a licença do meu
Director espiritual, falámos muito, mesmo muito de Jesus, porque sentia-me como
que mergulhada num abismo de santidade e sabedoria, o que raras vezes me
acontece, mesmo com sacerdotes. Disse-lhe que não falava assim com outros
senhores Padres, porque não era feitio meu, mas sim pela confiança que nele
sentia. Sua Reverência respondeu-me: «Faz muito bem, Alexandrina, em nada
dizer porque, se lhes dissesse, eles não a compreenderiam.»
Chorei
quando Sua Reverência se despediu de mim na partida para Roma. Prometeu
escrever-me de lá, dizendo-me que ficaria a ser a sua intercessora na terra.
Recebi algumas cartas dele em que mostrava ter em mim inteira confiança.
Respondi-lhe, e ajudámo-nos mutuamente com orações a Nosso Senhor.
OPINIÕES
DO POVO. NOVOS TORMENTOS – Jesus ia-me pedindo mais sacrifícios. Com os
exames médicos e da Santa Sé, foi-se o caso tornando mais conhecido. Era um
martírio para mim! Queria viver escondida de todos!
Apesar
de a minha família não me contar o que a meu respeito diziam lá fora, muitas
vezes sabia como comentavam a minha vida. Coitadinhos dos ignorantes que tantas
mentiras diziam! Afirmavam que a minha ida ao Porto tinha sido para receber
mensalmente uma tença (mensalidade) que o Sr. Dr. Oliveira Salazar ficaria a
mandar-me. Para uns era de 500$00, para outros de 300$00 e 200$00. Tanto valia
desfazer as mentiras como nada. Eles ficavam sempre na sua.
Outros
diziam que fui tirar o «retrato de santa», isto é, avaliar a minha santidade
por meio de uma máquina. Minha irmã disse (para desfazer essa ideia): «Se
isso pudesse ser, também eu queria tirar esse retrato para ver no ponto em que
estava.»
Que
pena tenho que as coisas do Senhor sejam tão mal compreendidas!...
Outros
então diziam que todos os senhores Padres que me visitavam andavam a pedir
esmolas por essas freguesias fora para me darem, e portanto que não me faltava
nada.
Diziam
que eu talhava o ar, fazendo de mim bruxa, que era corpo aberto; chegando várias
pessoas a aproximar-se de mim para fazerem várias perguntas, como se eu
adivinhasse. Falavam-lhes muito serenamente, fingindo não as compreender, mas,
quando insistiam comigo, respondia-lhes: «Eu não adivinho, nem ninguém
adivinha. Nós não temos o direito de penetrar nas consciências alheias. Isso
é só para Nosso Senhor.»
Quando
me contavam o que diziam a meu respeito, eu fingia não sofrer, mas sofria
amargamente e respondia: «Eles falam de mim? É porque têm que dizer. Eu não
tenho; deixai que falem para eles. Que Nosso Senhor lhes perdoe, que eu também
lhes perdoo. Falam, falam e falarão. Não há quem os cale: uns contra mim,
outros a favor de mim.»
E
assim o tempo ia passando.
VISITA
DE UM MÉDICO ENVIADO POR DEUS – Em 29 de Janeiro de 1941, recebi a visita dum
Sr. Padre conhecido, acompanhado por várias pessoas da sua freguesia.
Apresentou-mas na chegada, mas só depois de conversar muito fiquei a saber que
um deles era médico. Ao saber que tinha junto de mim um médico, corei de
vergonha, não por estar a mentir do que tinha falado do meu sofrimento, mas por
não o esperar aqui. Sua Excelência conservou-se calado e sorridente. Não sei
o que sentia intimamente por ele. Mal eu pensava que, dentro em pouco, ele seria
meu médico assistente.
Principiou
a examinar-me minuciosamente, mas com toda a prudência e carinho. Depois de
feito o seu exame, achou conveniente convidar o Sr. Dr. Abel Pacheco e o meu médico
assistente naquela altura, que vieram conferenciar a meu respeito. Fiquei muito
triste, porque já estava cheia de exames médicos, mas cedi, tendo sempre em
vista a vontade de Nosso Senhor e o bem das almas.
Foi
no dia 1 de Maio do mesmo ano que fui examinada pelo Sr. Dr. Abel Pacheco. O
exame durou poucos minutos, contudo causou-me grande sofrimento para o corpo e
para a alma. No corpo, porque as suas mãos pareciam de ferro, e na alma, porque
já sentia humilhações e o resultado daquele exame. Com tudo isto ainda estava
longe do fim. Fui prevenida pelo Sr. Dr. Dias de Azevedo que seria melhor voltar
ao Porto, consultar o Sr. Dr. Gomes de Araújo, se fosse essa a vontade de Nosso
Senhor. Pediu-me que pedisse luz divina sobre o caso, porque em nada queria
contrariar Nosso Senhor.
Pedi
durante um mês. Mas, quanta mais luz pedia, mais em trevas ficava, tornando-se
assim a dor da minha alma cada vez mais profunda, não sabendo o que havia de
fazer, até que Nosso Senhor me disse que era da Sua divina vontade que fosse ao
Porto.
O
meu estado físico era gravíssimo, temiam tirar-me do leito para tão longa
viagem; até eu temia, e muito, pois se não consentia que me tocassem no corpo,
como havia de poder ir tão longe!... Animada com as palavras de Nosso Senhor,
confiava n’Ele e, sob a Sua acção divina, preparei-me para sair na madrugada
de 1 de Julho de 1941. Eram quatro horas da manhã, já eu tinha feito as minhas
orações e, para fingir que ia muito alegre, principiei a chamar minha irmã,
dizendo-lhe que íamos para a cidade. Só por este meio escondia a minha dor e
alegrava os meus. Quando dizia isto, senti o automóvel que pouco depois chegava
a nossa casa. Entrou no meu quarto o Sr. Dr. Dias de Azevedo, acompanha por um
senhor amigo. Depois de conversarmos um pouco, minha irmã vestiu-se e preparámo-nos
para sair. Às 4,50 partimos, era ainda de noite, para não alarmar o povo, e saímos
da nossa freguesia sem encontrar ninguém.
Em
que silêncio ia a minha alma! Mergulhada num abismo de tristeza, mas sem me
separa um momento da união íntima do meu Jesus, ia-lhe pedindo sempre toda a
coragem para o exame que ia ter; e pelo seu divino amor e pelas almas oferecia
todo o meu sacrifício. Chamava pela Mãezinha e pelos santos e santas a quem
mais amava. Não ligava importância a nada e tudo o que se me deparava
causava-me profunda tristeza. De vez em quando, interrompiam o meu silêncio
perguntando-me se ia bem. Agradecia, sem sair do abismo em que ia mergulhada.
Era já dia claro quando parámos em casa do senhor que nos acompanhava, na
Trofa. Era aí que eu ia descansar e receber o meu Jesus, esperando pela hora de
seguir para o Porto. Antes de continuar a minha viagem, levaram-me ao jardim do
Sr. Sampaio. Amparada e sob a mesma acção divina, fui até junto de umas
florinhas, que colhi, dizendo: «Quando Nosso Senhor criou estas florinhas, já
sabia que hoje as vinha aqui colher.» Depois, fui fotografada em dois lugares
escolhidos. Desloquei-me de um lugar para o outro por meu pé, o que nunca pude
fazer depois que acamei, pois nem sequer podia voltar-me de lado, na cama. Só
um milagre divino, porque sem ele não me mexia, nem sequer consentia que me
tocassem.
Depois,
entrei no carro, segui a viagem, e a minha alma sofria horrivelmente. À distância
de seis quilómetros do Porto, Nosso Senhor retirou a Sua acção divina.
Principiei a sentir todos os sofrimentos do meu corpo e tornou-se tormentosa o
resto da viagem e disse, não por saber a distância que faltava, mas o meu
estado fez-me falar assim: «Já estamos perto do Porto.» E alguém me disse:
«Estamos, estamos.» Porque tinha visto que só faltavam os 6 quilómetros a
que me referi.
A
ida de carro para o consultório foi o que há de mais doloroso. No corpo,
sentia o maior martírio, e na alma a maior agonia, parecendo que morria.
Antes
de entrar na sala de consultas, dizia aos que me levavam nos braços: «Pousai-me,
pousai-me, ainda que seja no chão!» De repente, apareceu o médico e
instalou-me numa cama de observações, e aí estive até que fosse observada.
Pouco antes de ir para a sala de consultas, Nosso Senhor tirou-me a agonia da
alma, deixando-me só os sofrimentos físicos. Já podia resistir melhor.
Principiou
o exame que foi muito doloroso e demorado. Quando me despia, disseram-me que não
me afligisse. E eu, recordando o que fizeram a Nosso Senhor, disse: «Também
despiram Jesus», não pensando em mais nada. O Dr. Gomes de Araújo, apesar de
me parecer um pouco brusco, foi prudente e delicado.
De
o regresso a casa, voltou Jesus a exercer sobre mim as Sua acção divina para
continuar a minha viagem, mas deu-me de novo as agonias da alma. Ao
passar em Ribeirão, fui descansar em casa do Sr. Dr. Dias de Azevedo, a
esperar pela noite, para poder entrar na freguesia sem ninguém perceber.
Tanto
numa casa como na outra, fui tratada por todos com muito carinho, mas nada me
confortava. Sorria a tudo, encobrindo o mais possível a minha dor. Saí de lá
já de noite, e tudo me convidava a um silêncio cada vez mais profundo. Tudo me
passava despercebido. Durante a viagem, só reparei numas flores do jardim de
Famalicão, porque me chamaram a atenção para elas. Chegámos a casa era
meia-noite e assim conseguimos que ninguém desse pela minha saída.
Depois
desta viagem, os sofrimentos agravaram-se muito, muito. Tudo o que deveria
sentir no dia da viagem guardou-me Nosso Senhor para o dia seguinte, piorando
sempre cada vez mais.
CARTA
A NOSSA SENHORA
«Balasar,
30/4/1941
Querida
Mãezinha
Ao
principiar o Teu mês bendito, venho pedir-Te a Tua bênção, o Teu amor, para
eu poder amar o Teu e meu querido Jesus. Quero amá-Lo tanto, tanto, quero ser
uma louquinha de amor, quero só viver e morrer de amor! Ajudai, minha querida Mãezinha,
o Vosso Jesus a imolar e sacrificar esta que quer dar o sangue e a vida pelas
almas e pelo Vosso Jesus. Dá-me, Mãezinha, a Tua pureza, a Tua humildade, a
Tua obediência; dá-me as tuas virtudes para que eu seja santa, para dar toda a
glória ao Teu Jesus para quem só quero viver.
Mãezinha,
peço-Te esta esmolinha do Céu: quero que o mês de Maio seja para mim o último
que passo na terra. Quero ir depressa gozar do Teu Jesus e da Tua companhia.
Quero continuar junto de Ti a implorar perdão e misericórdia para o mundo Teu.
Tua filha a mais indigna, pobre Alexandrina.
P.S.
– Hei-de fazer cair uma chuva de graças e de amor sobre aqueles e aquelas que
na terra me são queridos. Sempre a Tua filha, Alexandrina.»
VISITA
DO REVº PADRE TERÇAS. CONSEQUÊNCIAS DESTA VISITA – Em 27 de Agosto de 1941,
recebi a visita do Sr. Abade acompanhado pelo Sr. Padre Terças e outro
sacerdote. Esta visita foi para mim de grande desgosto, pois fiz o sacrifício
de responder às perguntas que o Sr. Padre Terças me fez diante de todos, o que
me custou imenso. Respondi a tudo conscientemente, porque prensava que viria em
estudo como outros tinham vindo. Só Nosso Senhor pode avaliar quanto me custou
ter de falar do assunto da Paixão, e foi sobre isto que mais me interrogou. O
nosso Pároco disse-me que Sua Reverência queria voltar aqui na próxima
sexta-feira, dia 29. Não queria ceder ao pedido sem consultar o meu Director
espiritual, mas, como me disseram que se tinha de retirar para Lisboa nos dias
imediatos a este, consenti dizendo: «Eu penso que Vossa Reverência não vem
aqui por curiosidade.» Como me afirmasse que não, cedi prontamente, embora me
fizesse sofrer muito a sua visita na sexta-feira. Sua Reverência não faltou,
mas trouxe consigo mais três sacerdotes. Mal eu pensava que esta visita vinha
erguer para mim um novo calvário. Não levou muito tempo que Sua Reverência
publicasse o que observou e o que soube de mim.
Que
Jesus tenha em conta a dor que me causou aquela publicação, por saber que a
minha vida foi publicada e os meus segredos revelados, aquilo que tanto tempo
escondi.
De
vez em quando, chegavam-me aos ouvidos vários comentários a meu respeito. Eram
espinhos que me cravavam no peito, mesmo sem as pessoas darem por isso. Eram
variadas as impressões com que ficavam as pessoas que liam o livro ou ouviam
falar de mim.
A
minha ida ao Porto e a publicação da minha vida fizeram inquietar os espíritos
dos Superiores do meu Director espiritual a ponto de o proibirem de vir junto de
mim e de me prestar a assistência religiosa que necessito, assim como o
proibiram também de me escrever e de receber as minhas notícias.
Depois
disto, principiei a viver de ilusões: virá hoje o meu Director espiritual, virá
amanhã? Vinham ao meu pensamento mil e uma coisas. Impressionava-me por me
lembrar que perdia o tempo em coisas inúteis, mas não era capaz de desviar o
meu espírito do que tanto me fazia sofrer. Passava algumas horas persuadida de
que tudo podia suceder como eu pensava. Um dia, persuadi-me de que, apesar de não
ser prevenida pelo meu Director espiritual, este viria celebrar o Santo Sacrifício
da Missa no meu quartinho. Pensei: vem amanhã no comboio sem me prevenir.
Principiei a ouvir o comboio ao longe e, ao chegar ao apeadeiro, pareceu-me que
o comboio teve lá grande demora, motivada por desastre de que foi vítima o meu
Director espiritual, sendo apanhado por uma perna que lhe ficou logo cortada.
Queriam levá-lo para a Póvoa, mas, como Sua Reverência dissesse que vinha
visitar-me, pediu que o trouxessem à minha presença. Senti como se o visse
entrar no meu quarto nos braços de várias pessoas, quase moribundo. Uma das
pessoas trazia a perna na mão. Quando se me representou aquele quadro tanto ao
vivo na minha alma, senti como que me pusesse de joelhos diante de Nossa
Senhora, exclamando: «Ó Mãezinha, mostrai aqui o Vosso poder», que era o de
colar a perna. Depois disto, figurou-se-me que não tinha vindo à nossa casa e
que o levavam para o Hospital. Ao saber-se de tudo isto, senti que os seus irmãos
em religião se regozijavam e diziam: aqui está uma prova evidente de que Nosso
Senhor não queria que ele fosse junto dela.
Parecidas
com estas ilusões tive mais, mas não me fizeram sofrer tanto
A
minha vida foi toda uma vida de sacrifício; quase posso dizer que não sei o
que é gozar, do que não sinto nenhuma pena. Sinto-me no fim da vida e, se
junto à pena de ter ofendido Nosso Senhor eu podia juntar o gozo deste mundo,
era um horror para mim. Só ter gozado o pecado, que horror!
Anseio
pela eternidade, porque só lá saberei agradecer a Jesus o ter-me escolhido
para viver esta vida de sacrifício, ansiando só por amar Jesus e salvar as
almas.
Sei
bem que poucas almas me compreenderão, mas uma só coisa me basta: Jesus tudo
compreende.
O
MEU ENTERRO – Os meus desejos são que o meu enterro seja pobrezinho. Quero
que o meu caixão seja de forma a não ser muito bom, nem muito fraco, para não
chamar a atenção de ninguém. Quero ir vestida de branco, como «Filha de
Maria», mas muito modesta. Porém, sei que tenho um vestido muito bom, melhor
do que era minha vontade: ofereceram-mo e, como não tenho vontade própria, por
ser mais perfeito, aceito tudo o que me quiserem dar.
Se
não for proibido pela Santa Igreja, quero no meu caixão muitas flores. Não
porque as mereça, mas sim porque as amo muito. Se
fosse por merecimento meu, nada tinha e nada levaria.
A
minha vontade é ir para a terra, sem caixão de chumbo. Também não quero ofício,
porque minha mãe não tem posses para isso.
No
trajecto do meu enterro, queria o máximo recolhimento. Causa-me dó presenciar
e ouvir a maneira como se fazem os acompanhamentos fúnebres.
Não
quero autópsia; basta o meu corpo em exposição, enquanto viva, às consultas
dos médicos.
A
MINHA CAMPA – Quero ser enterrada, se puder ser, de rosto virado para o sacrário
da nossa igreja. Assim como na vida anseio estar junto de Jesus Sacramentado e
voltar-me para o sacrário as mais vezes possíveis, quero depois da minha morte
continuar a velar o meu sacrário e manter-me voltada para ele. Sei que com os
olhos do meu corpo não vejo o meu Jesus, mas quero ficar assim para melhor
provar o amor que tenho à Divina Eucaristia.
Quero
que a minha campa seja rodeada de plantas chamadas martírios, para assim
mostrar que os amei na vida e os amo depois da morte. A
entrelaçar com os martírios quero roseirinhas de trepar, mas daquelas que têm
muitos espinhos. Amo e amarei durante a
vida os martírios que Jesus me dá e os espinhos que me ferem e amá-los-ei
depois da morte e quero-os junto de mim, para mostrar que é com espinhos e com
todos os martírios que nos assemelhamos a Jesus, que consolamos o Seu Divino
Coração e que salvamos as almas, filhinhas de todo o Seu Sangue. Que maior
prova de amor podemos dar a Nosso Senhor senão sofrendo com alegria tudo o que
é dor, desprezo e humilhações?! Que maior alegria podemos dar ao Seu Divino
Coração senão dando-Lhe almas, muitas almas por quem Ele sofreu dando a
vida?!
Quero
também ao cimo da minha campa uma cruz, e junto dela, uma imagem da querida Mãezinha.
Se puder ser, gostava que uma coroa de espinhos envolvesse a cruz. A cruz é
para sinal que a levei durante a vida e amei até à morte. A Mãezinha é para
mostrar que foi Ela quem me ajudou a subir o caminho doloroso do meu calvário,
acompanhando-me até aos últimos momentos da minha vida. Confio que assim será.
Ela é Mãe, e como Mãe não me deixará sozinha no último transe da minha
vida.
Amo
a Jesus, amo a Mãezinha, amo o sofrimento, e só no Céu compreenderei o valor
de toda a minha dor!!!
QUARENTA DIAS PASSADOS NA FOZ (1943) – Para satisfazer os desejos e
vontade do Sr. Arcebispo Primaz, mais uma vez me sujeitei a uma nova conferência,
que se realizou no dia 27 de Maio deste ano. Quando me comunicaram isto, novo
sofrimento se apoderou do meu espírito, mas como visse em tudo só a vontade
santíssima de Deus, aceitei, como sempre, por obediência, pois o que mais me
custava era o ter de me sujeitar a mais um exame médico. Quando me disseram o
dia em que os médicos vinham, pedi com todo o amor à minha querida Mãe do Céu
que me desse a calma precisa para tudo suportar com coragem e resignação, pois
era por Jesus e pelas almas que a tudo me ia sujeitar.
No dia combinado, compareceram o meu médico assistente, Sr. Dr.
Manuel Augusto Dias de Azevedo, o Sr. Dr. Henrique Gomes de Araújo e o Sr.
Dr. Carlos Lima. Quando chegaram junto de mim, eu encontrava-me na maior
serenidade e calma. Nosso Senhor tinha ouvido e acedido ao meu pedido! As
primeiras palavras de um dos médicos foram para saber se eu sofria e por quem
oferecia esses sofrimentos; se sofria contente e se ficaria satisfeita, se Nosso
Senhor de um momento para o outro me tirasse esses mesmos sofrimentos. Respondi
que realmente sofria muito e que oferecia todos estes grandes sofrimentos por
amor de Nosso Senhor e para conversão dos pecadores. Novamente me perguntaram
qual era a minha maior aspiração e eu respondi: «É o Céu!» Então disse-me
se eu queria ser uma santa como Santa Teresa, Santa Clara, etc., e subir às
honras do altar, deixar nome como esses grandes do mundo. «É o que menos me
preocupa!»
Querendo tirar-me a confiança em Deus, propôs-me o seguinte: Se para
salvar os pecadores fosse necessário perder a própria alma, que faria? «Eu
tinha toda a confiança que no fim de salvar as outras, a minha seria salva
também; mas, se no fim perdesse a minha, então, não, pois nem Nosso Senhor
seria capaz e pedir uma coisa dessas... E ainda digo mais: prometi a Nosso
Senhor os meus olhos, que é o que tenho de mais querido no meu corpo, se isso
fosse necessário para converter Hitler, Staline e todos os outros causadores da
guerra.»
— E por que não come?
—
Não como porque não posso, sinto-me cheia, não tenho necessidade de comer,
mas sinto saudade da comida.
Depois começaram a fazer o exame médico, que eu suportei sempre bem
disposta. Foi muito rigoroso, mas, ao mesmo tempo, tiveram cuidado com o meu
corpo.
No fim resolveram — visto eu não estar em condições de fazer a
viagem — mandar para cá duas religiosas para se certificarem da veracidade de
eu não me alimentar.
Quando eles se ausentaram, Nosso Senhor fez-me sentir que a resolução
que eles tinham tomado não ia ter realização e fiquei à espera de notícias
que me trouxessem nova maneira de pensar dos médicos.
A 4 de Junho, veio cá o médico assistente, juntamente com o meu
confessor ordinário, comunicar-me a resolução dos médicos e convencer-me, e
à minha família, para eu ir para o Refúgio da Paralisia Infantil, num quarto
particular, estar lá um mês, para verificarem, mais de perto, tudo o que em
mim se passava. Eu respondi imediatamente que não, mas logo me arrependi do que
tinha dito e da obediência devida, e disse que sim, porque não queria
desobedecer ao Senhor Arcebispo, deixar mal situados o meu Director e o médico
assistente, e todos aqueles que tanto se têm interessado por mim. Pus,
porém, umas condições:
1)
de poder receber a Jesus todos os dias;
2)
de minha irmã me acompanhar sempre;
3)
de não ter mais exame nenhum, porque ia para observação e não para exame.
Durante aqueles dias que cá estive, pedi a Jesus e à Mãezinha que me
dessem forças e coragem para ser a coragem dos meus, que se encontravam
desolados. Quantas vezes, durante a noite, com o coração oprimido e as lágrimas
a bailarem-me nos olhos, eu pedia a Jesus que me ajudasse, pois parecia-me que
me iam faltar as forças e via-me sem coragem para mim, quanto mais para dar
aos outros!
Chegou o dia 10 de Junho, em que estava tudo preparado para a minha
partida para a Foz. A amargura que se apoderou de mim era enorme, mas, ao
mesmo tempo, sentia uma coragem tão grande que com ela podia encobrir o que ia
na minha alma. Confiava tanto em Jesus, e estava tão convencida do seu Divino
auxílio que até julgava, que, se necessário fosse, Jesus enviaria os seus próprios
anjos a ajudar-me no exílio onde ia encontrar-me. Quando o médico chegou junto
de mim, não teve coragem para me dizer que era preciso partir, mas eu disse-lhe
então: «Vamos! quem não vai não vem.»
Então começaram as despedidas. Só Nosso Senhor sabe quanto me
custou esta separação, pois todos os meus vieram abraçar-me e beijar-me
cheios de dor. Eu só olhava para o Sagrado Coração de Jesus e para a querida
Mãezinha a pedir-Lhes que me dessem coragem e forças.
Ao descer as escadas na maca, disse-lhes para os animar: «Coragem!
Tudo isto é por Jesus e pelas almas!» Não pude dizer mais nada, tal era o
aperto que sentia em meu coração e seria impossível conter as lágrimas. Era
isso o que eu não queria, não por mim, mas para não ser causa de maiores
dores para os meus. Quando fui posta na maca, rodeada por mais de cem pessoas,
via as lágrimas nos olhos de quase todos, ouvia os gritos de minha mãe e mais
pessoas de família. Era indizível a minha dor. Era ansiada (sic) de partir, mas partir depressa. O meu coração pulsava com
tanta força que parecia arrancar-me as costelas. Nessa ocasião disse a Jesus:
«Aceitai, meu Jesus, todas as pulsações do meu coração, por Vosso amor e
para salvação das almas.»
A viagem foi difícil de fazer, pois o meu coração sentia imenso e
parecia por vezes que ia sucumbir. Olhava para a minha irmã e via-a muito
desolada. O médico dizia-me que, com doentes como eu, não custava fazer
viagens, porque me via sempre com um sorriso nos lábios, mas só Jesus sabia a
amargura que ia no meu coração e as torturas do meu pobre corpo. Com as
trepidações da auto-maca, eu sentia grandes aflições no coração, mas
repetia sempre: «Tudo por Vosso amor, meu Jesus, e que a noite escura que sinto
na minha alma, sirva para dar luz as almas!»
Ao chegar às últimas casas de Balasar, vi que o Sr. Sampaio levantou
as cortinas da auto-maca e notei que as lágrimas assomaram aos olhos do médico,
que ia a meu lado e exclamou: «Coitadinhas!» Ao ouvir estas palavras,
perguntei-lhe o que era. Disseram-me que umas crianças, à beira da estrada,
lançavam flores para o nosso carro. Senti-me então cheia de compaixão para
com as criancinhas, enquanto as lágrimas teimavam deslizar-me nas faces, o
que a custo pude conter. Quando chegámos a Matosinhos, o médico levantou a
cortina da janela da auto-maca para eu ver o mar. Então um silêncio enorme se
apoderou do meu coração e, ao ver o movimento contínuo das ondas e a sua
vinda até à praia, eu pedi a Jesus que o meu amor fosse também assim sem
interrupção e duradoiro.
Chegámos perto do Refúgio, e o Sr. Dr. Gomes de Araújo não quis que
a auto-maca fosse até à porta e para isso disse aos bombeiros que virassem a
maca e me levassem assim pela rua, cobrindo-me o rosto para que ninguém me
visse. Logo nessa ocasião, o meu coração mais triste ficou, pois adivinhava já
o que seriam para mim esses longos trinta dias que iria passar nessa casa.
Enquanto ma transportavam de rosto encoberto, parecia-me estar num caixão. A
minha tristeza subia, e eu perguntava a mim mesma: «Que crime fiz eu?»
A subida das escadas do Refúgio foi um martírio, por eu estar de cabeça
para baixo. Só no quarto descobriram-me o rosto, e eu vi-me então rodeada pelo
Sr. Dr. Araújo e algumas das senhoras que iam servir de vigias, enquanto eu lá
estivesse. Colocaram-me na cama que já estava destinada para mim.
À minha irmã mandaram-na para outro quarto, contra o que eu tinha
pedido, pois este era um dos maiores sacrifícios que podíamos fazer, tanto uma
como a outra. Como havia eu de passar sem ela, que me dava todas as voltas
precisas e me ajudava com as suas carinhosas palavras a levar este doloroso calvário?...
Estava apenas na cama quando a Deolinda se apresentou à porta
trazendo uma mala, em que tínhamos a nossa roupa. O médico, Dr. Araújo, ao
ver a minha irmã, berrou alto: «Essa mala lá fora!...». Foi espinho sobre
espinho. Principiou a dar ordens: «As vigias, as vigias! A doente pode dizer
o que quiser, mas as senhoras não têm licença de a interrogarem».
Depois de dar todas estas ordens, retirou-se, ficando o médico
assistente e duas senhoras que estariam ali permanentes para vigiarem todos os
seus movimentos.
À noitinha já, ao retirar-se para vir embora o Sr. Dr. Dias de
Azevedo, então não consegui reter por mais tempo as lágrimas que me banhavam
os olhos. O meu médico teve ainda esta fineza, este respeito pela minha dor -
mais do que respeito, carinho: «Coragem, amanhã voltarei cá!»
Chorei sentidamente, mas logo ofereci essas lágrimas tão amargas ao
meu querido Jesus. Ao verem-me tão desolada, sempre consentiram que essa noite
ficasse junto de mim a minha irmã juntamente com uma das senhoras enfermeiras
para ela aprender as voltas que a minha irmã me costuma dar, mas ajuntou logo:
«Só por esta noite, porque amanhã não fica».
No dia seguinte, que era sexta-feira, começou então para mim o
verdadeiro calvário naquela casa. Na ocasião do êxtase, como acontece todas
as sextas-feiras, a minha irmã veio para junto de mim, encontrando-se também o
médico assistente e uma enfermeira.
Nada escapou aos observadores, nem os pequenos pormenores que foram
depois espalhados e comentados. Tais como estes: o Sr. Sampaio ter puxado pelo
relógio, … a minha irmã ter ajoelhado ao pé de mim para ouvir as palavras
do êxtase, … uma enfermeira ter chorado, etc.… O Sr. Dr. Azevedo escreveu,
como sempre as palavras do êxtase para entregar aos médicos. A Deolinda, que
devia por ordem estar apartada do quarto, andava amargurada e pedia: «Nem ao
menos poderei ver a minha irmã à porta do quarto? A minha vista alimentá-la-à,
talvez?» E debruçada sobre a minha cama, chorava inconsolável.
Foi então que eu lhe disse: «Não te aflijas, Nosso Senhor há-de
estar connosco!» A vigia que chorara durante o êxtase, batendo-lhe no ombro,
disse-lhe: «Não chore, o Sr. Dr. Araújo é de muita caridade!» Mas foi o
bastante para nunca mais essa vigia poder aproximar-se de mim, a não ser nos
últimos dias, quando já havia provas de verdade, e mesmo assim, só
acompanhada por outras pessoas.
Deve-se isto, e muitas coisas mais, a uma vigia que foi o meu carrasco
durante os dias da Foz. Deus Nosso Senhor lhe perdoe.
Nessa noite, comecei a sentir uma crise tremenda de vómitos que, como
sempre, muito mal me fazem e tanto me afligem, mas mais ainda aí, onde não
tinha a não ser uma vez quem me amparasse.
No sábado, veio novamente o Sr. Dr. Gomes de Araújo ver como eu me
encontrava e saber de tudo o que se tinha passado. A minha prostração era tão
grande que não dei conta de quando bateu à porta, que estava sempre fechada à
chave; só o ouvi quando, ao pé da minha cama, dizia à enfermeira: «Está
pronta! Está pronta!» Foi então que abri os olhos e disse-lhe: «Ó Senhor
Doutor, em casa também tenho estas coisas.» A resposta dele, muito pronta e
imperiosa: «Menina, não pense que vem aqui para jejuar!» Compreendi onde
queria chegar e senti-me profundamente ferida.
Quando soube do que se tinha passado na sexta-feira, exigiu os escritos
do êxtase e foi então que disse berrando: «Parece impossível que o Dr.
Azevedo, sendo um rapaz tão inteligente, se deixe levar por estas coisas. Isto
tem que acabar. No entanto, que desapareçam todos os relógios para ela ignorar
as horas...» (Como se Nosso Senhor precisasse deles!)
Ao ver o meu estado, queria medicar-me, mas eu não o consenti, nem o
consentiria. Quantas vezes as enfermeiras vieram junto de mim, convencidas de
que eu tinha morrido. Foram cinco dias de contínua agonia, mais da alma do que
do corpo, pois durante estas crises não consentiram que a minha irmã viesse
para junto de mim, eu que em casa chegava a precisar que duas pessoas me
aliviassem. Julgavam todos que esta crise era devida à falta de alimentação,
porque ao verem-me completamente isolada e sem ninguém que me pudesse levar
qualquer alimento, eu sentiria necessidade de o pedir ou então que estava a morrer.
Como estavam enganados! O meu alimento vinha-me da Hóstia bendita da minha
Comunhão de cada manhã.
Foi durante esta crise que voltou a visitar-me o médico assistente e,
depois de informado pela minha irmã lá fora da minha prisão, ao pé da minha
cama, foi aconselhado pela vigia de que eu precisava de tratamento. E eu que
ainda não tinha conta de ele entrar, abri os olhos para ele e ouvi que ele
dizia para a mesma: «Esta doente veio para aqui para ser observado e nada mais.
Creio que o Sr. Dr. Araújo cumprirá com as condições. Não consinto que se
lhe dê uma injecção ou outro medicamento, a não ser que ela o peça. E as
senhoras verão que, passada esta crise, as olheiras desaparecerão, as cores
voltam, o pulso volta ao seu normal. Não digo mesmo ao seu normal, talvez
devido aos ares do mar... O que lhes afianço é uma coisa: morrerão as senhoras,
morrerei eu, mas ela cá no Refúgio não morre.»
Sentado ao pé de mim, veio dar-me um pouco de alívio de que precisava.
Porque Nosso Senhor assim permitiu e achou bem; passados cinco dias os vómitos
desapareceram por completo e a cor natural do rosto voltou juntamente com o
brilho dos olhos. À nova visita do médico assistente que ia frequentemente
ver-me, a vigia teve esta frase: «Veja, Senhor Doutor! Olhe essa cara!» Ele,
muito delicado sempre, mas com firmeza: «Foi com os bifes que comeu e com as
injecções que levou.»
Jesus quis mais uma vez mostrar o seu poder nesta humilde criatura sua. Contudo,
todas as senhoras-vigias cumpriram bem as ordens do médico, pois não me
abandonavam um momento. A porta do meu
quarto só se abria para dar passagem aos médicos ou às enfermeiras.
À nova transformação que houve em mim, nem o médico nem as
enfermeiras se queriam convencer de que era possível eu continuar a viver sem
me alimentar. Porque se usavam argumentos para me atemorizarem, passava-se de
repente a frases que mostravam carinho e interesse pela minha pessoa. Eu ouvi
dizer nas conferências que tinham uns com os outros que o meu caso seria de
histerismo ou outro qualquer fenómeno que não sabiam explicar. Um dia em que
se aproximou de mim o Sr. Dr. Dias de Azevedo, eu disse-lhe o que ia na minha
alma tão amargurada: «Para ser tratada como histérica não preciso de estar
aqui.» Mas ele respondeu-me que tivesse coragem e confiança. Eu assim fiz,
para cumprir em tudo a vontade santíssima de Deus. O Sr. Dr. Gomes de Araújo visitava-me sempre duas ou três vezes ao
dia e sempre a horas desencontradas,
para ver se conseguia descobrir alguma coisa, penso eu, e algumas vezes entrou
no meu quarto já sendo noite, sendo ele a vigia que foi baptizada por alguém
com o nome de «cardeal-diabo».
Ainda que eu vivesse até ao fim do mundo, nunca mais poderia esquecer a
impressão que me causava o abrir e fechar das portas pelo médico, porque
estava sempre à espera do que ele iria dizer. Sentia uma impressão tão grande
que o meu coração estremecia e a minha alma mais triste se sentia. E quantas
vezes dizia e repetia a Jesus: «Que esta noite sirva para dar luz a ele, às
pessoas que me rodeiam e a todas as almas que se encontram nas trevas».
Nas conversas e interrogatórios, que várias vezes me fez, empregou o
Sr. Doutor todos os meios possíveis, para me convencer a alimentar-me e
fazer-me sentir que não devia fazer assim, porque Deus não gostava. Até
pelos escrúpulos me quis levar. Mais, a enfermeira tentou muitas vezes levar-me
pelo lado do coração; uma das vezes que falou comigo, até queria ver se
conseguia tirar-me a fé. Serviu-se de quantos meios tinha ao seu alcance, e,
com interrogatórios intermináveis e torturantes para me levar a desanimar,
julgando que tudo isto, quanto se tem passado em mim, fosse influência humana e
não de Deus. Se em todos os dias que era interrogada pelo médico me parecia
ter diante de mim um lobo com pele de cordeiro, neste dia, pior ainda:
parecia-me ver nele o próprio Satanás, com as suas artes, com seus sorrisos
manhosos, a tentara tirar-me a fé e a persuadir-me que tudo era ilusão.
«Convença-se, a menina — dizia ele — que Deus não quer que
sofra. Se quer salvar os outros, que os salve Ele, se é verdade que tem poder
para isso! Se é verdade que Deus recompensa aqueles que sofrem, para si já não
tem recompensa para lhe dar, pelo que tem sofrido».
Mas, meu Deus, eu sei que Vós sois infinito, infinito no poder,
infinito nos Vossos prémios.
Se fosse como ele diz, por quem sofro eu?
Acompanhava as suas palavras com um olhar maliciosos de demónio. (Assim
me parecia.) Eu, então respondi-lhe:
«São tão grandes, tão grandes as coisas de Nosso Senhor, e nós
somos tão pequeninos, tão pequeninos, ao menos eu!» Ficou-se; e depois,
indignado, disse: «Tem razão; mas eu sou pessoa maior um bocado!» – e saiu.
«Quão longe estava o médico de conhecer esta lei do amor
das almas! Se ele soubesse o valor duma alma, veria então que nada é
demais tudo quanto façamos para as salvar.
Era uma chuva constante de humilhações e sacrifícios. Oh, se eu
soubesse sofrer bem, quanto tinha que
oferecer a Jesus! Estavam sempre a aparecer coisas novas que humilhavam e
sacrificavam. Tinha aos pés da minha cama um retrato da pequenina Jacinta, que
me mandaram para lá. Eu olhava-a com amor e, então, já sem temer que as
vigias contassem ao médico, dizia assim: «Querida Jacinta, tu, tão pequenina,
soubeste o que isto custa! Ajuda-me, lá do Céu onde estás.» Só o auxílio
do Céu, só as orações de almas boas podiam ser a minha força, para subir tão
doloroso calvário e suportar o peso de tão pesadíssima cruz!
Era interrogada pelo Sr. Dr. Gomes de Araújo todas as vezes que ele
vinha junto de mim. Repetia frequentes vezes as mesmas perguntas e todas as
vezes me deixava assustadíssima, dizendo quase sempre: «Temos muito que
conversar.»
Logo que eu o via sair do quarto, respirava fundo e dizia para mim
mesma: Graças a Deus que já estou livre de ti. Mas logo o pensamento que ele
depressa voltava me deixava um sofrimento bem amargo.
Um dia, sentado ao meu lado
direito, procurou todos os meios para convencer-me de que tudo isto que se
passava eram ilusões minhas e então principiou com uns rodeios, muito ao
longe, sobre a Medicina, falando num professor seu e num Colégio do Porto onde
ele tinha gasto muitas horas de noite no seu estudo, não tinha dormido, e tinha
escrito muitas páginas e convencido de que tinha acertado com o seu estudo, foi
ao encontro do professor contar-lhe o resultado das suas lições. O professor
dizia-lhe: «Tem a certeza do que diz?» E ele afirmava-lhe, uma e outra vez,
que sim, por esta e por aquela forma. A conversa já ia longa e eu fitava-o como
se nada compreendesse, e dizia para mim mesma: «Andas por tão longe, para
vires cair tão perto!» Enquanto ele continuava dizendo: «Eu estava convencido
que tinha feito um belo estudo; o professor deixou-me dizer tudo e depois
disse-me: “Não vê que está enganado, que não pode ser nada disso, por esta
e por aquela razão?” Eu
fiquei: Meu Deus, tantas horas perdidas! Tantas horas de ilusões! Tudo
caiu por terra!» — Eu, que já via há muito tempo aonde ele queria chegar,
sorri-me e disse: «Não cai, Senhor Doutor. Tenho à minha frente um Director
muito santo e muito sábio e estudou o
caso por alguns anos. E, se a obra é de Deus, não há nada que a deite por
terra».
Ele, um pouco embaraçado, disse-me: «Ai não!...» - fingindo com as
suas palavras que não era isso o que ele queria dizer. Dada a minha resposta,
depressa se retirou, e já era tempo.
Ai, meu Jesus, só conVosco podia desabafar, só para Vós eram as
minhas lágrimas. Cantava com o maior dos entusiasmos. Mas dentro em mim e até
aos meus próprios olhos parecia-me não haver sol nem dia. Algumas vezes,
durante a noite, lembrava-me: o que estará, agora, minha irmã a fazer? Estará
a chorar? E lembrando-me que ela sofria tanto por minha causa, uma vez não pude
conter as lágrimas. Chorei, chorei. Só receava que Jesus ficasse triste pelas
minhas lágrimas. Mas Ele bem sabia que tudo queria e aceitava por Seu amor, com
desejo imenso de lhe dar todas as almas. E oferecia-Lhe as minhas lágrimas como
actos de amor para os sacrários. Quanta mais amargura, mais amor, não é, meu
Jesus? Aceitai. Foi minha mãe visitar-me aos 16 dias e aos 30. Tinha tanta
saudade dela! Estava tão pouquinho tempo junto de mim e sempre sob os olhares
curiosos das espias! Ela chorava e eu fingia não ter coração: sorria-me e
gracejava com ela, acariciava-a, e com o meu sorriso enganador escondia a
amargura que me ia na alma, e retirava as lágrimas que teimavam deslizar-me
nas faces. Animava-a e desabafava intimamente sozinha com o meu Jesus. Era a
minha cruz, e quem não havia de levá-la por amor d’Aquele que morreu por
mim?
Assim iam passando os dias nesta luta constante, alternados pela mudança
das senhoras enfermeiras, que iam e vinham conforme a vontade do médico. Com
algumas sofri imenso porque chegaram a ir além dos direitos que lhes competiam
e dos deveres que tinham a cumprir. Ao aproximarem-se os dias que o médico
tinha dito que nos iria pôr mais à vontade, visto estar convencido da verdade,
deixando minha irmã passar mais algum tempo junto de mim e da vigia que
desempenhava a sua missão, concedendo também, aos 29 dias, uma visita, embora
de fugida, das irmãs franciscanas do Refúgio, pensávamos também mandar
dizer aos meus o dia do regresso, mas, sem o esperarmos, deu-se o contrário.
Uma das vigias informou do que se passava, a meu respeito, um médico
que não me conhecia nem conhecia o caso, o que levantou novas dúvidas.
Atreveu-se esse médico a dizer que não podia ser, que as vigias
facilmente se deixavam enganar e que só acreditaria, mandando para lá
enfermeiras da sua confiança.
O Sr. Dr. Araújo, um pouco
indignado por não acreditarem na observação feita por ele, exigiu que o
mesmo mandasse então uma pessoa da sua confiança. E escolheu uma irmã dele.
Quando nós pensávamos ver suavizada a nossa dor, foi então que se nos pediu
nova prova, mais triste e dolorosa.
O Sr. Dr. Araújo procurou
convencer-nos de que era conveniente passar lá ainda dez dias, embora ele
estivesse convencidíssimo da verdade, e, contra a vontade de minha irmã, ele
insistiu que era preciso ficar para convencer o outro médico. Eu respondi-lhe:
«Quem está trinta está quarenta». Assim é que ficou resolvido.
O Dr. Álvaro, na verdade, nem exigia tanto tempo, bastava-lhe só, para
se convencer, que eu ficasse quarenta e oito horas sem comer e sem evacuar, e não
exigia mais.
Foi o mesmo Dr. Araújo que, delicadamente, para honra do seu nome,
convidou a senhora a ficar mais um dia, depois mais outro.
Mesmo depois de cumprida a sua missão, essa senhora voltou várias
vezes a visitar-me, convencida enfim da verdade. Este último tempo foi um
verdadeiro calvário e eu oferecia a Nosso Senhor e à Mãezinha este grande
sacrifício. Dura prova, meu Deus!
O Dr. Araújo, sem me dizer o que ia fazer, tomou a borracha que tinha
sobre o estômago e um garrafão de água que as vigias tinham para molharem o
pano da cabeça e infundiu lá o que ele quis para eu, que ignorava o facto, se
chupasse do pano ou da borracha, como o outro médico afirmava, houvesse em mim
algum transtorno que eles lá sabiam, exigindo das vigias que eu não pedisse
que me fosse mudado o gelo. Assim o fiz, apesar de, por vezes, ela tentar mudá-lo.
Eu respondia: «Põe-se fora de mim para arrefecer. Manda o Sr. Doutor e é
assim que eu cumpro.» Voltou-se então ao rigor de antes ou pior, proibindo de
qualquer forma até que se me falasse de Jesus, julgando que com isso podia
tirar o que anda dentro de nós. «Não consinto – dizia ele – que chame a
sua irmã a não ser uma vez por noite.» A vigia, muitas vezes, como que a
tentar-me, durante a noite, com carinho impostor (não quer dizer que ela seja
impostora, mas era a impressão que me deixava): «Santinha, minha santinha –
dizia-me – sempre nessa posição! Eu chamo, eu chamo a sua irmã.»
- Muito obrigada, minha senhora, não quero. Manda o Senhor Doutor: é só
uma vez que ela vem.»
E quando, de facto, a minha irmã vinha por sua vez dar-me o jeito na
cama, segundo o médico permitira, a vigia acendia a luz, abria a porta e
punha-se a par com a minha irmã. Logo que a irmã se retirava, fingindo compaixão
e cuidados pelo frio que eu podia apanhar, descobria-me mais, para ver se alguma
coisa me tivesse deixado debaixo da roupa.
Eu compreendia muito bem e abria os braços sobre as almofadas para
ela ver melhor, fingindo não compreender. «Só por Vós, Jesus!»
Não faltaram as seduções para ver se eu tomava alguma coisa das suas
comidas. Quando me mostravam os petiscos sem dizer nada, eu contentava-me com
sorrir-lhes… E quando ofereciam a comida com palavras, eu agradecia: «Muito
obrigada!», mas sempre a sorrir, mostrando não compreender a sua maldade.
Quantas vezes me foi tirada a roupa toda para ser examinada!
Quando me via só, e principalmente de noite, parecia-me que o tempo
tinha duração da eternidade. Sentia que o meu coração fosse como uma árvore
que enraizasse com as suas veias pelo soalho e pelas paredes e que a fúria de
tanta tempestade as arrancava, ficava-me tudo por terra… e que todos e tudo me
calcassem. A fúria da tempestade era tão grande que, por fim, sentia que
quisesse arrancar essas veias e tudo caísse por terra. Dizendo isto, sinto de não
dizer nada do que eu passei nesses dias… Tudo se me apresenta pavorosamente à
minha memória. Que tormento! … Só o amor de Jesus pode vencer e a loucura
das almas!
Sentindo aproximar-se o médico: «Lá vem o carrasco visitar a pobre
encarcerada pelo amor de Jesus e das lamas. Não ofendi ninguém a não ser a Vós,
meu Jesus, mas os homens querem que desta maneira e sem o pensarem eu pague
assim as minhas ingratidões.»
Vendo a minha irmã desalentada que aparecia de vez em quando à
bandeira da porta a perguntar se eu estava pior… procurava encorajá-la.
Coitada! Ela ouvira a conversa do médico que o meu envenenamento era certo, por
eu não evacuar. Coitados deles!... Jesus sabe fazer as coisas melhor do que os homens!
Na véspera da partida, fora o dia das visitas. Passaram ao pé de mim
todas as criancinhas do Refúgio, a quem dei rebuçados e com quem rezei por
todos o da casa.
A minha irmã sentia-se outra e todos o notaram. Fui visitada talvez por
mil e quinhentas pessoas… Os polícias tiveram de intervir para manter a
ordem. Achei muita graça a um dos polícias que, encarregado de manter a ordem,
se limitou a pôr-se ao meu lado e ali ficou todo o tempo, contentando-se com
dizer de vez em quando ao povo: «Passem! Passem!»
Que impressão, meu Deus, aquele burburinho do povo! Não valeram as súplicas
da minha irmã para que acabassem com aquilo. Não valeram de nada os polícias.
O mesmo médico teve de ir à janela a dizer que se devia acabar porque era
impossível mais movimento para me não matarem. Quanta gente julgava que a própria
doente tivesse morrido! Eu, de facto, fiquei humilhada, abismada e cansadíssima
com o nojo de mim mesma pelos beijos recebidos, as lágrimas, etc. que me
deixaram no rosto, a dizer-me uma estima que não mereço e não quero.
A primeira coisa que eu fiz foi pedir à minha irmã que me lavasse. No
dia da partida, de manhã, o Médico, que não dormira quase nada, pela
responsabilidade, chegou ao Refúgio onde muita gente esperava para poder
visitar-me… e depois de estar um pouco comigo, deixou entrar algumas pessoas.
Foi então que nos disse que ficássemos à vontade e que a observação
terminara; deixou a minha irmã comer ao pé de mim e disse-me: «No
mês do Outubro terão lá, em Balasar, a minha visita, não como médico
espião, mas como amigo que as estima.»
Beijei, reconhecida, a mão do Sr.
Dr. de Araújo e agradeci
reconhecida todos os cuidados que tiveram para comigo, e fiz isso com toda a
sinceridade, pois sabia muito bem que, embora tivesse sido áspero para
comigo, mostrou toda a seriedade com que devia ser tomado o meu caso.
Naquela
tarde do dia 20 de Julho, foram as despedidas das religiosas e das vigias. Todas
as vigias me fizeram oferta das suas prendas. Algumas
delas vieram assistir à minha partida. Estava já dentro da auto-maca e foi uma
despejar sobre mim um frasco de perfume. Trazia consigo um ramo de cravos,
oferta de uma senhora, horas antes de eu me retirar. No
decorrer da viagem, ofereceram-me dois ramos de flores. Recebi-as
por delicadeza, apesar de não prever o resultado que vinha a dar, que havia de
vir pouco depois a ser causa de maiores sofrimentos para mim. Penso que as
pessoas que mas ofereceram era por saberem a estima e a loucura que eu tinha por
elas. Só Jesus sabe quanto eu amo florinhas, porque amo o Autor delas. Quantas
vezes as queridas florinhas me serviam para meditação – via nelas o poder, a
bondade e o amor de Jesus! Nem o perfume, nem as flores, nem a multidão do povo
que rodeava o nosso carro no decorrer da viagem foram motivo da mais pequenina
vaidade para mim. Quando parámos para eu descansar e eu via tanto povo a
aproximar-se de mim com tantas exclamações, eu dizia logo ao meu médico
assistente, que vinha ao meu lado: «Vamos, vamos, Sr. Doutor!»
Por
vezes, pensava que me tornava impertinente, mas ele tinha muita paciência
comigo.
Durante
a viagem, vivi mais dentro em mim do que fora. O mar, tudo o que se me
apresentava aos meus olhos, convidavam-me ao silêncio, à vida íntima com
Deus. Não tinha de que ter vaidade: tudo isso eram motivos para me humilhar e
fazer pequenina até desaparecer. O que seria de mim se fosse julgada pelo
mundo! Deitaram tanta malícia onde não havia nenhuma. Perdoai-lhes, Jesus! Não
conhecem as Vossas coisas!
Comovi-me
com as lágrimas das vigias e das pessoas. Foi
preciso telefonar à polícia para conter o povo. E saí daquela bendita casa
alegre por ter cumprido o meu dever e por regressar aos meus e ao meu querido
quartinho, de que tivera tantas saudades. Quando cheguei ao meu quartinho,
parecia mentira entrar nele. Houve lágrimas, mas desta vez muito diferentes:
eram de alegria. Depois de estar na minha cama, por muito tempo, não pude
consentir que me tocassem, soltava grandes gemidos com dores das mais dolorosas.
Foi o efeito da viagem. Agora digo eu: Por quem me sacrifiquei assim? Seria isto
também por vaidade? Ó mundo, ó pobre mundo! Vaidade, mas pelo quê? Que somos
nós sem Deus? Quem seria capaz de sofrer tanto por uma grandeza e uma vaidade
do mundo?
Quarenta
dias passados na Foz: só Jesus sabe o que eu lá passei, quantos espinhos a
ferirem-me, quantas setas cravadas em meu coração! Quantas humilhações,
quantas humilhações!
Razão
tinha o meu médico na minha ida para lá, ao colocar-me na testa um pano
molhado, em dizer-me: «Tem por aqui uns cabelos brancos, mas quando vier ainda
há-de ter muitos mais.» E, de facto, assim aconteceu: ele já adivinhava tudo
o que me esperava. Mas é tão bom passarmos por tudo por amor de Jesus!
APÊNDICE
«Desde
os meus seis ou sete anos não gostava de estar ociosa, e então ocupava-me em pôr
tudo em ordem em casa. Gostava muito de ir ao rio lavar roupa. Quando mais não
tinha que lavar, tirava o meu aventalinho e ia lavá-lo. Entretinha-me a arrumar
a lenha, pondo as achas encasteladas e muito direitinhas.
Às
vezes, era no jardim que trabalhava, ocupando-me a cuidar das plantas que haviam
de dar flores que ofereceríamos para adornar os altares da igreja.
Gostava
de tudo perfeito e asseado, mesmo quando doente.
Tinha
nojo do que estava sujo e fazia limpezas, as mais custosas, porque alegrava-me
de ver tudo limpinho.
Pouco
depois de virmos da Póvoa de Varzim – onde aprendi o pouco que sei – viemos
morar para o Calvário. A casa onde vivíamos não era assim como é hoje. Tinha
a cozinha na parte de baixo. Na primeira noite que passámos aqui, minha mãe
mandou-me despejar fora da porta da cozinha uma gamela de água. Eu tive medo e
por essa razão disse à minha mãe que não ia. Ela deu-me uma bofetada. Por má
vontade nunca disse à minha mãe: eu não vou. Deus me livre! Ela procurava-nos
a cara e não sei onde devíamos ir encontrá-la!...
Minha
irmã, com os seus 12 anos, principiou a aprender a costurar. Uma das primeiras
peças de vestuário que fez foi uma camisa para mim. A camisa era muito larga e
com um talho como se fosse para um rapaz. Eu, apesar de ter os meus nove anos,
escarneci da obra e da costureira. Peguei nela, vestia por cima da roupa que
trazia e vim assim até à nossa casa. Minha irmã, às gargalhadas, ia dizendo:
«Ó Alexandrina, tira a camisa, que é uma vergonha!...» Eu não me importei;
vim assim e também me ria à vontade.
Em
Santa Eulália de Rio Covo (tinha eu os meus 11 ou 12 anos) viviam meus tios que
adoeceram com uma febre intitulada a espanhola. Minha avó foi tratar deles, mas
adoeceu também. Para olhar por eles foi minha mãe que também ficou doente.
Por fim, fomos nós, apesar de ser novinhas. O meu tio morreu à noite e ficámos
lá até à Missa do sétimo dia.
Foi
preciso ir ao arroz, mas tinha que passar pelo quarto donde meu tio morrera. Ao
chegar à porta do quarto, senti-me tomada de medo. Não entrei. A minha avó
veio dar-mo. À noite, era preciso ir fechar a janela. Chegando à parte da
sala, disse comigo: Eu hei-de perder o medo. E passei devagar, mesmo com esta
intenção. Abri a porta, passei por onde tinha visto o cadáver e fui ao quarto
onde ele morreu. Desde então, nunca tive medo. Venci-me a mim mesma, à minha
custa.
Quando
tinha doze ou treze anos, tinha muita força. Um homem começou a fazer-se mito
forte com outras raparigas. Ele estava sentado. Eu dirigi-me a ele e voltei-o.
Ele pôs-se a gritar: «Deixa-me! Deixa-me!» Mas deixei-o só quando quis. O
meu fim era só: como ele era homem, que mostrasse a sua força.
Aos
treze anos dei uma bofetada a um homem casado que me tinha dirigido uns palavrões…
Virei as costas a um rapaz rico que me esperava num lugar solitário, por onde
eu tinha de passar, para me falar em namoro.
Com
catorze anos, tinha muito gosto em assistir aos moribundos. Lembro-me de um
homenzinho que estava a morrer e de uma pequena minha amiga. Fui à casa do
homenzinho e encontrei-o no meio duns manteirinhos velhos. Vim a casa e pedi à
minha mãe que lhe emprestasse roupa de cama. Minha mãe fez-me a vontade e eu,
muito contente, fui levar a roupa e fiquei a fazer companhia às filhas. O homem
durou uns doze dias. Apareceu em casa do doente um homem a pedir lenha à filha
dele, mas ela não a tinha. Começou a disparatar. Eu disse: «Ela não tem tido
tempo de a ir arranjar; que há-de fazer?» O homem respondeu: «Se não fosse
pela generosidade da tua mãe, levavas duas bofetadas!» Não mas deu, porque eu
calei-me. Quando não, era ele capaz de mas dar e eu ficava com elas…
Veio
aqui uma rapariga dizer que estava a morrer uma vizinha. Minha irmã pegou num
livro e num garrafãozinho de água benta e foi à casa da moribunda.
Seguiram-na duas aprendizas de costura. Eu fui também. Minha irmã começou a
ler as orações da boa morte. Estava nervosa e tremia, pois custava-lhe muito
assistir aos moribundos. A minha irmã acabou de ler quando a mulherzinha morreu
e disse: «Até agora fiz o que pude; agora não tenho coragem para mais.» Vi a
filha ao pé da mãe da morta. A neta fugiu e eu não tive coragem para a deixar
só. Fiquei a ajudar a lavá-la e a vesti-la. Estava cheia de chagas. Exalava um
cheiro horrível. Julguei que caía sem sentidos, porque me sentia mal. Outra
mulher que se encontrava no quarto, percebendo o meu estado, foi buscar uns
raminhos de sardinheiras e deu-mos a cheirar. Só vim para casa depois de tudo
pronto.
Com
os meus dezasseis anos, e já doente, fui à casa de uma vizinha onde minha irmã
estava a trabalhar de costura. Ao deparar com um fato de rapaz, vesti-o e
apareci junto da minha irmã e da dona da casa. Riram-se a escangalhar. Depois
disse-me a dona da casa: «Olha, vai pela estrada fora, que os meus filhos e o
meu marido andam a podar as videiras por cima da estrada.» Eu pensei que me
conheceriam, mas resolvi e fui. Os senhores não me reconheceram e, muito
admirados, pararam de trabalhar, para ver se conheciam o cavalheiro. Da janela
da casa, minha irmã e a dona da casa encheram-se de rir.
Entre
os meus 17-18 anos, eu e a minha irmã partimos daqui para irmos a Aldreu, com o
fim de fazermos flores artificiais por conta das zeladoras e a pedido do pároco.
Eu já andava doente. Fui para ajudara a Deolinda e virmos embora mais depressa.
Hospedámo-nos na residência do Pároco. Dois rapazes dos lados de Viana foram
lá e queriam namorar com a Deolinda, mesmo nas vésperas de virmos embora.
Pediram ao pároco para jogarmos as cartas. Pusemo-nos à lareira e o jogo
passou-se em conversa. O pároco, quando nos viu, dirigiu-se aos rapazes assim:
«Ai, ai! Então estou aqui há quatro anos e nunca vieram cá jogar e hoje
vieram?»
Na
noite seguinte, quando havíamos de vir embora, houve grande trovoada e chuva
que fez muita lama. Sendo eu muito doente, a sobrinha do pároco emprestou-me
uns socos e a minha irmã veio descalça. Um quarto de hora depois de sairmos de
casa, desatou a chover novamente. O sangue espirrava-me dos pés, por causa do
calçado não ser meu e por ter os pés muito mimosos, pois havia muito tempo
que me não descalçava. As dores eram muitas e, por fim, tive de me descalçar, molhando-nos
todas. Quando chegámos à estação, o
comboio tinha partido haviam passado cinco minutos. Minha irmã desatou a chorar
ao ver como eu estava. Eram nove horas da manhã. Só havia comboio às 11
horas, mas só parava em Barcelos, não nos convinha esse comboio. Esperámos na
estação. Apareceram uns professores de Aldreu que nos levaram a tomar café. Só
continuámos a viagem mais tarde, até que chegámos a casa da tia em Santa Eulália.
Ela preparou-nos uma boa refeição e não queria que viéssemos embora por nos
ver cansadas e ser tarde. Teimámos e prometemos vir só até Chorente, onde
vivia a tia Felismina. De lá viemos até Balasar, onde chegámos alta noite.
Batemos à porta, mas a mãe não estava em casa. Uma vizinha disse: «Olhem, a
Sra. Matilde está a morrer.» A vossa mãe estava lá. Fomos ter com ela. No
dia seguinte fui a casa da moribunda. Uma sobrinha dela disse-me: «Precisava
tanto de ir a casa…» Eu respondi: «Vá, que eu fico.» E ela: «Não tens
medo? – Eu não tenho medo nenhum!» Daí a pouco, a Sra. Matilde agonizava.
Eu rezei sempre aquilo que entendia, mas sem medo nenhum.
[i] O ano de nascimento indicado pela Alexandrina na autobiografia não corresponde ao da certidão de baptismo, que indica o ano de 1904, devido a um erro de cédula pessoal passada pelo escrivão da Póvoa, que fez o assento de perfilhação da Deolinda e da Alexandrina. Esta medida legal foi tomada por ocasião duma grave doença da mãe, para assegurar às duas crianças o direito de herdar o que era dela.
[ii] Josefina Alves de Sousa, vulgarmente chamada «Josefina-Escola», por viver no edifício da escola, juntamente com seu irmão professor.
[iii] O sofrimento moral a que alude a Alexandrina com tanta discrição fica plenamente desvendado nesta recomendação feita pelo P.e Pinho à Deolinda logo que tomou conta da sua alma: «Nunca deixe sua irmã sozinha quando cá vier visitá-la o Abade.»
[iv] Nota do P.e Pinho: «Esqueceu a narração de como, em Setembro de 1936, se escreveu para a Santa Sé sobre a Consagração.