Venerável Alexandrina Maria da Costa

AUTOBIOGRAFIA

  Os Salesianos, ou o próprio P.e Humberto Pascoal, abriram a Autobiografia da Ven. Alexandrina com esta nota:

A Autobiografia, redigida por ordem do Padre Mariano Pinho, S. J., foi ditada por Alexandrina, aos poucos, a D. Maria da Conceição Leite Reis Proença, professora de Balasar. Em apêndice, recolhem-se outros pormenores apontados pelo Padre Humberto Maria Pasquale e Padre Ismael de Matos, salesianos, em conversa adrede tida com a Alexandrina.

Esta é assim a primeira obra de fôlego que a autora ditou. E não é uma obra qualquer, é antes o átrio que dá acesso às restantes. Há nela páginas notáveis, que nos introduzem no âmago das experiências mìsticas que a Ven. Alexandrina viveu. De facto, ao tempo em que a ditou, estava-se no inìcio dos anos quarenta, quando ocorreu a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, quando o P.e Terças fez a sua publicação, quando o P.e Mariano Pinho teve de abandonar a sua direcção espiritual, quando, deixando de viver visivelmente o fenómeno da Paixão, já passara a vivê-lo apenas na intimidade, etc. Numa palavra, ela percorrera já grande parte da sua caminhada mìstica.

Repare-se que a autora não menciona muitas coisas que com ela se passaram. O exemplo mais significativo é o de calar o papel que teve na consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria.

Quer o P.e Mariano Pinho quer o P.e Humberto Pascoal referem e citam a Autobiografia nos seus livros. Este ùltimo transcreve muitos fragmentos no seu importante Cristo Gesù in Alexandrina. Era possìvel, a partir destes estudos (e também de Figlia del Dolore Madre di Amore), juncar o texto de notas, as mais das vezes bem ùteis. Nós mesmo, tendo estudado com afinco o perìodo em que a autora viveu na Póvoa e tendo recolhido tantos dados sobre os seus amigos, poderìamos acrescer por nossa conta tais notas. Estudámos, além disso, a biblioteca do P.e José Cascão, o reitor da Capela da Senhora das Dores ao tempo em que a Venerável a frequentou, uma biblioteca que ajuda a entender muito melhor o contexto devocional em que ela cresceu. Deixamos contudo esse aparato crìtico para uma edição escrita - quando houver empenho nesse sentido. As poucas notas que acompanham o texto encontram-se na original de Balasar.

Terminamos com o voto de que os amigos e admiradores da Venerável Alexandrina possam, com esta cópia digitalizada da Autobiografia, tornar ainda mais arraigada a devoção que já lhe dedicam.

 José Ferreira

 

 

 

Balasar, 20 de Outubro de 1940

 

Depois de uns momentos de oração, a implorar auxìlios do Céu e a luz do Divino Espìrito Santo para poder fazer o que o meu Padre espiritual me determinou, principio a descrever a minha vida, tal qual como Nosso Senhor ma for recordando, embora com grande sacrifìcio.

 

NASCIMENTO E BAPTISMO - Eu chamo-me Alexandrina Maria da Costa, nasci na freguesia de Balasar, concelho da Póvoa de Varzim, distrito do Porto, a 30 de Março de 1905[i], numa quarta-feira de trevas, e fui baptizada a 2 de Abril do mesmo ano, era então Sábado de Aleluia.

Serviram de padrinhos um tio de nome Joaquim da Costa e uma senhora de Gondifelos, Famalicão, de nome Alexandrina.

 

PRIMEIROS ANOS DA MINHA INFâNCIA - Encontro em mim, desde a mais tenra idade, tantos, tantos defeitos, tantas, tantas maldades que, como as de hoje, me fazem tremer. Era meu desejo ver a minha vida, logo desde o princìpio, cheia de encantos e de amor para com Nosso Senhor.

Até aos três anos de idade não me recordo de nada, a não ser de algum carinho que dos meus recebia. Com os meus três anos recebi o primeiro mimo de Nosso Senhor.

Como era desinquieta e, enquanto minha mãe descansava um pouco, tendo-me deitado junto dela, eu não quis dormir e, levantando-me, subi à parte de cima da cama para chegar a uma malga que continha gordura de aplicar no cabelo - conforme era uso da terra - e, por ter visto alguém fazê-lo, principiei também a aplicá-la nos meus cabelos. Minha mãe deu por isso, falou-me e eu assustei-me. Com o susto, deitei a malga ao chão, caì em cima dela e feri-me muito no rosto. Foi preciso recorrer imediatamente ao médico que, vendo o meu estado, recusou-se a tratar-me, julgando-se incapaz. Minha mãe levou-me a Viatodos, a um farmacêutico de grande fama, que me tratou, embora com muito custo, porque foi preciso coser a cara por três vezes e levou bastante tempo a cicatrizar a ferida. O sofrimento foi doloroso. Ah, se desta idade soubesse já aproveitar-me dele!... Mas não. Depois de um curativo, fiquei muito zangada com o farmacêutico; este ofereceu-me alguns biscoitos e vinho, que depois de amolecidos no vinho queria que os comesse. Eu tinha fome e, às vezes, até chegava a chorar porque não podia mexer os queixos. Não aceitei a oferta e ainda maltratei o farmacêutico. Ora aqui está a minha primeira maldade.

Pelos quatro anos e meio de idade, punha-me a contemplar o céu (abóbada celeste) e perguntava aos meus se poderia chegar-lhe se pudesse colocar umas sobre as outras todas as árvores, casas, linhas dos carrinhos, cordas, etc., etc. Como me dissessem que nem assim chegaria, ficava descontente e saudosa, porque não sei o que me atraìa para lá.

Lembro-me de que, nesta idade, tinha em casa uma tia doente, que morreu de cancro, e chamava-me para ir embalar um filho, primeiro fruto do seu matrimónio, serviço que fazia com toda a prontidão, quer de dia quer de noite.

Já nesta idade amava muito a oração, pois lembra-me que minha tia pedia-me para rezar com ela a fim de obter a sua cura.

 

DESENVOLVIMENTO DA MINHA INSTRUÇÃO RELIGIOSA. FREQUÊNCIA DA CATEQUESE - Comecei a frequentar a catequese e a dar mostras de um grande defeito, a teimosice. Um dia fui à doutrina à igreja e o coadjutor do Senhor Abade, P.e António Matias, indicou-me o lugar que devia tomar entre as meninas da minha idade, mas, como ia acompanhada de outras mais velhas, quis tornar lugar delas. Por mais carinhos que o Reverendo me fizesse e me mostrasse santinhos, eu não fui capaz de ceder à sua ordem. Dias depois, Sua Reverência convenceu-me e ficou sendo muito meu amigo e até me abrigava da chuva debaixo do seu viatório, de casa à igreja e desta a casa. Lembro-me que era muito teimosa.

Quando me encontrava na igreja, punha-me a contemplar os santos, e os que mais encantavam eram as imagens de Nossa Senhora do Rosário e S. José, porque tinham uns vestidos muito bonitos e eu desejava ter uns iguais aos deles. Não sei se seria já princìpio da manifestação da minha vaidade. Queria ter uns vestidos assim, porque perecia-me que ficava mais bonita com eles.

E, se nesta idade manifestava os meus defeitos, também mostrava o meu amor para com a Mãe do Céu, e lembra-me com que entusiasmo cantava os versinhos a Nossa Senhora e até me recordo do primeiro cântico que entoei na igreja, que foi «Virgem pura, tua ternura, etc.»

Gostava muito de levar flores às zeladoras que compunham o altar da Mãezinha.

 

VIVEZA DE CARÁCTER - Era viva e tão viva que até me chamavam Maria-Rapaz. Dominava as companheiras da minha idade e até as mais velhas do que eu. Trepava às árvores, aos muros e até preferia estes para caminhar em vez das estradas.

Gostava muito de trabalhar: arrumava a casa, acarretava a lenha e fazia outros serviços caseiros. Tinha gosto que o trabalho fosse bem feito e gostava de andar asseadinha. Também lavava roupa e, quando mais não tinha, era o meu aventalinho que trazia à cinta. Quando não sabiam de mim, era quase certo encontrarem-me a lavar num ribeiro que corria perto de casa.

Um dia, fui com a minha irmã e uma prima apascentar o gado, entre ele uma égua. A certa altura, a égua fugia para o lado do campo que estava cultivado e, como a fosse tornar, ela atirou-me ao chão, dando-me com a cabeça, e depois colocou-se sobre mim; de vez em quando raspava-me o peito com uma pata sobre o meu coração, como quem brinca. Levantava-se, relinchava e voltava a fazer o mesmo. Fez assim algumas vezes, mas não me magoou.

As minhas companheiras gritaram e acudiram várias pessoas que ficaram admiradas de eu sair ilesa da brincadeira do animal.

Quando me encontrava com umas primas que moravam distantes, cantava com elas pelos caminhos a Ave-Maria. Também gostava de cantar cantigas do campo e até me lembro do lugar em que cantei a primeira quadra e da letra da mesma. Era assim:

 

Ó Maria, dá-me lume,

Que eu bem o vejo luzir.

Bota o teu amor cá fora,

Que eu bem o vi p'ra lá ir.

 

Uma vez fui visitar a minha madrinha e tive de atravessar o rio Este, que levava grande corrente, chegando a abalar umas pedras que serviam de passadiço; e, sem reparar no perigo a que me expus, atravessei a corrente por essas pedras e a água ia-me levando. Foi milagrosamente que escapei à morte, bem como minha irmã que me acompanhava. Gostava muito de a (a madrinha) visitar, porque ela dava-me bastante dinheiro. Pouco depois, morria ela, e foi o meu primeiro desgosto. Tinha pena dela, do folar e da roupa dos sete anos que me tinha prometido. Minha avozinha soube amenizar esse desgosto, dando-me o folar todos os anos.

Tinha eu 6 anos quando, de noite, me entretinha, por muito tempo, a ver cair sobre mim inùmeras pétalas de flores de todas as cores, parecendo chuva miudinha. Isto repetiu-se várias vezes. Eu via cair estas pétalas, mas não compreendia; talvez fosse Jesus a convidar-me à contemplação das suas grandezas.

 

IDA PARA A PÓVOA A FIM DE FREQUENTAR A ESCOLA - Em Janeiro de 1911, fui com a minha irmã Deolinda para a Póvoa de Varzim, para frequentarmos a escola. Não quero pensar quanto sofri com a separação da minha famìlia. Chorei muito e durante muito tempo. Distraìam-me, acariciavam-me, faziam-me todas as vontades e, depois de algum tempo, resignei-me.

Continuei a ser muito traquinas: agarrava-me aos americanos e deixava-me ir um pouco e depois atirava-me ao chão e caìa; atravessava a rua quando eles iam a passar, sendo preciso o condutor deles acusar-me à patroa. Muitas vezes fugia de casa e ia apanhar sargaço para a praia, metendo-me no mar, como fazem as pescadeiras; trazia-o para casa e dava-o à patroa, que o vendia depois aos lavradores. Com isto afligia a patroa, pois fazia isto às escondidas, embora rapidamente.

 

PRIMEIRA VISTA DE JESUS à MINHA ALMA - Foi na Póvoa de Varzim que fiz a minha Primeira Comunhão, com sete anos de idade. Foi o Senhor P.e Álvaro Matos quem me perguntou a doutrina, me confessou e me deu pela vez primeira a Sagrada Comunhão. Como prémio, recebi um lindo lenço e uma estampazinha. Quando comunguei, estava de joelhos, apesar de pequenina, e fitei a Sagrada Hóstia que ia receber de tal maneira que me ficou tão gravada na alma, parecendo-me unir a Jesus para nunca mais me separar d'Ele. Parece que me prendeu o coração. A alegria que eu sentia era inexplicável. A todos dava a boa nova. A encarregada da minha educação levava-me a comungar diariamente.

 

RECEBI O SANTO CRISMA - Foi em Vila do Conde onde recebi o Sacramento da Confirmação, ministrado pelo Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo do Porto.

Lembro-me muito bem desta cerimónia e recebi-a com toda a consolação. No momento em que fui crismada, não sei o que senti em mim; pareceu-me ser uma graça sobrenatural que me transformou e me uniu cada vez mais a Nosso Senhor. Sobre isto, queria exprimir-me melhor, mas não sei.

 

AMOR à ORAÇÃO - à medida que ia crescendo, ia aumentando em mim o desejo da oração. Tudo queria aprender. Ainda conservo as devoções que aprendi na minha infância, como: Lembrai-vos, ó purìssima Virgem Maria, Ó Senhora minha, ó minha Mãe, o oferecimento das obras do dia - Ofereço-Vos, ó meu Deus -, a oração ao Anjo da Guarda, oração a S. José e várias jaculatórias.

Quando ia a passeio com a patroa para o campo, acompanhada com outras meninas, fugia do convìvio delas e ia colher flores que desfolhava para fazer tapetes na igreja de Nossa Senhora das Dores. Era em Maio e toda me comprazia de ver o altar da Mãezinha adornado de rosas e cravos e de respirar o perfume dessas flores. Algumas vezes, oferecia à Mãezinha muitas flores que minha mãe propositadamente me levava.

O capelão de Nossa Senhora das Dores organizou várias comissões de meninas para angariar meios para o culto da mesma capela. Essas comissões espalhavam-se pelas freguesias vizinhas da Póvoa de Varzim. Eu fui para a Aguçadoura e aceitávamos tudo o que nos dessem, como batatas, cebolas, etc. Por mais que pedìssemos, pouco arranjámos e tivemos a má ideia de saltar a um campo e tirámos batatas, cerca de dois quilogramas. Fui eu uma das que fiz tal acção, enquanto outras vigiavam. Entregámos as ofertas, não contando nada do que se tinha passado.

 

DEDICAÇÃO PELA ENCARREGADA DA MINHA EDUCAÇÃO - Lembro-me de ir acompanhar a minha patroa a Laundos cumprir uma promessa a Nossa Senhora da Saùde. Connosco foi uma filha dela e a minha irmã. Esta ajudava-a pegando-lhe na mão, porque ia de joelhos, e eu ia à frente dela e arrumava-lhe todas as pedrinhas que encontrava no caminho. A filha, que era mais velha do que nós, foi para a brincadeira.

Era muito dedicada à mulherzinha e, quando me davam qualquer coisa, como frutas, doces, etc., repartia com ela, que ficava toda satisfeita. Eu procedia assim porque o meu coração assim o queria, apesar de ser muito má.

Uma ocasião, a minha irmã pediu-lhe licença para ir estudar à casa de uma colega que morava perto de nós, e eu também queria ir. Como ela não me deixasse, chorei e por fim chamei-lhe «poveira»; estava zangada. Não me castigou, mas disse-me que não podia confessar-me sem lhe pedir perdão. Minha irmã disse-me o mesmo. Isto fez-me muita repugnância e, como quisesse confessar-me e comungar, venci o orgulho. Pus-me de joelhos e, de mãos erguidas, pedi-lhe perdão. Ela comoveu-se até às lágrimas e perdoou-me. Senti uma grande alegria por já poder no dia seguinte confessar-me e receber Jesus.

 

PERSEGUIÇÃO DOS GUARDAS-REPUBLICANOS - Depois de umas férias, ia para a Póvoa, eu e a minha irmã; tìnhamos quem nos acompanhasse, mas só depois de atravessarmos a freguesia. ìamos pelo caminho-de-ferro e avistámos ao longe dois guardas-republicanos. Tivemos medo deles e refugiámo-nos na volta de um caminho. Como minha irmã levasse um cestinho com linho, eles imaginaram que ela levava fósforos (espera-galegos) - proibidos naquele tempo - e perseguiram-nos. Nós fugimos e gritámos muito. Aos nossos gritos acudiram várias pessoas. Já estavam para fazer fogo quando compreenderam que não éramos portadoras de tal contrabando. Felizmente desta vez escapámos à morte.

Ainda na Póvoa de Varzim, lembro-me que tinha muito respeito pelos sacerdotes. Quando estava sentada à porta da rua, só ou com a minha irmã e primas, levantava-me sempre à sua passagem, e eles correspondiam tirando o chapéu, se era de longe, ou dando-me a bênção se passavam junto de mim. Observei algumas vezes que várias pessoas reparavam nisto e eu gostava e até chegava a sentar-me propositadamente para ter ocasião de me levantar no momento em que passavam por mim, só para ter o gosto de mostrar a minha dedicação e respeito pelos ministros do Senhor.

 

REGRESSO à TERRA NATAL - Passados dezoito meses, como minha irmã fizesse exame, viemos embora. Minha mãe queria que eu continuasse, mas sozinha não quis ficar; fiquei a saber pouco. Voltámos ao lugar onde nascemos e aì estivemos quatro meses; depois fomos morar para perto da igreja, numa casa da minha mãe.

Uma vez minha mãe deu-me uns soquinhos. Eu fiquei tão contente com eles, porque eram lindos!... Para ver a figura que fazia com eles, preparei-me como se fosse à Missa, calcei-os e depois ajoelhei-me, pondo-os à minha frente, fingindo que estava na igreja. Como era vaidosa!

Era muito amiga da minha irmã, mas, quando me zangava com ela, atirava-lhe com o que tivesse à mão. Lembro-me de fazer isso pelo menos duas vezes. Quero que o meu génio não fique encoberto. Também gostava de lhe fazer partidinhas e, quando me levantava primeiro do que ela, punha-lhe à porta do quarto paus a impedir-lhe a passagem para ela cair, quando por ali passasse. Era mesmo como quem lhe chamava preguiçosa. Fazia várias partidas deste género. Também as tinha de mau gosto, pois uma vez levantei a tampa de uma caixa e deixei-a cair com força, começando a gritar, fingindo assim que me magoei. Minha irmã acudiu logo e afligia-a bastante. Ficava muito pesarosa por a ter ofendido. Não guardava ódio nenhum, antes queria acariciar as pessoas que ofendia. Apesar de tudo isto e de subir às árvores - pois trepava muito bem - nunca fiz mal às avezinhas. Não era capaz de tirar os ninhos, nem de brincar com os passarinhos. Sofria muito quando via ninhos desfeitos ou quando ouvia o piar triste e dolorido dos pais pelos filhinhos. Cheguei a chorar com pena das avezinhas que ficavam sem os sus filhinhos ou destes que perdiam os seus pais.

Nas reuniões de famìlia, não sei o que dizia, mas dispunha bem as pessoas que me rodeavam, que se riam a bom rir. Minha mãe dizia: «Os fidalgos têm um bobo para os fazer rir e eu não sou fidalga, mas também tenho quem me esteja a fazer festa».

 

AS MINHAS PRIMEIRAS CONTEMPLAÇÕES - Pelos nove anos, quando me levantava cedo para ir trabalhar nos campos e quando me encontrava sozinha, punha-me a contemplar a natureza. O romper da aurora, o nascer do sol, o gorjeio das avezinhas, o murmùrio das águas entravam em mim numa contemplação profunda que quase me esquecia de que vivia no mundo. Chegava a deter os passos e ficava embebida neste pensamento, o poder de Deus! E, quando me encontrava à beira-mar, oh, como me perdia diante daquele grandeza infinita! à noite, ao contemplar o céu e as estrelas, parecia esconder-me mais ainda para admirar as belezas do Criador! Quantas vezes no meu jardinzinho, onde hoje é o meu quarto, fitava o céu, escutando o murmùrio das águas e ia contemplando cada vez mais este abismo das grandezas divinas! Tenho pena de não saber aproveitar tudo para começar nesta idade as minhas meditações.

 

OS MEUS ESCRùPULOS - Lembro-me de dizer duas palavras que tomei por pecados, sendo uma delas «diabo». Fiquei muito envergonhada e custou-me muito a confessar-me delas. Não gostava de ouvir conversas maliciosas e, embora não compreendendo o sentido delas, chegava a dizer que me retirava se não falassem doutra forma. Também me indignava toda quando presenciava cenas indecentes entre pessoas adultas. Tinha medo de perder a minha inocência e receio que Nosso Senhor desse algum castigo.

Foi aos nove anos que fiz pela primeira vez a minha confissão geral e foi com o Sr. P.e Manuel das Chagas. Fomos, a Deolinda, eu e a minha prima Olìvia, a Gondifelos, onde Sua Reverência se encontrava, e lá nos confessámos todas três. Levámos merenda e ficámos para arde, à espera do sermão. Esperámos algumas horas e recorda-me que não saìmos da igreja para brincar. Tomámos nosso lugar junto do altar do Sagrado Coração de Jesus e eu pus os meus soquinhos dentro das grades do altar. A pregação dessa tarde foi sobre o inferno. Escutei com muita atenção todas as palavras de Sua Reverência, mas, a certa altura, ele convidou-nos a ir ao inferno em espìrito. Para mim mesma disse: «Ao inferno é que eu não vou! Quando todos se dirigirem para lá, eu vou-me embora!», e tratei de pegar nos soquinhos. Como não vi ninguém sair, fiquei também, não largando mais os soquinhos.

 

AMOR AOS POBREZINHOS, DOENTINHOS E VELHINHOS - Era muito amiga dos velhinhos, pobrezinhos e enfermos e, quando sabia que alguém não tinha roupinha para se vestir, pedia-a a minha mãe e ia levar-lha, ficando por vezes a fazer-lhe companhia. Assisti à morte de alguns, rezando o que sabia e, por fim, ajudava a vestir os defuntos, o que me custava imenso; fazia-o por caridade: não tinha coração para deixar sozinha a famìlia dos mortos e, por serem pobrezinhos, fazia-o com muito gosto.

Dava esmola aos pobres e sentia grande alegria em fazer obras de caridade. Algumas vezes chorava com pena deles e por lhes não poder valer em todas as suas necessidades. A minha maior satisfação era dar-lhes daquilo que tinha para comer, privando-me assim do meu alimento. Quantas vezes fiz isto!... Apesar de muito criança ainda, dei muitas vezes conselhos a pessoas de bastante idade, evitando até que praticassem crimes horrendos, e de tudo guardava absoluto silêncio. Vinham ter comigo e faziam-me conversas que não eram próprias da minha idade, e eu confortava-as e dizia-lhes o que entendia. Presenciei e soube de viários casos que por caridade não contei.

Quanto hoje estou agradecida a Nosso Senhor por ter procedido assim: era a Sua graça e não a minha virtude!

 

AMOR à ORAÇÃO - Gostava muito de ir à igreja e chegava-me para junto da minha catequista[ii] e rezava quanto ela queria. Não deixava dia nenhum de rezar a estação ao Santìssimo Sacramento, meditada, quer fosse na igreja quer em casa, até pelos caminhos, fazendo sempre a comunhão espiritual assim:

«Ó meu Jesus, vinde ao meu pobre coração! Ah, Eu desejo-Vos, não tardeis! Vinde enriquecer-me das Vossas graças; aumentai-me o Vosso santo e divino amor. Uni-me a Vós! Escondei-me no Vosso Sagrado Lado! Não quero outro bem senão a Vós! Só a Vós amo, só a Vós quero, só por Vós suspiro! Dou-vos graças, Eterno Pai, por me haverdes deixado a Jesus no Santìssimo Sacramento. Dou-Vos graças, meu Jesus, e por ùltimo peço-Vos a Vossa santa bênção! Seja louvado em cada momento o Santìssimo e Divinìssimo Sacramento da Eucaristia!»

Também dizia várias jaculatórias, como «Bendito e louvado seja...» e «Graças e louvores se dêem...»

Gostava muito de fazer meditações ao Santìssimo Sacramento e à Mãezinha e, quando não podia fazê-las de dia, fazias de noite, às escondidas de todos, reservando uma vela, que escondida, para esse fim. Vidas de santos ou meditações muito profundas não me satisfaziam, porque via que em nada ma assemelhava aos santos e, em vez de me sentir bem, faziam-me mal.

 

GRAVE DOENÇA - Aos doze anos, tive uma doença muito grave, chegando a receber os ùltimos sacramentos. Preparei-me para morrer, e lembro-me que estava bem disposta para a morte. Um dia em que a febre estava muito alta, delirei, mas lembro-me que pedi à minha mãe que me desse Jesus; ela deu-me um crucifixo e eu disse-lhe: «Não é esse que eu quero. Eu quero o Senhor do sacrário.»

 

PERìODO MAIS DOLOROSO DA MINHA VIDA DE TRABALHO - Dos doze aos catorze a os vivi com regular saùde. Minha mãe pôs-me a servir em casa de um vizinho, mas, ao ajustar-me, tirou certas condições, como: confessar-me todos os meses, passar as tardes dos domingos em casa, para ir à igreja e estar sob o domìnio dela, não andar de noite, etc. A combinação foi de cinco anos, mas não estive até ao fim. O patrão era um perfeito carrasco; chamava-me nomes, obrigava-me a trabalhar mais do que as forças que tinha. Tinha mau génio e pouca paciência - até os animais o conheciam, porque batia-lhes e assustava-os, sendo quase impossìvel chamar o gado, quando ele ia junto do gado. Envergonhava-me sem causa, fosse diante de quem fosse, e eu sentia-me humilhada. Apesar de estar no princìpio da minha mocidade, não sentia alegria com aquele triste viver. Um dia fui à azenha levar a fornada, mas era já noitinha quando lá cheguei e, portanto, muito tarde quando regressei a casa, pois gastava no caminho uma hora. Depois que cheguei a casa, ralhou-me muito, insultou -me e até me chamou ladra. O pai dele, homem velhinho, revoltou-se contra ele, defendeu-me, dizendo que eu não tinha tido tempo para mais. Todos os dias vinha ficar à casa, e naquele dia, como estava melindrada - porque a minha consciência não me acusava a mais pequena falta - queixei-me a minha mãe que, depois de se informar do caso, não me deixou voltar, apesar de pedir muito para que continuasse a trabalhar lá. Minha mãe, vendo que ele não cumpria o contracto, tirou-me de servir.

Uma vez estive das dez horas da noite às quatro da manhã na Póvoa de Varzim a tomar conta de quatro juntas de bois, porque o patrão e um seu amigo ausentaram-se de mim; e eu, cheia de medo, lá passei aquelas horas tristìssimas da noite. Enquanto vigiava o gado, ia contemplando as estrelas que brilhavam muito e serviam de minhas companheiras.

Foi aos doze anos que me deram o cargo de catequista e cantora; trabalhava com muito gosto, tanto num cargo como noutro, mas pelo canto posso dizer que tinha uma paixão louca.

Quando comungava e me encontrava no meio das minhas companheiras a dar graças, sentia uma humilhação tão grande que julgava a mais indigna de receber Jesus-Hóstia!...

 

UM SONHO - Uma noite, ia da cozinha para a sala com ma candeia acesa e ela apagou-se. Tratei de a acender, voltando à cozinha, mas ela apagou-se por várias vezes, tendo de andar abaixo e acima. Não me recordo que fosse vento que a pudesse apagar. Da ùltima vez em que tentei acendê-la, caì, entornei o petróleo, que me saltou para a a boca. Julgando que era o mafarrico, disse: «Podes ir embora, que hoje não arranjas nada». Fui deitar-me muito sossegada, adormeci e tive um sonho que se gravou na minha alma para nunca mais me esquecer. Foi assim:

Subi ao Paraìso por umas escadinhas tão estreitinhas que mal me cabiam as pontas dos pés. Foi com muita dificuldade e com muito tempo que lá cheguei, porque não tinha nada onde me amarrar. Pelo caminho, via algumas almas que ficavam ao lado das escadas, dando-me conforto sem me falarem. Lá em cima, vi ao centro, num trono, Nosso Senhor, e, ao lado d'Ele, a Mãezinha. Todo o céu estava cheio de bem-aventurados. Depois de contemplar tudo isto, tive que vir à terra, o que eu não queria. Desci com muita dificuldade e encontrei-me na terra, e tudo tinha desaparecido. Depois, acordei.

 

UMA TARDE DE RECREIO - Uma vela tarde, fui passear com as minhas primas para um monte próximo de casa, onde andavam algumas jumentinhas a pastar. Atirei-me para cima duma delas; como não sabia montar, fui cair, pouco depois, entre o mato; mas não me feri nos picos dele. Ri-me a bom rir com as minhas companheiras.

Quando recordo estas brincadeiras, tenho pena de as ter feito; antes queria só ter amado Jesus.

 

UM SALTO - Até aos catorze anos, trabalhei nos campos e com tal cuidado que me pagavam o jornal como a minha mãe. Uma vez, andava a apanhar hera numa carvalheira para dar ao gado e caì dela abaixo, ficado algum tempo sem me poder mexer e sem respirar, levantando-me pouco depois para continuar o meu serviço.

Uma ocasião, estando eu, minha irmã e uma pequena mais velha que nós a trabalhar na costura, avistámos três homens: o que tinha sido meu patrão, outro casado e um terceiro solteiro. Minha irmã, percebendo alguma coisa e vendo-os seguir o nosso caminho, mandou-me fechar a porta da sala. Instantes depois, sentimos que eles subiam as escadas que davam para a sala e bateram à porta. Falou-lhes minha irmã. O que tinha sido meu patrão mandou abrir a aporta, mas, como não tivessem lá ora, não lhes abrimos a porta. O meu antigo patrão conhecia em a casa e subiu por umas escadas pelo interior da habitação e os outros ficaram à porta onde tinham batido. Ele, não podendo entrar pelo interior por um alçapão que estava fechado e resguardado por uma máquina de costura, pegou num maço e deu fortes pancadas nas tábuas até rebentar o alçapão, tentando passar por aì. Minha irmã, ao ver isto, abriu a porta da sala para fugir, mas essa ficou presa, e eu, ao ver tudo isto, saltei pela janela que estava aberta e que deitava para o quintal. Sofri um grande abalo porque a janela distava do chão quatro metros. Quis levantar-me logo, mas não pude, porque me deu uma forte dor na barriga. Com o salto caiu-me o anel que usava, sem dar por ela. Cheia de coragem, peguei num pau e entrei pela porta do quintal para o eirado onde estava a minha irmã a discutir com os dois casados. A outra pequena estava na sala com o solteiro. Eu aproximei-me deles e chamei-lhes «cães» e disse que o deixavam vir a pequena ou então gritava contra eles. Aceitaram a proposta e deixaram-na ir.

Foi nesta altura que dei pela falta do anel e disse-lhes de novo: «Seus cães, por vossa causa perdi o meu anel». Um deles, que trazia os dedos cheios de anéis, disse-me: «Escolhe daqui um.» Mas eu, toda zangada, respondi: «Não quero.» Não lhes demos mais confiança; eles retiraram-se e nós continuámos a trabalhar. De tudo isto não contámos a ninguém, mas minha mãe veio a saber tudo. Pouco depois, comecei a sofrer mais e toda a gente dizia que foi do salto que dei. Os médicos também afirmaram que muito concorrera para a minha doença.

 

SOFRIMENTOS FìSICOS E MORAIS - Aos catorze anos e quatro meses, deixei o trabalho para sempre, embora há meses trabalhasse com muito custo. Principiei a consultar médicos, coisa que me custava imenso. Eles tratavam-me de várias doenças; a princìpio tudo corria bem e todos tinham pena de mim e eu só sentia o desgosto dos meus males. Isto durou bem pouco tempo. As minhas maiores amigas, pessoas da famìlia e o próprio pároco revoltaram-se contra mim. Chegaram a fazer caçoada de mim, do meu modo de andar, da posição que tinha na igreja..., mas eu não podia estar doutra forma.

O Sr. Abade dizia-me que eu não comia porque não queria e se morresse que ia para o inferno. Quando me ia confessar dizia-me também que o meu maior pecado era não comer. Estas palavras fizeram-me sofrer muito sozinha; com Nosso Senhor é que eu desabafava.

Quando ia de casa para a igreja e desta para casa, olhava os montes em volta e pensava fugir e refugiar-me onde mais ninguém me visse, mas Nosso Senhor nunca me deixou fazer isto. Chorei tanto, tanto ao ver-me na situação em que me encontrava... não me recordo bem do tempo que durou este sofrimento, mas sei que não chegou a um ano.

Como piorasse cada vez mais e ao verem o mau estado, foi o próprio Sr. Abade quem aconselhou minha mãe a levar-me a um médico conhecido dele. Foi esse que me veio tirar do martìrio em que vivia, dizendo aos que lhe perguntavam que não comia porque não podia. Apesar de estar longe de compreender todos os meus sofrimentos, era muito meu amigo.

 

DORES SEM ALìVIO, DOZE ANOS DE PREOCUPAÇÃO CONTìNUA - Nosso Senhor aliviou-me de um, mas deu-me outro sofrimento maior ainda[iii]. Só dele teve conhecimento Jesus e, alguns anos mais tarde, o meu Pai espiritual.

Passaram-se seis anos de doença, um pouco a pé, outro pouco na cama. Durante este perìodo cheguei a estar cinco meses sem me levantar, continuando no mesmo sofrimento moral por espaço de doze anos sem nunca, nunca dizer nada a ninguém. Quando me encontrava sozinha e presa no meu leito, voltava-me para o quadro da entronização do Sagrado Coração de Jesus, pedia-lhe que me libertasse de tal sofrimento, que me desse luz para conhecer o que havia de fazer, enquanto ia chorando muitas lágrimas.

Não deixei de pedir muito à Mãezinha para que intercedesse por mim nas mesmas intenções.

 

TRATAMENTO A SéRIO DA MINHA DOENÇA, VÁRIAS PRETENSÕES DE CASAMENTO - Com os meus dezasseis anos, pouco mais ou menos, fui continuar o meu tratamento para a Póvoa de Varzim.

Numa manhã, quando me dirigia para a igreja, percebi que alguém apressadamente se aproximava de mim. Era um militar que se dirigia a mim a pedir-me namoro. Recusei imediatamente, mas como ele insistisse e não deixasse de me acompanhar, disse-lhe que se retirasse, que ia para a igreja. Pediu-me licença para estar comigo quando voltasse da igreja. Prometi-lhe que estaria, só para me livrar dele, com a ideia de trocar o caminho. Ao voltar, pus-me a ver se o via e, como nada enxergasse, vim pela mesma rua. A certa altura surgiu-me ele, não sei de onde, e disse-me: «Ó menina, você que me prometeu?», e tratava de me acompanhar a casa. Parei e falei-lhe, dizendo que era doente e que minha mãe não consentia que eu namorasse. Custou-me muito a convencê-lo. De repente, apareceu a minha irmã e ralhou-me, pensando que eu estava a namorar. Não voltei mais por aquele caminho, com receio de me encontrar com ele. Com isto, tudo terminou.

Várias vezes me vi apoquentada por rapazes a pedirem-me namoro, mas nunca aceitei. Cheguei a dizer a um que me falava em casamento: «Não deixo a minha famìlia por causa de um homem.»

Sendo do conhecimento do Senhor Abade que um outro me pretendia, Sua Reverência falou-me assim: «Se queres o rapaz, isso é tudo comigo.» Eu respondi-lhe: «Eu estou boa para casar!», pois já me sentia bastante doente e, além disso, não tinha inclinação nenhuma para o casamento.

às vezes pensava, se um dia fosse casada, como educaria os filhinhos para serem todos de Nosso Senhor.

 

VIGILâNCIA DA QUERIDA MÃEZINHA - Com os meus dezoito anos, vi-me num perigo muito grande, inesperadamente. Lembro-me que levava o meu tercinho na mão e que apertei uma medalha da Nossa Senhora das Graças e, de repente, livrei-me do perigo. Foi sem dùvida a Mãezinha do Céu a velar-me. Oh, como lhe estou agradecida!...

 

DESEJOS DE SER CURADA, CONFORMIDADE COM A VONTADE DE DEUS - Aos dezanove anos acamei e, desta vez, não tive, como da outra, quem me dissesse: «Deixa passar algum tempo, que ainda virás a levantar-te.» Nesta altura, o médico do Porto, Sr. Dr. João de Almeida, informou minha mãe de que temia que eu entrevasse.

A partir desta ocasião, comecei a ter por enfermeira minha irmã, porque minha mãe ocupava-se em serviços do campo e minha irmã costurava. Tive momentos de desânimo, mas nunca de desespero. Nada no mundo me prendia, só tinha saudades do meu jardinzinho, porque amava muito as flores. Algumas vezes fui vê-lo, matar essas saudades, ao colo da minha irmã. Tinha muitas saudades de Jesus, da nossa igreja e, quando havia festas do Sagrado Coração de Jesus ou Missas cantadas, eu chorava amargamente. Como era cantora, entristecia-me muito por ver a minha irmã, que também cantava, e eu ficar. Quantas vezes ela me dizia: «Se lá pudesses estar deitadinha, eu levava-te ao colo!» Chorava ela por ir e eu ficar e chorava eu por a ver a sair e não poder acompanhá-la, mas conformava-me sempre com a vontade de Nosso Senhor. A pouco e pouco, fui-me habituando à cama e fui perdendo todas as saudades.

Nos primeiros anos, fazia por me distrair e até pedia que jogassem às cartas comigo, outras vezes jogava eu sozinha. Tenho pena de não ter pensado desde o princìpio como penso agora, de viver só unida ao meu Jesus.

Cheguei a fazer algumas promessas para ser curada, como: cortar rente o meu cabelo (que era para mim grande sacrifìcio), dar todo o meu ouro e vestir-me de luto toda a minha vida, ir de joelhos desde a minha casa até à igreja. Minha mãe, irmã e primas fizeram também grandes promessas. Por fim, compreendi que a vontade de Nosso Senhor era que estivesse doente. Deixei de pedir a minha cura. No decorrer dos anos, estive várias vezes às portas da morte; preparava-me com os ùltimos Sacramentos e esperava a hora da morte resignada. Na medicina, não tinha outro alìvio senão um bocadinho de morfina que me injectavam.

 

A DEVOÇÃO à MÃEZINHA, PREDILECÇÃO PELO MÊS DE MARIA - Todos os anos, no mês de Maio, fazia o mês da Mãezinha. Gostava muito de o fazer sozinha: meditava, cantava, rezava e chorava algumas vezes ao mesmo tempo que pedia à Mãe do Céu que me libertasse da grande tribulação que estava a passar. Cantava o «Tantum ergo» como se estivesse na igreja e fosse receber a bênção de Nosso Senhor. Como não tinha o Santìssimo Sacramento em casa, nem nenhum sacerdote que me viesse dar a bênção, pedia a Nosso Senhor que ma desse do Céu e de todos os sacrários. Oh, que  momentos tão felizes!... Sentia cair sobre mim todas as bênçãos e amor de Nosso Senhor! Nestes momentos, pedia a Jesus para abençoar toda a minha famìlia e todas aqueles que me eram queridos.

Como não tinha nenhuma imagem da Mãezinha, nos primeiros anos, vinha uma de casa do Senhor abade - o Coração de Maria. Durante o mês, tudo estava bem, mas ao terminar sentia grandes saudades quando tinha de ficar sem a imagem. Principiei a pensar na maneira de arranjar uma que fosse só minha. Como não tinha dinheiro, várias pessoas ajudaram-me. Uma amiga deu-me uma franguinhas que minha irmã foi criando até porem ovos, para mais tarde nascerem pintainhos. Assim fui arranjando a quantia precisa para a imagem, redoma e altarzinho, etc. Não sei descrever a consolação que senti ao ver que possuìa para sempre a imagem da querida Mãezinha e que ficaria a contemplá-la dia e noite.

 

NOVOS DESEJOS DE SER CURADA. INTEIRA CONFORMIDADE COM A VONTADE DIVINA - Como me falassem dos milagres de Fátima e sabendo eu, em 1928, que várias pessoas iam à Cova da Iria, nasceram em mim desejos de ir também. O médico assistente e o meu pároco não me deixaram, dizendo que era impossìvel ir tão longe, se eu mal consentia que me tocassem na cama. O Sr. Abade dizia-me que pedisse daqui a acura e que, depois, iria a Nossa Senhora de Fátima agradecer tão grande graça. O médico prometeu passar o atestado se o milagre se desse.

Nesse ano, o Sr. Abade foi a Fátima e perguntou-me o que queria de lá. Pedi-lhe que me trouxesse uma medalha, mas ele ofereceu-me um terço, uma medalha, o «Manual de Peregrino» e alguma água de Fátima. Sua Reverência aconselhou-me a fazer uma novena a Nossa Senhora e a beber água de Fátima com o fim de ser curada. Não fiz uma, mas muitas. Cantava muito e dizia às pessoas vizinhas que me visitavam: se um dia me vissem pelo caminho e me ouvissem cantar, era eu que ia agradecer a Nossa Senhora o benefìcio que recebia. Pensava que seria curada, mas enganei-me; era a minha grande confiança na Mãezinha e em Jesus que me fazia falar. Pensava: se for curada, vou logo, logo para religiosa, pois tinha medo de viver no mundo. Nem sequer visitava a minha famìlia. Queria ser missionária, para baptizar pretinhos e salvar almas a Jesus.

Como não consegui nada, morreram os meus desejos de ser curada e para sempre, sentindo cada vez mais ânsias de amor ao sofrimento e de só pensar em Jesus.

Um dia em que estava sozinha e, lembrando-me de que Jesus estava no sacrário, disse:

«Meu bom Jesus, Vós preso e eu também. Estamos presos os dois: Vós preso para meu bem e eu presa das Vossas mãos. Sois Rei e Senhor de tudo e eu um verme da terra. Deixei-Vos ao abandono, só pensando neste mundo, que é das almas a perdição. Agora, arrependida de todo o coração, quero o que Vós quiserdes e sofrer com resignação. Não me falteis, bom Jesus, com a Vossa protecção.»

 

OFERECI-ME A JESUS COMO VìTIMA - Sem saber como, ofereci-me a Nosso Senhor como vìtima, e vinha, desde há muito tempo, a pedir o amor ao sofrimento. Nosso Senhor concedeu-me tanto, tanto esta graça que hoje não trocaria a dor por tudo quanto há no mundo. Com este amor à dor, toda me consolava em oferecer a Jesus todos os meus sofrimentos. A consolação de Jesus e a salvação das almas era o que mais me preocupava.

Com a perda das focas fìsicas, fui deixando todas as distracções do mundo e, com o amor que tinha à oração - porque só a orar me sentia bem - habituei-me a viver em união ìntima com Nosso Senhor. Quando recebia visitas que me distraìam um pouco, ficava toda desgostosa e triste por não me ter lembrado de Jesus durante esse tempo.

 

PEQUENINOS SACRIFìCIOS POR AMOR DE JESUS - Por amor de Jesus e da Mãezinha, fazia sacrificiozinhos como: deixava de me ver ao espelho, chegando a tê-lo muitas vezes na mão; não falava quando me apetecia, e vice-versa; deixava de dormir durante a noite para fazer companhia a Jesus. Comungava sacramentalmente poucas vezes, mas vivia unidinha a Ele o mais possìvel. Consentia que as moscas me mordessem, etc., etc.

 

COMO HONRAVA JESUS E A SSª VIRGEM - Para honrar Jesus e a SSª Virgem, escrevia em papéizinhos, santinhos, etc., o que se segue:

«Amo-Vos, Jesus, de todo o meu coração. Compadecei-Vos desta pobre doentinha e levai-a para Vós quando for da Vossa vontade. Sim, amado Jesus? Nunca Vos esqueçais de mim, que sou uma grande pecadora.»

Em 1930:

«Ó meu querido Jesus, quero ir visitar-Vos aos Vossos sacrários mas não posso, porque a minha doença obriga-me a estar retida no meu querido leito de dor. Faça-se a Vossa vontade, Senhor, mas, ao menos, meu Jesus, permiti que nem um momento se passe sem que à portinha dos Vossos sacrários eu vá em espìrito dizer-Vos:

Meu Jesus, quero amar-Vos, quero abrasar-me toda nas chamas do Vosso amor e pedir-Vos pelos pecadores e pelas almas do Purgatório.»

Em Maio de 1930, escrevi assim nas capas de um livrinho:

«Ó minha querida Mãe do Céu, vinde apresentar ao Vosso e meu querido Jesus, nos Vossos sacrários, as minhas orações e fazer mais valiosos os meus pedidos. Ó Refùgio dos pecadores, dizei a Jesus que quero ser santa! Sim, Santìssima Virgem? Ah, dizei-Lhe também que quero muitos sofrimentos, mas que não me deixe sozinha nem um momento, porque só tenho que confundir-me, porque nada sou, nada possuo, nada valho. Dizei-Lhe que O amo muito, mas que O quero amar ainda muito mais. Quero morrer abrasada no amor de Jesus e no Vosso. Sim? Dizei-Lhe muitas coisas de mim; fazei-Lhe todos os meus pedidos. Confio, confio em Vós! Ó Maria, dai-me o Céu!»

Em 1931, escrevi no verso de um santinho isto:

«Ó minha querida Mãe, rogai a Jesus por esta filhinha tão pobre, tão pecadora. Não há outra como eu. Não mereço ser atendida. Como me tenho eu atrevido a ofender o meu querido Jesus!? Que miserável eu tenho sido por ter ofendido o meu Jesus!»

 

 

AS MINHAS ORAÇÕES E UNIÃO ìNTIMA COM JESUS SACRAMENTADO - Pela manhãzinha, principiava a fazer as minhas orações, começando pelo sinal da cruz, e logo me lembrava de Jesus Sacramentado, fazendo a comunhão espiritual e dizendo esta jaculatória: «Sagrado Coração de Jesus, este dia é para Vós.» Repetia-a por três vezes. Depois, continuava: «A Vossa bênção, Jesus! Eu quero ser santa! Ó meu Jesus, abençoai a Vossa filhinha que quer ser santa.» Dizia também: «Louvado seja Nosso Senhor... As Três Pessoas da Santìssima Trindade me abençoem, assim como S. José, Maria Santìssima e todos os Anjos, Santos e Santas do Céu! Que as bênçãos desçam sobre mim e nada terei que temer. Serei santa: são esses os meus mais ardentes desejos.» Rezava três Gloria Patri. Depois oferecia as horas do dia assim: «Ofereço-Vos, ó meu Deus, em união...», Pai-Nosso, Ave-Maria e Glória ao Pai... «Sagrado Coração de Jesus que tanto nos amais...» e o Credo.

Depois continuava: «Ó meu Jesus, eu me uno em espìrito, neste momento e desde este momento para sempre, a todas as Santas Missas que de dia e de noite se celebram na Terra. Jesus, imolai-me convosco a cada momento no altar do sacrifìcio; oferecei-me convosco ao Eterno Pai pelas mesmas intenções porque Vós mesmo Vos ofereceis.»

Voltada para a Mãezinha, dizia-lhe: «Ave Maria, cheia de graça! Eu vos saùdo, ó cheia de graça! Ó Mãezinha, eu quero ser santa! Ó Mãezinha, abençoai-me e pedi a Jesus que me abençoe!»

E consagrava-me a ela assim: «Mãezinha, eu Vos consagro os meus olhos, meus ouvidos, minha boca, meu coração; a minha alma, a minha virgindade, a minha pureza, a minha castidade; a pureza e a virgindade de .........

Aceitai, Mãezinha, é Vossa, sois Vós o cofre sagrado, o cofre bendito da nossa riqueza. Consagro-Vos o meu presente e o meu futuro, a minha vida e a minha morte, tudo quanto me deram a mim, rezaram por mim e ofereceram por mim. Ó Mãezinha, abri-me os Vossos santìssimos braços, tomai-me sobre eles, estreitai-me ao Vossos santìssimo Coração, cobri-me com o Vosso manto e aceitai-me como Vossa filha muito amada, muito querida, e consagrai-me toda a Jesus.

Fechai-me para sempre no Seu Divino Coração e dizei-lhe que O ajudais a crucificar-me, para que não fique no meu corpo nem na minha alma nada por crucificar. Ó Mãezinha, fazei-me humilde, obediente, pura, casta na alma e no corpo. Fazei-me pura, fazei-me um anjo. Transformai-me toda em amor, consumi-me toda nas chamas do amor de Jesus. Ó Mãezinha, pedi perdão a Jesus por mim! Dizei-Lhe que é o filho pródigo que volta a casa do seu bom Pai, disposto a segui-Lo, a amá-Lo, a adorá-Lo, a obedecer-Lhe e a imitá-Lo. Dizei-Lhe que não quero mais ofendê-Lo. Ó Mãezinha, obtende-me uma dor tão grande dos meus pecados, que seja tal o meu arrependimento que eu fique pura, que eu fique um anjo! Pura como fiquei depois do meu Baptismo, para que pela minha pureza mereça a compaixão de Jesus de O receber sacramentalmente todos os dias e de possuì-Lo para sempre em mim até dar o ùltimo suspiro. Mãezinha, vinde comigo para os sacrários, para todos os sacrários do mundo, para toda a parte o lugar onde Jesus habita sacramentado. Fazei-Lhe a minha humilde oferta. Oh, como Jesus ficará contente com a oferta mais pobrezinha, mais miserável, mais indigna!... Ó Mãezinha, eu quero andar de sacrário em sacrário a pedir favores a Jesus, como a abelhinha de flor em flor, a chupar-lhe o néctar! Ó Mãezinha, eu quero formar um rochedo de amor em cada lugar onde Jesus habita sacramentado, para que não haja nada que possa intrometer-se entre o amor e ir ferir o Seu Santìssimo Coração, renovar as Suas Santìssimas Chagas e toda a Sua Santa Paixão. Mãezinha, falai no meu coração e nos meus lábios, fazei mais fervorosas as minhas orações e mais valiosos os meus pedidos.

Ó meu Jesus, eu me consagro toda a Vós. Abri-me de par em par o Vosso Santìssimo Coração. Deixai que eu entre nesse Coração bendito, nessa fornalha ardente, nesse fogo abrasador. Fechai-o, meu bom Jesus, deixai-me toda dentro do Vosso Santìssimo Coração, deixai-me dar aì o meu ùltimo suspiro, embriagada no Vosso divino amor, queimada nas chamas do amor. Não me deixeis separar de Vós na terra senão para me tornar a unir a Vós no Céu, por toda a eternidade.

Jesus, vou convidar a Mãezinha! é Ela quem Vos vai falar por mim. Vou e já venho, sim, meu Jesus?

Ave Maria, cheia de graça, eu vos saùdo, cheia de graça! Mãezinha, vinde comigo para os sacrários, vinde cobrir o meu Jesus de amor. Oferecei-Lhe tudo quanto se passar em mim, tudo quanto tenho costume de oferecer, tudo quanto se possa imaginar, como actos de amor para Nosso Senhor Sacramentado.»

Dizia três vezes: «Graças e louvor se dêem a cada momento...» e fazia a comunhão espiritual já descrita. Nesta altura, dizia tudo isto que se segue a Nossa Senhora, para Ela repetir ao Seu amado Filho por mim:

«Ó Jesus, cá está a Mãezinha, escutai-a, é Ela quem Vos vai falar por mim.

Ó querida Mãezinha do Céu, ide dar beijinhos aos sacrários, beijos sem conta, abraços sem conta, mimos sem conta, carìcias sem conta, tudo para Jesus sacramentado, tudo para a Santìssima Trindade, tudo para Vós. Multiplicai-os muito, muito e dai-os de um puro e santo amor, dum amor que não possa mais amar, cheios de umas santas saudades por não poder ir eu beijar e abraçar a Jesus sacramentado e à Santìssima Trindade a Vós, minha Mãe querida. Pois não sois Vós a criatura mais amada e mais querida de Jesus? Oh! dai-os então em meu nome, com esse amor com que amais e sois amada.

Ó meu Jesus, eu quero que cada dor que sentir, cada palpitação do meu coração, cada vez que respirar, cada se-gundo das horas que passar, sejam

actos de amor para os vossos Sacrários.

Eu quero que cada movimento dos meus pés, das mi-nhas mãos, dos meus lábios, da minha lìngua, cada vez que abrir os meus olhos ou os fechar, cada lágrima, cada sorriso, cada alegria, cada tristeza, cada atribulação, cada distracção, contrariedades ou desgostos, sejam

actos de amor para os vossos Sacrários.

Eu quero que cada letra das orações que reze, ou oiça rezar, cada palavra que pronuncie ou oiça pronunciar, que leia ou oiça ler, que escreva ou veja escrever, que conte ou oiça contar, sejam

actos de amor para com os vossos Sacrários.

Eu quero que cada beijinho que Vos der nas vossas santas imagens ou da vossa e minha querida Mãezinha, nos vossos santos ou santas, sejam

actos de amor para os vossos Sacrários.

Ó Jesus, eu quero que cada gotinha de chuva que cai do céu para a terra, toda a água que o mundo encerra, ofe-recida às gotas, todas as areias do mar e tudo o que o mar contém, sejam

actos de amor para os vossos Sacrários.

Eu Vos ofereço as folhas das árvores, todos os frutos que elas possam ter, as florzinhas oferecidas pétala por pé-tala, todos os grãozinhos de sementes e cereais que possa haver no mundo, e tudo o que contêm os jardins, campos, prados e montes, ofereço tudo como

actos de amor para os vossos Sacrários.

Ó Jesus, eu Vos ofereço as penas das avezinhas, o gor-jeio das mesmas, os pêlos e as vozes de todos os animais, como

actos de amor para os vossos Sacrários.

Ó Jesus, eu Vos ofereço o dia e a noite, o calor e o frio, o vento, a neve, a lua, o luar, o sol, a escuridão, as estrelas do firmamento, o meu dormir, o meu sonhar, como

actos de amor para os vossos Sacrários.

Ó Jesus, eu Vos ofereço tudo o que o mundo encerra, todas as grande-zas, riquezas e tesouros do mundo, tudo quanto se passar em mim, tudo quanto tenho costume de oferecer-Vos, tudo quanto se possa imaginar, como

actos de amor para os vossos Sacrários.

Ó Jesus, aceitai o Céu, a terra, o mar, tudo, tudo quanto neles se encerra, como se esse «tudo» fosse meu e de tudo pudesse dispor e oferecer-Vos como

actos de amor para os vossos Sacrários.

Nestas ocasiões em que fazia estes oferecimentos a Nosso Senhor, sentia-me subir, sem saber como, e ao mesmo tempo um calor abrasador que parecia queimar-me. Como não compreendia a causa deste calor, ponha-me a observar se estava a transpirar, porque me parecia impossìvel, sendo dias de grandes frios. Sentia-me apertada interiormente, o que me deixava muito cansada.

Não tenho a certeza, mas deveria ser numa dessas ocasiões que eu senti esta exigência de Nosso Senhor: SOFRER, AMAR e REPARAR.

 

COMO JESUS ME ENVIOU O MEU DIRECTOR ESPIRITUAL - Eu não tinha nem sabia sequer o que era um director espiritual; apenas tinha o meu pároco como guia da minha alma.

Como minha irmã fizesse um retiro aberto das Filhas de Maria, tomou nessa ocasião para seu director espiritual o conferente desse retiro, o Sr. Dr. Mariano Pinho. Este, sabendo que eu estava doente, mandou pedir as minhas orações, prometendo orar por mim. De vez em quando, mandava-me um santinho. Passaram-se dois anos, e sabendo eu que ele estava doente, sem saber como, senti tanta pena que comecei a chorar; minha irmã perguntou-me porque chorava, se o não conhecia sequer. Respondi-lhe: «Choro, porque ele era meu amigo e eu também sou dele.»

Em 16 de Agosto de 1933, Sua Reverência veio à nossa freguesia fazer um trìduo ao Sagrado Coração de Jesus, tomando-o então para meu director espiritual. Não lhe falei nos oferecimentos que fazia ao sacrário, nem nos calores que sentia, nem na força que fazia elevar, nem nas palavras que tomei como uma exigência de Jesus. Pensava que era assim toda a gente. Só passados dois meses é que lhe falei nas palavras de Jesus e do resto nada disse, porque nada compreendia como coisas de Nosso Senhor. Apesar de Sua Reverência não me dizer que eram palavras de Nosso Senhor, eu continuei sempre e cada vez mais unida a Nosso Senhor. Quer de dia quer de noite eram os sacrários os meus lugares predilectos.

Em 8/9/1933, escrevi nas costas de um retrato meu assim:

«Ave Maria, eu vos saùdo, ó minha Mãe Santìssima. Ó minha querida Mãezinha, que hei-de eu dar-Vos no dia do Vosso aniversário? Não tenho mais nada que Vos dar, dou-Vos o meu corpo e a minha vida. Quero ser toda Vossa. Não rejeiteis a minha oferta, ó minha querida Mãe. Rogai a Nosso Senhor por mim, ouvistes? Quero ser toda, toda Vossa. Dou-Vos quanto tenho.

Ó meu Jesus, não rejeiteis nada do que peço à Vossa Mãe!

Sois minha Mãe muito querida. Oh, quem me dera ter uma boa oferta para Vos dar, mas ao menos tenho a boa vontade! Dai-me o Céu!»

Em Agosto de 1934, voltou a fazer outra pregação aqui e então é que abri a minha consciência. Nesta altura fui muito tentada pelo demónio, porque lembrava-me que, uma vez que expusesse a minha vida, não mais quereria ser meu director espiritual. Nessa altura Nosso Senhor disse-me:

«Obedece em tudo ao teu Padre espiritual. Não foste tu quem o escolheste, mas eu quem to enviei.» Sua Reverência apenas me perguntou a forma como ouvi estas palavras e não me disse que era nem que não era Nosso Senhor.

Passados dias, como minha irmã soubesse que demorava por muito tempo a fazer as minhas orações, perguntou-me o que é que eu dizia. Nessa ocasião, expliquei-lhe em que me ocupava durante todo aquele tempo e o que sentia nessas ocasiões, dizendo-lhe que certamente era a fé e o fervor com que fazia todas as minhas orações e ela concordou comigo. Pediu-me para que lhe dissesse tudo, para se tornar fervorosa.

 

COMO HONRAVA JESUS E A SANTìSSIMA VIRGEM - No ano de 1934: «Ó minha Mãezinha do Céu, eis aqui aos Vossos santìssimos pés uma alma que vos deseja amar. Ó minha amável Senhora, eu quero um amor que seja capaz de sofrer só por amor de Vós e por amor do meu querido Jesus! Sim, do meu Jesus que é o tudo da minha alma. Ele é a luz que me alumia, é o pão que me alimenta, é o meu caminho pelo qual eu quero seguir. Mas, minha soberana Rainha, sinto-me tão fraca para passar por tantas contrariedades da vida!... Que será de mim sem Vós ou sem o meu querido Jesus? Ó minha Mãezinha do Céu, lá do trono em que estais, vede este meu triste viver. Vinde em meu auxìlio. Abençoai-me e pedi a Jesus por mim, vossa indigna filha.»

Noutra ocasião de 1934: «Ó Jesus, que melhor companhia posso eu ter aqui neste leito de dor, se Vós estiverdes sempre em mim, que só para Vós quero viver? Ó Jesus, sabeis bem todos os meus desejos, que são: estar sempre presente nos vossos sacrários, não me esquecer deles um momento. Dai-me força, bom Jesus, para assim o fazer:

Ainda em 1934:

«Ó meu Jesus, meu Amado,

No altar sacramentado,

Por meu amor encerrado

Nesse sacrário de amor.

 

Quisera estar contigo, ó Jesus,

Dia e noite e a toda a hora,

Porém, agora não posso ir,

Bem o sabeis, ó meu bom Pai!

 

Estou presinha de pés e mãos;

Mais presa quisera estar,

Juntinha a Vós no sacrário,

Não me ausentar um só momento.

 

Ó Sacramento tão adorado

Do meu Jesus, do meu Amado,

Eu Vos saùdo aqui do leito,

Vinde morar neste meu peito!

 

Fazei, Senhor,

Dele um sacrário

Para eu poder,

Ó bom Jesus,

Ser Vossa esposa.

 

Ó meu Amado,

Realizai os meus desejos

Que são, Senhor,

Possuir-Vos em mim

Sacramentado.

 

Perdão, meu Deus, eu não sou digna de tamanha graça, de Vos receber, mas não olheis para a minha miséria, mas sim para a Vossa infinita misericórdia. Sim, meu querido Jesus?»

No dia da Anunciação, em 25 de Março de 1934: «Ave Maria, cheia de graça! Eu Vos saùdo, ó cheia de graça! Soberana Rainha do Céu e da terra, Mãe dos pecadores, eu, a mais indigna de todas as Vossas filhas, Vos agradeço de todo o coração, ó Santa Mãe de Deus, por terdes consentido que o meu amabilìssimo Jesus encarnasse em Vossas purìssimas entranhas para redenção da humanidade. Sim, minha Mãezinha, encarnar, nascer, viver trinta e três anos no mundo e por fim morrer numa cruz pelos miseráveis filhos de Eva! Entenda quem puder tantos excessos de amor, que eu por mim só tenho que confundir-me e lamentar este meu pobre coração por não ter correspondido a tanta bondade dos meus dois queridos amores, Jesus e Maria! A mais indigna das Vossas filhas.»

Em1934: «Meu Jesus, estou doente, não posso ir visitar-Vos às Vossas igrejas, mas, meu querido Paizinho do Céu, estou a cumprir a missão que Vós destinastes para mim. Seja feita a Vossa santìssima vontade em todas as coisas. Meu Bem-amado, Vós sabeis os meus desejos, que são estar na Vossa presença no Santìssimo Sacramento. Mas, já que eu não posso, mando-vos o meu coração, a minha inteligência para aprender todas as Vossas lições, o meu pensamento para que só em Vós pense, o meu amor para que só a Vós ame, só a Vós busque, só por Vós suspire, só Vós, meu Jesus, em tudo e por tudo. Vós no sacrário preso e abandonado e eu, Jesus, presa também. Mas fazei, Senhor, que eu abandone tudo o que é do mundo, buscando-Vos só a Vós em todas as coisas, que sois a luz da minha inteligência, sois as minhas delìcias, sois todo o meu bem. Oh, eu vos mando tudo quanto tenho que Vos possa agradar e fazer-Vos companhia no Vosso sacrário de amor!»

Em 1934: «Queria, ó meu Jesus, na Vossa presença estar dia e noite, a toda a hora, unida a Vós estar, e não Vos deixar, meu Jesus, sozinho na Sacramento, nem um momento me ausentar e dar-Vos o que possuo e que tudo a Vós pertence: o meu coração, o meu corpo com todos os seus sentidos. é toda a minha riqueza.»

A Nossa Senhora, em 1934: «Ó minha Mãezinha do Céu, eu tenho tanta, tanta confiança em Vós que não sei explicar-Vos o amor que Vos tenho.

Ó minha Mãe, é muito, mas queria muito mais, muito mais; só Vós me podeis alcançar essa graça e também o amor ao Vosso e meu querido Jesus. Ai, aumentai-mo muito, muito! Abrasai-me em chamas de puro amor! Sim, sim, minha boa Mãezinha!?»

 

CONHECIMENTO PERFEITO DA VOZ DE NOSSO SENHOR. VISÕES CELESTES - Foi em Setembro de 1934 que eu compreendi que era a voz de Nosso Senhor e não uma exigência, como julgava. Foi então que Ele me pediu e falou assim: «Dá-me as tuas mãos, que as quero crucificar; dá-me os teus pés, que os quero cravar comigo; dá-me a tua cabeça, que a quero coroar de espinhos como Me fizeram a Mim; dá-me o teu coração, que o quero trespassar com uma lança, como Me trespassaram a Mim; consagra-Me todo o teu corpo, oferece-te toda a Mim, que te quero possuir por completo e fazer o que Me aprouver.»

Nosso Senhor pediu-me isto duas vezes. Não sei dizer a minha aflição, pois não queria escrever e não queria dizer à minha irmã, mas também não queria ficar calada, porque compreendia que não era a vontade de Nosso Senhor. Tinha que dizer ao meu Pai espiritual. Resolvi-me a fazer o sacrifìcio, pedindo à minha irmã que escrevesse em meu nome tudo o que lhe ia ditar. Ela não olhava para mim, nem eu para ela e, depois da carta escrita, tudo morreu para nós ambas, não falando mais no assunto.

Até esse tempo, sentia uma grande alegria para mim receber uma carta do meu director espiritual. Desde então, toda essa consolação espiritual desapareceu. Temia que ele me maltratasse, dizendo-me que tudo era falso. Eu cedi ao convite de Nosso Senhor, mas pensava que esses sacrifìcios fossem só sofrimentos, embora maiores; não pensava em nada de sobrenatural. O meu director obrigou-me a que escrevesse tudo, e durante dois anos e meio não me disse que era Nosso Senhor - o que me fez sofrer bastante, apesar dos meus poucos conhecimentos.

Desde então, tinha Jesus à minha ordem, falando-me de dia e de noite. Sentia grande consolação espiritual; não me assustavam os meus sofrimentos. Em tudo sentia amor ao meu Jesus e sentia que Ele me amava, pois d'Ele recebia carìcias sem conta. Só me desejava sozinha. Oh, como me sentia em no silêncio e muito unidinha a Ele!...

Jesus desabafava muito comigo. Dizia-me coisas tristes, mas as consolações e o amor que me fazia sentir obrigavam-me a esquecer o Seus desabafos. Passava noites e noites sem descansar, a contemplar quadros que Jesus me mostrava e em conversa ìntima com Ele. Umas vezes, via Jesus como jardineiro a cuidar das florinhas, regando-as, guiando-as, etc; passeava pelo meio delas, mostrando-me variedade de flores. Noutras vezes, aparecia-me em tamanho natural, mostrando-me o Seu Divino Coração cercado de raios de amor.

Também vi a Mãezinha uma vez, representando Nossa Senhora do Carmo, com o Seu Divino Filho nos braços. Outras vezes como Nossa Senhora da Conceição. Oh, como era bela!... Só queria amá-la e a Jesus! Só me sentia bem a sós com Eles!

 

COMO MARTIRIZAVA O MEU CORPO - Tudo queria fazer por Seus amores e, para provar que Os amava, algumas vezes fazia bolinhas de cera a atava-as na ponta de um lencinho e com ele batia no meu corpo, escolhendo os lugares onde mais podia sofrer, como fossem nos joelhos e sobre os ossos, ficando com o meu corpo denegrido das pancadas.

Outras vezes atava a trança dos meus cabelos aos ferros da minha cama e puxava a cabeça com toda a força para a frente, para assim mais sofrer.

Ou então dava nós na ponta da trança, açoitando-me com ela nas costas, no peito, nos braços e em todas as partes onde a trança chegava.

Na tarde de um domingo, tinha tantas ânsias de amor divino, não cabendo em mim de ansiedades, suspirava por ficar sozinha, vendo partir todos os meus para a igreja. Como de costume, queriam fazer-me companhia, mas eu preferia ficar sozinha, pois só com Jesus é que me sentia bem. Logo que me deixaram a sós com Jesus, foi então que lhe provei quanto O amava. Peguei num alfinete que segurava as minhas medalhinhas espetando-o sobre o meu coração; mas como não visse aparecer sangue, enterrei-o ainda mais e retorci as fibras até rebentarem, surgindo sangue. Tomei a caneta e um santinho e com o meu sangue escrevi assim:

«Com o meu sangue Vos juro amar-Vos muito, meu Jesus, e seja tal o meu amor que morra abraçada à cruz! Amo-os e morro por Vós, meu querido Jesus, e nos Vossos sacrários quero habitar, ó meu Jesus. Balasar, 14/10/1934:»

Logo que acabei de escrever isto, foi tal a repugnância e aflição que senti, tentando rasgar imediatamente o santinho, mas não seu o que foi que me impediu de o fazer; não senti nenhuma consolação com esta prova que Lhe dei. Quando minha irmã regressou da igreja, eu estava numa grande inquietação; não lhe disse o que tinha feito, mas mostrei-lhe o santinho, e ela exclamou: «Ai, minha marota, o que tu fizeste! Assim que o Sr. P.e Pinho o souber...» Eu respondi-lhe: «Ai, não lho digo!» Mas contei isso e tudo o mais que tinha feito. Sua Reverência perguntou-me quem tinha dado licença, ao que respondi: «Não sabia que era preciso pedir licença.» Desde então proibiu-me de voltar a fazer coisas deste género.

 

A PRIMEIRA MISSA CELEBRADA NO MEU QUARTINHO. PRINCìPIO DA PERDA DOS NOSSOS BENS - Em 20 de Novembro de 1933, tive a graça de ter pela primeira vez o Santo Sacrifìcio da Missa no meu quarto. Principiou Nosso Senhor a aumentar-me os Seus miminhos, para também aumentar o peso da minha cruz.

Bendito seja Ele e bendita a sua graça que nunca me faltou!

Começámos agora a sofrer muito com a perda dos nossos bens. Nesse tempo, já a nada do mundo tinha apego, contudo sofria amarguradamente por ver que tudo quanto possuìamos não chegava para satisfazer as dìvidas de que a mãe era fiadora. Eu dizia que não queria ficar com o valor de um tostão, enquanto tivéssemos que pagar. Faltou-me muitas vezes o alimento que melhor poderia comer e só me alimentava daquilo que tìnhamos, mas que prejudicava o meu estado de fìsico. Sofria em silêncio e não dizia que comia dessas coisas por não ter outras melhores, e minha famìlia julgava que eu comia com gosto e assim não a desgostava pedindo-lhe aquilo que não tinha para me dar. Tudo que me ofereciam para comer cedia à minha irmã, porque nessa altura ela encontrava-se bastante doente. Eu pensava assim: já que não tenho cura, que ao menos ela possa melhorar.

A minha famìlia chegou a passar muitas privações e até, por vezes, chegaram a comer o caldo sem adubo, porque não contávamos a nossa vida a ninguém. Chorei muitas lágrimas, mas procurava sempre que não me vissem chorar. Era de noite que desabafava com o meu Jesus e com a Mãezinha. Benditas lágrimas que mais me uniram a Jesus e a Maria e mais firmaram a minha confiança n'Eles.

Esta situação durou cerca de seis anos. Procurava ser o conforto da minha famìlia. Quantas vezes ela chorava em altos gritos e eu dizia-lhes que confiassem em Nosso Senhor. Ele também tinha sido pobre e alegrava-me por Jesus nos ter assemelhado à Sua pobreza.

Cheguei a ter medo de ficar acompanhada pela mina mãe, porque ela procurava estar comigo sozinha para desabafar e, por mais que a confortasse e lhe dissesse que tivesse confiança, ela na sua dor dizia-me palavras desagradáveis. Eu pedia quase continuamente a Jesus que nos valesse e, no fim da Sagrada Comunhão, dizia a Jesus: - «Vós dissestes: pedi e recebereis; batei e abrir-se-vos-á. Eu peço e hei-de ser ouvida; bato e hei-de ser atendida. Ó Jesus, não Vos peço honras, grandezas, nem riquezas, mas peço-Vos que nos deixeis a nossa casinha, para que minha mãe e irmã tenham onde viver até ao fim da vida, para que minha irmã tenha onde colher as florinhas para compor o Vosso altar na igreja, aos sábados. Ó Jesus, todas as florinhas são para Vós. Jesus, acudi-nos, que perecemos! Levai esta notìcia longe, a quem nos possa acudir! Não Vos peço este nem aquele meio, porque não sei! Confio em Vós!»

é bem verdade, nunca é demais a confiança! Em nossa casa não havia momentos de alegria. Quantas vezes nos faltava aquilo que nos era indispensável e eu, no fundo, estava sempre alegre com a vontade de Deus. Confiava cegamente n'Ele. Escondia o mais possìvel a minha dor, procurando em tudo animar os meus. A minha prece foi ouvida. Passaram-se seis anos de aflições e de lágrimas. Jesus ouviu a nossa prece. Foi mesmo longe, muito longe que uma senhora veio dar remédio ao nosso mal, que não acabou por acanhamento meu. Não disse tudo quanto devìamos, porque Nosso Senhor assim o permitiu, para que se prolongasse por mais tempo o meu sofrimento. Deu-nos ela o bastante para não vendermos a nossa casinha. Eu chorei mais de confusão do que de contentamento ao receber tão grande graça de Nosso Senhor. Não sabia como havia de Lhe agradecer. Parecia que estava louquinha e dizia a Jesus: «Muito obrigada! Muito obrigada!»

é indizìvel a alegria que a minha mãe e irmã sentiram quando receberam a quantia que as aliviou das grandes preocupações em que viviam. é impossìvel descrevê-las, pois foram tantas e tão grandes!... Que Jesus aceitasse todas estas aflições, e bendito Ele seja por tudo. Só com Ele se podia vencer!

 

COMO HONRAVA JESUS E A SANTìSSIMA VIRGEM - Em 1935: «Coração meu, a quem amas a não ser o teu Jesus? é a riqueza do Céu, é o amor dos sacrários, o alimento das almas famintas do Seu amor, é o pastor compassivo das ovelhas desgarradas que há muito Lhe têm fugido. Procura-as por toda a parte, chama-as, não descansa enquanto as não alcança. Depôs de as ter consigo, abraça-as, acaricia-as.»

O mês de Maria, em 1935 - Desejosa de consolar a Mãezinha e por seu amor sofrer alguma coisa, pensei em escrever nuns pedacinhos de papel uns pensamentos todos os dias do mês de Maio. Em cada dia tirava um à sorte e procurava viver segundo o que estava escrito. Isto só com o fim de consolar Jesus por meio da Mãezinha. Eis o que saiu para cada dia do mês:

1 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter um amor doido a Jesus Sacramentado e para que seja amado de todos no Santìssimo Sacramento.

2 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelas intenções do meu padrinho e famìlia.

3 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelos pecadores que me estão muito recomendados.

4 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo por todos os pecadores do mundo.

5 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter um amor doido a Maria Santìssima.

6 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelos sacerdotes.

7 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelas intenções que me estão recomendadas.

8 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelo meu director espiritual.

9 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter o amor dos anjos, dos querubins e dos serafins.

10 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo sem em queixar.

11 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelo que for da vontade de Nosso Senhor.

12 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo em memória da Paixão de Nosso Senhor.

13 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pela minha mãezinha.

14 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, mortificarei o mau corpo.

15 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei só para viver para Jesus e para Maria.

16 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelo Santo Padre e pelas necessidades da Santa Igreja.

17 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei pelas Dores de Nossa Senhora.

18 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei pela minha querida Çãozinha.

19 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, entrego-Lhe o meu corpo como vìtima e renovo o meu voto de virgindade e pureza.

20 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para só pensar em Jesus e Maria.

21 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para ser muito amiga do meu Anjo da Guarda.

22 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, guardarei o silêncio.

23 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter o amor da Santìssima Trindade.

24 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei para alcançar tudo de Nosso Senhor e ser santa.

26 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, renovarei o voto de oferecer tudo pelas Almas do Purgatório.

27 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo, em primeiro lugar, pela Nossa Cruzada Eucarìstica e por outra que me foi recomendada e por todas do mundo inteiro.

28 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pela conversão e necessidade de toda a minha famìlia.

29 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo pelos pecadores que estão para mais depressa irem para a presença do Senhor.

30 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, sofrerei tudo para obter o amor de todos os santos e santas.

31 - Por amor de Maria Santìssima e de Jesus Sacramentado, não comerei sobremesa.

No primeiro de Maio, aos pés de Maria: um verdadeiro e sincero amor da minha parte para com a minha Mãe Santìssima e para com Jesus Sacramentado.

Em 1 de Maio de 1935: «Mãe de Jesus e Mãe minha, ouvi a minha oração: eu Vos consagro o meu corpo e todo o meu coração. Purificai-me, Mãe Santìssima. Enchei-me do Vosso amor. Colocai-me mesmo Vós junto a Jesus nos sacrários, para lhe servir de lâmpada enquanto o mundo durar.

Aceitai, ó Mãe do Céu, as flores que colhi durante este mês bendito; reverdecei-as e perfumai-as. Entregai-as a Jesus por mim. Abençoai-me, santificai-me, ó minha querida Mãezinha do Céu!

Em 1936, já sem forças para escrever por minha mão e querendo dar a mesma prova a Jesus e à Mãezinha do ano anterior, pedi à minha irmã para escrever os pensamentos que se seguem em bilhetinhos, para em cada ia tirar um, sofrendo e amando segundo essa intenção. Seguem os pensamentos:

1 - Por amor de Jesus e para muita consolação da Mãe do Céu, vou sofrer tudo pelos sacerdotes, para que eles sejam o que Jesus quer: cumpridores dos seus deveres e muito santos.

2 - Para consolar muito, muito a querida Mãezinha do Céu, vou sofrer neste dia para que Jesus seja amado, muito amado na Santìssima Eucaristia.

3 - Por amor de Jesus e de Maria Santìssima, sofrerei neste dia pelas intenções das pessoas que tenho costume de pedir mais em particular.

4 - Por amor de Jesus e de Maria Santìssima, sofrerei neste dia pelo bom êxito das missões, para que em breve ressoe dum cantinho ao outro do mundo a palavra de Jesus, ùnica verdade.

5 - Por amor de Jesus e de Maria Santìssima, sofrerei tudo hoje pelos pecadores que me estão recomendados.

6 - Por amor de Jesus e de Maria Santìssima, e como prova da minha gratidão para com Eles, sofrerei hoje pelo meu Pai espiritual. Devo-lhe tanto, tanto!...

7 - Por amor de Jesus e da Mãezinha do Céu, sofrerei neste dia pela paz das nações e para que Jesus as converta.

8 - Por amor de Jesus e para obsequiar a querida Mãezinha do Céu, sofrerei tudo para que Ela seja amada e querida por todos os que vivem e hão-de ao fim dos séculos, e que em breve a ela seja consagrado o mundo inteiro.

9 - Por amor de Jesus e da minha Santìssima Mãe, sofrerei hoje tudo pela minha irmãzinha da Sertã, pelas melhoras da irmã dela e por todas as suas necessidades.

10 - Por amor de Jesus e de Maria Santìssima, sofrerei tudo hoje para a canonização e beatificação de todos os santos, para que seja dada muita honra e glória a Nosso Senhor.

11 - Por amor de Jesus e de minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelo meu Pai espiritual, pela minha famìlia e pelas necessidades por que mais se interessa e lhe são mais recomendadas.

12 - Por amor de Jesus e de Maria Santìssima, sofrerei hoje tudo por toda a famìlia da Çãozinha.

13 - Por amor de Jesus e de Maria Santìssima, sofrerei tudo neste dia pela minha irmã, para que ela seja muito santa.

14 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelo Sr. Padre Manuel Araùjo, pela irmã e sobrinha.

15 - Por amor de Jesus e de Maria Santìssima, sofrerei tudo pelos sacerdotes que desprezaram a lei de Nosso Senhor, esquecendo-se do honroso nome de Seus discìpulos, para que voltem a amar Jesus e as almas.

16 - Por amor de Jesus e da Mãe Santìssima, sofrerei neste dia pela conversão dos pecadores que estão mais perto de dar contas a Nosso Senhor, para que morram em estado da Sua divina graça.

17 - Por amor de Jesus e da Mãezinha do Céu, sofrerei tudo para que não venha o bolchevismo para Portugal.

18 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei neste dia pelas pessoas que me são mais queridas, para que Nosso Senhor lhes conceda todas as graças e as faça santas.

19 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei neste dia para que seja dada muita honra e glória à santìssima Trindade e que todos conheçam o divino tesouro que trazem dentro de si.

20 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pela Çãozinha, para que seja muito santa, e pelas suas necessidades.

21 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei tudo neste dia pela conversão dos pecadores do mundo inteiro. Tanto, que não queria que fossem mais alminhas para o inferno!...

22 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelas necessidades do meu padrinho e famìlia, para que nosso Senhor os ajude.

23 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei tudo hoje para ser mais humilde, mais obediente, mais pura, toda abrasada no amor do querido Paizinho e da querida Mãezinha do Céu.

24 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo para obter de Nosso Senhor a graça de chegar ao maior grau de santidade.

25 - Por amor de Jesus e para agradar muito à querida Mãezinha do Céu, quero hoje orar e sofrer muito pelo Santo Padre. é o pai espiritual do mundo inteiro, é luz e guia de todas as almas, precisa do nosso auxìlio.

26 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelo bom resultado da «Acção Católica» e da nossa «Cruzada».

27 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelo bom resultado da Acção Católica e da Cruzada Eucarìstica do mundo inteiro. Que todos fossem santos, é o meu desejo.

28 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo por toda a minha famìlia.

29 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo pelas necessidades da minha mãe, para que ela seja muito santa.

30 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei tudo neste pelo triunfo da Santa Igreja.

31 - Por amor de Jesus e da minha Mãezinha do Céu, sofrerei hoje tudo para me converter deveras a Nosso Senhor, cumprindo em tudo a Sua santìssima vontade, sendo o que Ele quer que eu seja.

Em 31 de Maio de 1936 escrevi assim:

Mãezinha, eu venho humildemente aos vossos pés depor as flores espirituais que durante o mês colhi. Estou envergonhada e confundida. Que pobreza! Em que estado Vo-las entrego! Estão tão murchas, tão desfolhadas! Mas Vós, ó querida Mãezinha celestial, podeis transformá-las. Reverdecei-as, abrilhantai-as e ide consolar e perfumar com elas a Jesus por mim. Falai-lhe das minhas penas e das minhas aflições. Bem sabeis tudo o que me faz estar atribulada. Fazei-Lhe comigo de novo todos os meus pedidos e despachai Vós, em nome de Jesus, Vo-lo peço, as pobres flores por quem foram oferecidas. Fazei de um modo particular que com todas elas eu faça um belo ramalhete para oferecer ao Santo Padre, neste dia do seu aniversário.

Querida Mãezinha, neste ùltimo dia do Vosso bendito mês, como despedida, já que nada mais tenho para Vos dar, dou-Vos todo o meu corpo e Vos peço, por quem sois, que mo guardeis e me tomeis para sempre nos Vossos santìssimos braços, como Vossa filha muito querida. Abençoai-me, pedi a Jesus Sacramentado que me abençoe também e toda a Santìssima Trindade.

Adeus, Mãezinha, perdoai-me tudo.

A pobre Alexandrina Maria da Costa (a assinatura é da própria Alexandrina).

 

AS MINHAS ORAÇÕES E UNIÃO COM JESUS SACRAMENTADO - Ó meu querido Jesus, eu me uno em espìrito, neste momento e desde este momento para sempre, a todas as santas Hóstias da terra, em cada lugar onde habitais sacramentado. Aì quero passar todos os momentos da minha vida, constantemente, de dia e de noite, alegre ou triste, só ou acompanhada, sempre a consolar-Vos, a amar-Vos, a louvar-Vos e a glorificar-Vos. Ó Meu Jesus, eu queria tantos actos de amor meus, constantemente a cair sobre Vós, de dia e de noite, como a chuva miudinha cai do céu para a terra num dia de inverno. Não queria só meus, mas de todos os corações de todas as criaturas do mundo inteiro!... Oh, como eu Vos queria amar e ver amado por todos!... Vede, Jesus, os meus desejos, aceitai-mos já, como se eu Vos amasse. Ó Jesus, nem um só sacrário fique no mundo, nem um só lugar onde habiteis sacramentado, sem que hoje, e desde hoje para sempre, em cada momento da minha vida, eu esteja lá sempre a dizer:

«Jesus, eu amo-Vos! Jesus, eu sou toda Vossa! Sou a Vossa vìtima, a vìtima da Eucaristia, a lampadazinha das Vossas prisões de amor, a sentinela dos Vossos sacrários! Ó Jesus, eu quero ser vìtima dos sacerdotes, a vìtima dos pecadores, a vìtima do Vosso amor, da minha famìlia, da Vossa Santìssima Paixão, das Dores da Mãezinha, do Vosso Coração, da Vossa santa Vontade, a vìtima do mundo inteiro!... Vìtima da paz, vìtima da consagração do mundo à Mãezinha!»

 

MORTE APARENTE - Em 1935, Nosso Senhor preveniu-me de que iria morrer antes da festa da Santìssima Trindade de 1936. Como não conhecia outra morte, pensava que era deixar este mundo e partir para a eternidade. Nesse tempo, tudo eram mimos, consolações e alegrias espirituais. à medida que se ia aproximando o dia da Santìssima Trindade, aumentava a minha alegria e contentamento. Ia passar no Céu a festa dos meus tão queridos Amores, como lhes chamava: Pai, Filho e Espìrito Santo.

Os males do corpo iam aumentando e tudo dava sinal da minha partida. Dois dias antes, Nosso Senhor disse-me que morreria das 3h às 3,5 da manhã e que mandasse vir o meu Pai espiritual. Assim o fiz. Ele chegou ao cair da tarde e passou a noite junto de mim. Preparei-me para morrer. Sua Reverência fez comigo um acto de inteira resignação e conformidade com a vontade de Deus. Pedi perdão à minha famìlia, a cantar de alegria, assim:

 

Feliz, oh, feliz

Se eu tal conseguia,

Morrer a cantar

O nome de Maria!

 

Feliz quem mil vezes,

Na longa agonia,

Com amor repete

O nome de Maria.

 

A aflição ia aumentando, à hora marcada por Nosso Senhor, não sei o que senti, deixando de ouvir o que se passava à volta de mim. O meu Pai espiritual e a minha famìlia rezaram o ofìcio da agonia, acenderam uma vela benzida, meteram-ma nas mãos, mas eu já não dei por isso, e assim estive algum tempo.

Julgavam-me já quase morta e choravam por mim. Nessa altura, já ouvi os choros dos meus; principiei a respirar e, pouco a pouco, reanimei-me, mas, ainda debaixo do mesmo estado, pensei: Estais a chorar e eu sempre morro. Estava sempre a ver quando aparecia na presença de Nosso Senhor. Não tinha pena por deixar o mundo e os meus queridos. Quando via que ia melhorar e que não se cumpriam as palavras de Jesus, caiu sobe mim uma tristeza que não se pode calcular e um peso esmagador.

Eram horas do meu Director espiritual se retirar, não tendo tempo para me dizer umas palavrinhas de conforto. Passei a festa da Santìssima Trindade como uma moribunda e dentro de mim tudo era morte. As lágrimas corriam-me, as dùvidas eram quase insuportáveis, porque não só me tinha enganado no que dizia respeito a este dia, isto é, à morte, como também em tudo quanto Nosso Senhor me tinha dito antes deste dia. Nos dois primeiros dias a seguir, parecia-me que todo o mundo estava morto. Não havia sol, nem lua, nem dia para mim. Era quase insuportável o meu viver. Aproximavam-se de mim a Deolinda e a Çãozinha, ùnicas pessoas que sabiam do caso, e diziam: «Não falas para nós? Não te ris?» Eu respondia-lhes: «Retirai-vos de mim!" Já não sou a mesma! Jamais me vereis rir; não haverá sol que me alumie!» - e chorava. Debaixo da maior dor e amargura, falava-lhes de tal forma que elas não tinham mais que me dizer.

Estavam as duas a combinar em ir uma delas ter com o meu Director espiritual, quando de repente apareceu o Sr. Dr. Oliveira Dias, que vinha em nome do meu Pai espiritual confortar a minha alma. Sua Reverência tinha-lhe contado tudo e, como não pudesse vir pessoalmente, pois estava em pregação, compreendendo bem o meu sofrimento, tratou de nos aliviar.

Sua Reverência, o Sr. Dr. Oliveira Dias, esclareceu-me o caso, contando-nos várias passagens que se tinham dado com alguns santos e desde então fiquei a saber que se tratava da morte mìstica, da qual nunca tinha ouvido falar. O Sr. Dr. Oliveira Dias pareceu-me um anjo que veio do Céu serenar a tempestade da minha alma. Continuei a viver muito atribulada, pois Jesus pareceu morrer também, ficando alguns meses sem ouvir a Sua divina voz. Quando aumentava a agonia da alma, recordava os casos que me tinham sido contados e animava-me com o que dizia o meu Pai espiritual.

 

UMA VISÃO - Pelos fins do ano de 1936, numa noite, apresentou-se diante de mim, a pequena distância, um prado muito viçoso e florido. As flores eram açucenas. E tantas que eram!... E tão perfeitas!... Por entre ela pastava um grande rebanho de ovelhinhas, sendo impossìvel contá-las. O pastor era Jesus, em tamanho natural, muito belo e com um cajado na mão. Aproximei-me desse prado e, quando ia entrar nele, tudo se transformou num caminho árido e seco. Caminhei por uma encosta difìcil de subir. Ao cimo do monte, havia um caminho bastante assustador, porque tudo eram silvas e espinhos. Ao meu lado esquerdo, ouvia gemidos de ovelhinhas. Queria aproximar-me delas para ver a causa dos seus gemidos, mas uma enorme ribanceira, escura, profunda, impedia-me de ver as ovelhinhas e a causa dos seus sofrimentos. Sentia que sofriam muito.

Continuei a caminhar por aquele caminho e, mais acima, ao lado direito, ouvia a mesma coisa. Nessa altura, vi a causa de tão grande sofrimento: estava uma ovelhinha, de lã branca, mas muito suja e presa pela lã a enormes espinhos, caìda sobre eles. à primeira impressão, entendi que aqueles gemidos não podiam ser de saudades pela sua mãe, porque a ovelhinha já era grandinha. Ao ver o estado dela, tive tanta pena que me aproximei e, com todo o amor e carinho, fui vagarosamente depreendendo-a dos espinhos. Depois de a soltar, desapareceu da visão.

Isto nunca mais me esqueceu e conto-o com a maior facilidade, porque ficou-me bem gravado na minha memória e na minha alma.

 

UMA GRANDE CRISE, SINTOMAS DE MORTE - Em fins de Abril de 1937, passei por uma grande crise que me levou às portas da morte. Principiei a vomitar de dia e de noite, nada conservando no estômago. Nos primeiros dias, fiquei em profunda prostração. Não conhecia as pessoas, não tinha fome, nem sede. O Sr. Abade leu-me as orações da agonia por três vezes. Não me lembro senão de uma vez de poucas palavras. Ouvia gritos, mas não pensava que morria, porque o meu estado fìsico assim o permitia.

Havia talvez um ano que recebia diariamente Nosso Senhor, pois até aì recebia-O raras vezes no mês, o que me fazia sofrer muito e sentir muitas saudades de Jesus. Não sei o que foi, mas talvez um milagre, que levou o Sr. Abade a trazer-me Nosso Senhor todos os dias. Eu pedia a Jesus esta graça e tinha quem a pedisse muito por mim. Foi uma das minhas maiores alegrias alimentar-me do Pão dos Anjos todas as manhãs.

Neste perìodo da minha doença - não sei se de manhã se de tarde - vi entrar no quarto o Sr. Abade e, conhecendo-o, disse-lhe: «Eu quero receber Nosso Senhor.» Ele respondeu-me: «Sim, minha menina, vou buscar-te uma hóstia por consagrar e, se a não vomitares, trago-te Nosso Senhor.» Assim o fez. Logo que engoli a hóstia por consagrar, imediatamente a vomitei. Sua Reverência estava para desistir em me trazer Nosso Senhor, e alguém disse: «Sr. Abade, uma hóstia por consagrar não é Jesus.» Foi então que se resolveu a ir buscar uma consagrada. Recebi-a e não vomitei. Nunca mais deixei de receber Jesus Sacramentado por causa desses vómitos. Quantas vezes entrava o Senhor Abade no meu quarto para me dar Nosso Senhor, e eu a vomitar! Logo que recebia Jesus, cessavam os vómitos, nunca vomitando antes de passar meia hora. Como era assim, o Senhor Abade nunca temeu em me dar a comunhão. A crise durou bastante tempo, mas, durante dezassete dias, estive sem tomar nada, absolutamente nada. A minha medicina foi Jesus.

Eu dizia: «Morro à fome e à sede», pois sentia uma sede abrasadora e uma necessidade de comer muito grande. A minha maior pena depois que me senti melhorzinha era lembrando-me que, se tivesse morrido durante aquela crise, não teria tido perfeito conhecimento da morte.

 

A PROTECÇÃO DESVELADA DE JESUS E DA MÃEZINHA - Durante o mês de Maio, ficava sozinha e, para fazer as minhas rezas, acendia umas velinhas com um acendedor. Uma vez aconteceu de cair um morrão e incendiar a vela, fazendo grande labareda, podendo incendiar as toalhas do altarzinho ou estalar a redoma. Quis apagar com um apagador que tinha junto de mim, mas nada consegui; quando estava para deitar o castiçal ao chão, tudo se apagou. Não quero pensar na aflição que senti por não poder levantar-me e pôr termo a uma pequena coisa que podia ser a causa da ruìna da nossa casa.

Um dia em que houve necessidade de focar sozinha por algum tempo, sofri um grande susto. Veio junto de mim ma vizinha saber se eu precisava de alguma coisa. Ao retirar-se, deixou a aporta da varanda aberta e, pouco depois, entrava pela nossa casa uma cabrinha que tìnhamos e encaminhava-se para a sala onde tìnhamos os vasos de begónias e avencas muito floridos e viçosos. Com eles adornavam-se os altares da nossa igreja por ocasião das festas. Ao vê-la dirigir-se para lá, chamei-a, e ela, olhando para mim, não fez caso. Atirei-lhe uns bocadinhos de maçã, mas não os comeu. Fui-lhe mostrando a maçã e chamando por ela até que se aproximou de mim. Agarrei-a e dei-lhe a maçã e fui sustentando nela duas horas, ora fazendo-lhe mimos, ora dando-lhe sapatadas. Quando minha irmã chegou, ficou admirada como, na minha cama, pude segurar o animal tanto tempo. Atribuo isto a um milagre, pois a porta da sala estava aberta e, se a cabrinha não (sic) comesse, estragaria tudo. Quanto devo a Jesus! Estava presa no leito, mas Ele poupou-me este desgosto.

Pouco tempo depois, sofri outro, mais doloroso. Minha irmã estava apara fora da terra e minha mãe fora ao mercado da terra e eu fiquei com uma pequena, à ordem da minha mãe, para me servir, até que esta chegasse da feira. A pequena, apesar de ter mais de vinte anos, entendeu que devia ausentar-se antes de minha mãe chegar e assim o fez. Quando ela saiu, falei-lhe assim: «Querendo ir, vai, que elas encontrar-me-ão aqui viva ou morta.»

Logo que ela saiu, vieram para junto de mim uns gatinhos fazerem-me festa, levantando as patinhas no ar para lhe dar a minha mão e puseram-se em cima da minha cama. Mas, como os não quisesse ali, sacudi-os e foram para o chão. Mementos depois, senti que um deles caiu à água e morreu afogado. Ouvi-o lutar com a morte na água e miava muito. A mãe dele miava também. E eu, que não tinha coragem para ouvir tudo aquilo, principiei a chorar e dizia: «Ó Mãezinha, permiti que venha aqui alguém para lhes acudir. Valei-me, Jesus, Santa Teresinha e vários santos!» Também dizia: «Coitadinho de quem está presinho!»

Por acaso, vieram duas pessoas e, ao ouvirem os meus soluços, entraram no meu quarto e ficaram pesarosas ao verem a minha aflição. O gatinho estava morto. Não me impacientei. Chorava com pena dos animaizinhos, mas não ofendi Jesus. Este caso foi origem de grandes aflições morais, porque minha mãe e minha irmã não levaram a bem o procedimento da pequena. Tudo lhe perdoaram, e eu perdoei também.

Como gostava de ficar sozinha - e principalmente aos domingos, quando havia adoração ao Santìssimo sacramento - dizia a todos os meus que fossem e que me deixassem a sós com Jesus. Pouco depois de todos saìrem, pus-me a orar e ouvi alguém abrir a porta da rua, subir as escadinhas, mas, já falando muito alto, dizia: «Abre-me a porta.» Pela voz conheci a pessoa. Fiquei muito assustada. Ai, que seria de mim se ele conseguisse entrar! Apertei nas minhas mãos o meu tercinho com toda a confiança, enquanto a pessoa continuava a empurrar a porta com toda a força. Pensava na forma como havia de falar e, assustada, nem sequer podia respirar. Como não conseguiu abrir a porta, retirou-se, deixando-me em paz. Fiquei tão cheia de medo que não mais tornei a ficar sozinha, a não ser que me fechassem à chave.

Atribuì esta graça a Jesus e à Mãezinha, que me livraram daquela má companhia, pois antes me queria ver acompanhada pelos demónios do inferno.

 

PRIMEIRO EXAME DA SANTA Sé[iv] - Em 1 de Maio de 1937, recebi a vista de Rev.mo o Padre Durão. Vinha mandado da Santa Sé para examinar o caso da consagração do Mundo a Nossa Senhora. O meu desejo era viver ocultamente, sem que ninguém soubesse o que se passou. Sua Reverência entregou à minha irmã um cartão do meu Director espiritual e disse-lhe que mo lesse. Ao ouvir as palavras do cartão que eram assim «Vai aì o Sr. Padre Durão; fale-lhe à vontade e responda-lhe a tudo o que lhe perguntar», fiquei admirada e disse para a minha irmã: «Que hei-de eu dizer-lhe?» Não sabia que era preciso estes exames para casos destes. Minha irmã animou-me e disse-me: «Dirás o que Nosso Senhor te inspirar.»

Fiquei surpreendida quando me fez perguntas das coisas de Nosso Senhor, mas, sem a mais pequena hesitação, comecei a responder às suas perguntas. Sua Reverência disse-me que só queria que lhe dissesse o principal, pois não me queria cansar, visto ser grave o meu estado. Respondi-lhe que não sabia que era o principal. Sua Reverência disse-me: «Gosto disso, gosto disso.» E foi quando me falou da consagração do mundo a Nossa Senhora. Depois de me fazer várias perguntas, com muito bom modo, disse-me: «Não se enganará?» Ao ouvir estas palavras, passou-me pela mente o engano da minha morte e pensei assim: «Isto é contra mim, vou já dizê-lo.» Então respondi: «Enganei...» E contei-lhe o que se tinha passado na Festa da Santìssima Trindade de 1936. Sua Reverência não mais me disse se estaria enganada, e falou assim: «Estas coisas custam muito, não custam?» Respondi: «Custam e fico triste.» E comecei a chorar. Sua Reverência pediu-me para o não esquecer nas minhas orações e prometeu-me nunca me esquecer no Santo Sacrifìcio da Missa.

Ajoelhou-se, rezou três Ave-Marias a Nossa Senhora e algumas jaculatórias. Despediu-se de mim e retirou-se. Chorei muito e fiquei muito atribulada e triste por se saber o que há tanto tempo de passava ocultamente. Escrevi logo ao meu Director espiritual, contando-lhe tudo. Sua Reverência respondeu-me imediatamente sossegando-me e dizendo que era tudo para glória de Nosso Senhor.

 

PERìODO EM QUE O DEMÓNIO MAIS ME APOQUENTOU - Se a vida material melhorou nesta altura, redobraram os assaltos do demónio que há meses me vinha ameaçando. Foi em Julho de 1937 que o «manquinho», não satisfeito de me atormentar a consciência e de me dizer coisas demasiadamente feias, principiou a atirar-me abaixo da cama e de noite e a qualquer hora do dia.

A princìpio, até para as pessoas da casa fui encobrindo, menos para a minha irmã, passando por ser aflições do coração. A pouco e pouco, o mal foi aumentando e teve que o saber minha mãe e uma pessoa que vivia connosco. Quem observava os tombos que eu dava abaixo da cama mostravam-se muito pesarosos, não supondo nada do que se tratava. Passavam-se os dias e o mal aumentava sempre. Uma noite atirou-me para o chão, passando por cima da cama de minha irmã, que ficava junto de mim. Ela levantou-se, pegando em mim ao colo, e dizia: «Anda para a tua caminha.» Mal ela me deitou, levantei-me rapidamente e dei uns assobios. Reconhecendo imediatamente o mal que tinha feito, principiei a chorar e disse para minha irmã: «Ai, o que eu fiz!» Ela sossegou-me, dizendo: «Não te aflijas, que não foste tu.» Na noite seguinte, voltou a acontecer o mesmo, e disse-lhe em voz alta: «Não me deito» - afastando-a de mim. Quando reconhecia que fazia mal, chorava.

Uma note em que passei com o mafarrico as coisas piores que se podiam imaginar, o que tudo desconhecia e ignorava, chorava amargamente e pensava não receber o meu Jesus sem me confessar. Nesse dia, o Sr. Abade não estava na freguesia para vir trazer Nosso Senhor, mas pensava quanto me custaria ter de dizer que não comungava sem me reconciliar, com receio que o Sr. Abade me perguntasse a causa, e ter de lhe dizer tudo, tudo, e não querer abrir-me com ele. Minha irmã, ao ver as minhas lágrimas, procurava consolar-me por todas as formas. Como não conseguisse, disse-me que à tarde iria falar com o meu Director espiritual que se encontrava a fazer uma pregação numa freguesia vizinha da nossa. Disse-lhe que nada adiantava, pois não lhe diria a ele o que se tinha passado. Pedi-lhe um postal de Nossa Senhora e, com grande sacrifìcio, descrevi por maior o sucedido, guardando-o debaixo do travesseiro até que chegasse a hora de o ir entregar. De repente, entrou no meu quarto o meu Director, acompanhado por um seminarista, trazendo-me Jesus-Hóstia para eu receber. Como soubesse que estava para banhos o nosso pároco, teve a boa lembrança de me vir trazer Jesus. Quando Sua Reverência me disse que trazia Nosso Senhor para receber, respondi-lhe: «Não posso comungar sem me confessar.»

As lágrimas e a vergonha não me deixavam falar. Com muito custo disse que tinha escrito um postal e que o guardava sob o travesseiro. O meu Director tomou-o, leu-o e tudo compreendeu, sossegando-me e dizendo-me que tudo previa em face de tudo quanto se tinha passado, mas não me tinha prevenido de nada.

Foi tremenda esta tribulação, que se repetiu por várias vezes. Tinha ataques muito furiosos duas vezes por dia, pelas nove ou dez horas da noite e depois do meio-dia, durante cerca de uma hora ou mais. Durante os ataques, sentia em mim toda a raiva e furor do inferno. Não podia consentir que me falassem de Nosso Senhor e na Mãezinha, nem podia ver as Suas imagens, cuspindo-as e calcando-as aos pés. Também não podia consentir junto de mim o meu Director; chamava-lhe nomes, queria espancá-lo e tinha-lhe uma raiva de morte, assim como a algumas pessoas da casa. Ficava com o meu corpo denegrecido com as pancadas e a escorrer sangue com as mordeduras. Também dizia palavras muito feias para quem estava junto de mim. Hoje gostava que muita gente presenciasse só para temerem o inferno e não ofenderem a Jesus.

Depois que passava a influência do demónio e recordava o que tinha feito e dito, sentia horrorosos escrùpulos; parecia-me ser a maior criminosa. Foram meses de doloroso martìrio. Muito mais tinha que dizer sobre este assunto, mas não posso. A minha alma não resiste ao relembrar tais sofrimentos.

 

JESUS MOSTRANDO-ME AS SUAS DIVINAS CHAGAS - Uma noite, apareceu-me Jesus em tamanho natural, despido, apenas com uma faixa à cinta e nas suas divinas mãos, pés e lado, estavam abertas profundas chagas. O sangue escorria em abundância. Da chaga do lado escorria até à cintura, atravessando a faixa, indo cair ao chão. Jesus sentou-se ao meu lado, ficando com as pernas ao dependuro. Beijei com muito amor as chagas das mãos e ansiava por beijar as dos pés. Como estava deitada, não lhes chegava, e nada disse a Jesus. Mas Ele, que conheceu os meus desejos, com as Suas mãos tomou um pé, levantou-o e deu-mo a beijar; depois o outro, deixando-os cair para a mesma posição. Depois, contemplei a chaga do lado e todo o sangue que dela corria. Muito compadecida, atirei-me para os braços de Jesus e disse-Lhe: «Ó meu Jesus, quanto sofreste por meu amor!» Fiquei um poucochinho encostada ao peito de Jesus e depois desapareceu-me Nosso Senhor.

Escusado será dizer que jamais se apagará da minha mente tudo isto e recordarei sempre, como sempre me estivesse presente. Sinto o meu coração ferido ao recordar este quadro. Só por obediência e amor a Jesus falo nisto. Penso que a apresentação de Nosso Senhor neste estado seria a prepara-me para o que agora vou descrever. Que Ele me dê forças e a Sua graça para o poder fazer.

Em 23 de Julho de 1938, escrevia: «Jesus é a minha força, é o meu amor, é o meu esposo. Deixai, meu Jesus, que eu, a Vossa a louquinha de amor, Vos diga, não com os lábios mas com o coração: só a Vós pertenço.

Não tenho nada, nada que não seja de Jesus.

é bem duro falar assim, quando se sente o contrário! Nas horas mais amargas da minha vida, nos dias de tanta luta, em que o demónio me diz o contrário, só o contrário.

Maldito! Não te pertenço! Tu és só digno de desprezo! és a mentira!

Jesus é todo meu e eu sou toda de Jesus. Coação meu, grita alto, muito alto ao teu Jesus, que O amas! Sim? Que O amas mais que todas as coisas da terra e do Céu!!!

Sou de Jesus na alegria, sou de Jesus na tristeza, sou de Jesus nas trevas, nas horrìveis tribulações, na pobreza, no abandono total.

Por Jesus sofro tudo para O contemplar, para salvar as almas.

Enviai, Jesus à Vossa Alexandrina, à Vossa vìtima, tudo quanto se possa imaginar, tudo o que houver e que se possa chamar sofrimento. Com Vós, Jesus, com o Vosso divino auxìlio e o da Vossa e minha querida Mãezinha, tudo venço. Nada temo.

Eu beijo-te, eu abraço-te, ó Cruz bendita do meu Jesus!!!»

 

O MEU RETIRO ESPIRITUAL - Sempre que ouvia falar em pessoas que iam fazer um retiro, eu dizia: «Todos o fazem, só eu não! Eu não sei o que é um retiro.»

Cheguei a dizer isto várias vezes na presença do meu Director espiritual. Este prometeu-me pedir licença ao Sr. Padre Provincial e, uma vez que ele o autorizasse, viria aqui fazer-me um. Por altos desìgnios de Deus, a licença foi concedida e, em 30 de Setembro de 1938, veio o meu Padre espiritual principiá-lo.

Já há tempos que sentia grandes agonias na minha há alma e por vezes prestes a cair em assustadores abismos. Nestes dias redobraram os meus sofrimentos. Os abismos eram aterradores. A justiça do Pai Eterno caìa sobre mim e Ele bradava-me repetidas vezes: «Vingança, vingança, etc.» Aumentavam os meus sofrimentos da alma e do corpo. é impossìvel descrevê-los, só sentidos e presenciados. Passava os dias e as noites rolando pela cama, a ouvir a voz assustadora do Eterno Pai.

Na manhã de 2 de Outubro de 1938, disse-me Nosso Senhor que iria passar por toda a Paixão, do Horto ao Calvário, só não chegaria ao «Consummatum est». Seria a primeira vez no dia 3 e depois ficaria a passar pela Paixão todas as sextas-feiras, pouco depois do meio-dia, às 3 horas, mas na primeira vez ficaria até às 6 horas, a desabafar comigo, fazendo-me os Seus queixumes.

Não disse que não a Nosso Senhor. Preveni o meu Director espiritual de tudo que Nosso Senhor me disse. Esperava o dia e a hora com grande aflição, pois nem eu nem o meu Director fazìamos ideia do que se ia passar. Na noite de 2 para 3 de Outubro, se era grande a agonia da alma, também foi grande o sofrimento do meu corpo, começando a vomitar sangue e a sentir dores horrìveis. Vomitei bastantes dias seguidos e, durante cinco dias, não tomei alimento algum. Foi neste sofrimento que eu fui para a primeira crucifixão. Que horror eu sentia em mim! Que medo e até pavor!... é indizìvel a minha aflição.

 

PRIMEIRA CRUCIFIXÃO - Depois do meio-dia, veio Nosso Senhor convidar-me assim: «Olha, minha filha, o Horto está pronto e o Gólgota também, aceitas?»

Senti que Nosso senhor me acompanhou por algum tempo no caminho do Calvário, depois senti-me sozinha, vendo-O a Ele lá no alto, em tamanho natural, pregado na cruz. Percorri todo o caminho do Calvário sem O perder de vista... era junto d'Ele que eu tinha de ir parar.

Vi por duas vezes Santa Teresinha. Na primeira vez, via vestida de freira, entre duas irmãs, à porta do Carmelo. Na segunda, vi-a cercada de rosas e envolvida num manto celestial.

 

Nota - Dado que a Alexandrina nunca se dispôs a descrever a Paixão, transcrevemos a carta seguinte, em que descreve ao seu Director espiritual os sentimentos da sua alma durante as horas que precediam a Paixão.

 

 

Balasar, 7/4/1939.

 

«Busco um bocadinho de alìvio para o meu sofrer. Espero a hora da minha crucifixão. Nem posso falar. O coração está em marcha acelerada. é uma revolta, é uma barafunda na minha alma. O peso esmaga-me. Trevas, noite medonha e triste; estou num abandono tremendo. Figura-se-me que ando no meio de todo o ódio, de tribunal em tribunal. Pobre de mim! E não recebi Jesus! Mas confio que Ele suprirá a falta nas Comunhões espirituais, apesar do nojo que tenho de mim mesmo e horror à minha enorme miséria.

Ontem a temperatura acalmou. Que horror eu sentia! O meu corpo era-me trespassado todo, de um lado ao outro, com agudos ferros. Que momentos tão terrìveis! Apesar do bocadinho de alìvio, fiquei sempre numa noite escurìssima, numa tristeza profunda. A noite, passei-a, posso dizê-lo, quase que toda a fazer companhia a Nosso Senhor Sacramentado e concentrava-me um pouquinho em toda a tragédia da noite. Parecia que Jesus me convidava ao Horto. Que movimento de gente! Mas tudo isto era sentido na minha alma.

Ai, meu padre, parece que tudo isto que estou a dizer-lhe é mentira! Ai, tantas dùvidas!... Ai, ai os medos de toda a Paixão! Já disse à Deolinda: do modo que sinto o coração, é preciso um milagre para eu resistir. Jesus seja comigo! Não digo mais nada, que não posso.»

 

Aqui, interrompeu a carta, porque logo se seguiu a Paixão. Sua irmã Deolinda assim no-la descreve:

«Ai, meu padre, o que foi o dia de sexta-feira santa! é bem sexta-feira da Paixão! Antes de principiar, oh, como se via nela cara de aflição! Ela temia passar este dia! E dizia-me: Ai, se eu vejo este dia passado!... Eu confortava-a quanto podia e acariciava-a; apesar de eu também estar cheia de medo e muito aflita.

Durante a Paixão, eu não podia passar sem chorar e vi correr lágrimas pelas faces de quase todos os assistentes. Que espectáculo tão comovedor! A agonia no Horto foi muito demorada e aflitiva... Ouviam-se gemidos muito profundos e por vezes via-se soluçar. Mas a flagelação e a coroação de espinhos é que foi! Os açoites forma tomados de joelhos, com as mãos ( como que) atadas. Eu cheguei-lhe uma almofada para debaixo  dos joelhos e ela retirou-se dela, não quis. Tem os joelhos em mìsero estado. Os açoites não tinham conta! Levaram tanto tempo! Ela desfalecia tanto! Os golpes na cabeça (com a cana na coroa de espinhos) foram inumeráveis. Vomitou por duas vezes durante a Paixão: era água, porque mais nada tinha que vomitar. O suor era tanto que os cabelos estavam empastados e, ao passar-lhe a mão por cima de toda a roupa, ficava molhada. Quando acabou a coroação de espinhos, ela parecia um perfeito cadáver.

O Sr. Cónego Borlido veio assistir com mais duas pessoas. Também veio o Sr. Dr. Almiro de Vasconcelos com a esposa e a irmã D. Judite.»

 

Continua a Alexandrina:

Durante alguns dias foi doloroso todo o meu sofrimento. Continuaram os vómitos de sangue e uma sede abrasadora, que não havia água que me saciasse. Eu não podia beber, mas passava dias e noites seguidas com a água a corre pela boca, não podendo engolir nenhuma. Cheguei a cansar-me e a cansar as pessoas que me tratavam. Depois de passar muita e muita água pela minha boca ainda exclamava: «Dai-me água, muita água, pipas de água!» Parecia-me que estava a arder, nada havia que me saciasse.

Sentia uns cheiros horrorosos; não queria que as pessoas se aproximassem de mim, porque todas e tudo me cheirava a cães mortos. Davam-me violetas e perfumes a cheirar, mas tudo repelia, porque era sempre o mesmo mau cheiro que me atormentava.

Não passei sem sentir mau paladar nos dias em que me alimentava e, desde que comia, de tudo tinha nojos, porque tudo me sabia aos maus cheiros que tinha.

Quanto não teria eu que dizer sobe isto, se pudesse descrever tudo quanto sinto! Falta-me a coragem, pois custa-me tanto lembrar estas coisas!...

 

DùVIDAS E RECEIOS DE ENGANAR. EXAMES DOS MéDICOS E TEÓLOGOS - Assim como iam aumentando as graças e favores para comigo, assim cresciam também as dùvidas e receios de me enganar e enganar o meu Director espiritual, bem como todos os que conviviam comigo. Crescia o meu martìrio, momento para momento. Tudo me aprecia falso e inventado só por mim. Meu Deus, que dor para o meu coração! As trevas caìam sobre mim; não havia luz que me mostrasse o caminho. Por mais que o meu Director me infundisse confiança, não havia quem me confortasse. Contudo, entreguei-me nos braços de Jesus, confiada a não ser arrastada pela corrente.

Sofria por ver as lágrimas em todos os que me rodeavam e pensava: Meu Deus, se falta a coragem a eles, como não há-de faltar-me a mim?

Que grande humilhação ter de ser observada! Ah, se eu pudesse sofrer sozinha, sem que pessoa alguma me visse!... Bastava que Jesus soubesse quanto por Ele sofria.

Logo na segunda crucifixão, principiaram os exames feitos por uns Padres da Companhia de Jesus. Que vergonha eu sentia! Não nas horas da crucifixão, mas antes e depois!...

Principiei a sentir que o meu Director espiritual sofria muito no ìntimo, por minha causa, isto é, por tudo o que se passava.

Sucederam-se a estes os dos médicos, que foram bem dolorosos, deixando o meu corpo em mìsero estado. Parecia-me que andava a ser julgada de tribunal em tribunal, como se tivesse praticado os maiores crimes. Quanto me custava vê-los entrar no meu quarto e, depois de me examinarem e observarem, vê-los reunir-se numa sala para discutirem e minha causa, deixando-me sob o peso da maior humilhação.

Se não me engano, foi na terceira crucifixão que vieram os médicos examinar o meu caso. é difìcil e sei que não posso descrever todo o meu sofrimento. Deixavam o meu corpo martirizado, mas outras coisas havia que me custavam muito mais. A vergonha que me faziam passar! Triste cena eu fazia diante deles! Nem a maior criminosa seria julgada num tribunal com mais cuidado! Se pudesse abrir a minha alma e deixar ver o que nela se passa, porque estou a reviver esses dias, fá-lo-ia só com o fim de fazer bem às almas, mostrando quanto sofro por amor de Jesus e das almas. Foi só por isto que me expus a tais sofrimentos.

Quando o meu Director espiritual me falou em ser examinada pelos médicos, foi para mim um grande tormento, uma grande barreira que se levantou em minha alma. Queria sofrer escondida, que só Jesus soubesse do meu sofrimento. Mandava a obediência. Calei-me e tudo aceitei por Jesus. Faltavam os médicos para completar o meu calvário. Alguns foram verdadeiros algozes que no meu caminho encontrei.

Resolveram que fosse ao Porto. Custou-me muito a convencer-me, devido ao estado em que me encontrava. Temia não poder fazer a viagem e, ao convite do médico assistente, respondi-lhe: «Então o Sr. Doutor, em 1928, não consentiu que eu fosse a Fátima e agora que eu tenho piorado tanto quer que eu vá ao Porto?» Sua Exa. disse-me: «é verdade que não consenti, mas agora queria que fosse.» Perguntei-lhe se o meu Director espiritual sabia do caso e, como me afirmaram que sim, cedi ao pedido.

No dia 6 de Dezembro de 1938, pelas 11 horas, fui tirada da minha cama para uma auto-maca. Naquela manhã, fui muito visitada por pessoas amigas e em quase todas via lágrimas nos olhos, assim como nas pessoas da minha famìlia. Eu procurava alegrar a todos, fingindo que nada sofria. Foi dolorosa a minha viagem, pois foram precisas três horas e meia para chegar ao Porto. Parámos inùmeras vezes.

No Porto, no consultório do Sr. Dr. Roberto de Carvalho, tirei a radiografia e por ele fui tratada com todo o caminho. Disse-me assim: «Ai minha menina, quanto sofres!»

De lá fui transportada para o Colégio das Filhas de Maria imaculada, onde me trataram muito bem. O que mais me custava era sofrer os ruìdos da rua, chegando por vezes quase a perder os sentidos. Lá, fui examinada pelo Sr. Dr. Pessegueiro, exame este que só serviu para maior sofrimento meu.

No regresso a casa, voltei a ter uma viagem penosa. Quando me encontrei no meu quartinho, vi-me cercada de várias pessoas amigas. Em 26 de Dezembro de 1938, fui visitada e examinada pelo Sr. Dr. Elìsio de Moura, que me tratou cruelmente, tentando sentar-me numa cadeira com toda a violência. Como nada conseguisse, atirou-me ara cima da cama, fazendo várias experiências que me fizeram sofrer horrivelmente. Tapou-me a boca, atirou-me contra a parede, fazendo-me dar uma forte pancada. Vendo-me quase desmaiada, disse-me: «Ó minha Joaninha, não percas os sentidos!».

Sem querer, chorei, mas todas as minhas lágrimas ofereci a Jesus com os meus sofrimentos, que foram muitos, pois o que digo nada é do muito que passei. Tudo lhe desculpei, porque ele vinha em missão de estudo.

 

SEGUNDO EXAME DA SANTA Sé - Em 5 de Dezembro de 1939, recebi a visita do nosso Sr. Abade, acompanhado pelo Ex.mo e Rev.mo Senhor Cónego Vilar que, depois de me ser apresentado, ficou a sós comigo. Falámos de várias coisas de Nosso Senhor cerca de duas horas, para depois entrarmos verdadeiramente no assunto que o trouxe aqui. Sua Reverência disse-me assim: «A Alexandrina deve estranhar a minha visita, não me conhece...»

Sorri-me e respondi-lhe: «Eu sei com certeza ao que V. Reverência vem aqui.» Ao que ele disse: «Diga, diga, Alexandrina.» Então disse eu: «Vem de mando da Santa Sé», pois era o que eu sentia na minha alma nesse momento. Sua Reverência confirmou, dizendo: «é isso mesmo.» E apresentou os documentos que tinham vindo de Roma. Fez-me várias perguntas a que respondi. Não falei da crucifixão, mas falou-me ele, dizendo: «Parece que há mais qualquer coisa que se passa há meses...», apontando a Paixão, mostrando desejo de vir assistir, como veio logo na primeira sexta-feira seguinte.

Falando disto ao meu Director espiritual, este aconselhou-me a que lhe falasse com toda a franqueza. Visitou-me quatro vezes, mas só duas foram obrigatórias. Se não me engano, logo da primeira vez disse-me: «Olhe, Alexandrina, gostava de há muito a ter conhecido, mas não queria ter vindo como vim.» Confiou-me o segredo da sua partida para Roma, pois naquela ocasião só era sabedor o Sr. Arcebispo.

Como me sentia muito bem a conversar com ele e como tinha toda a licença do meu Director espiritual, falámos muito, mesmo muito de Jesus, porque sentia-me como que mergulhada num abismo de santidade e sabedoria, o que raras vezes me acontece, mesmo com sacerdotes. Disse-lhe que não falava assim com outros senhores Padres, porque não era feitio meu, mas sim pela confiança que nele sentia. Sua Reverência respondeu-me: «Faz muito bem, Alexandrina, em nada dizer porque, se lhes dissesse, eles não a compreenderiam.»

Chorei quando Sua Reverência se despediu de mim na partida para Roma. Prometeu escrever-me de lá, dizendo-me que ficaria a ser a sua intercessora na terra. Recebi algumas cartas dele em que mostrava ter em mim inteira confiança. Respondi-lhe, e ajudámo-nos mutuamente com orações a Nosso Senhor.

 

OPINIÕES DO POVO. NOVOS TORMENTOS - Jesus ia-me pedindo mais sacrifìcios. Com os exames médicos e da Santa Sé, foi-se o caso tornando mais conhecido. Era um martìrio para mim! Queria viver escondida de todos!

Apesar de a minha famìlia não me contar o que a meu respeito diziam lá fora, muitas vezes sabia como comentavam a minha vida. Coitadinhos dos ignorantes que tantas mentiras diziam! Afirmavam que a minha ida ao Porto tinha sido para receber mensalmente uma tença (mensalidade) que o Sr. Dr. Oliveira Salazar ficaria a mandar-me. Para uns era de 500$00, para outros de 300$00 e 200$00. Tanto valia desfazer as mentiras como nada. Eles ficavam sempre na sua.

Outros diziam que fui tirar o «retrato de santa», isto é, avaliar a minha santidade por meio de uma máquina. Minha irmã disse (para desfazer essa ideia): «Se isso pudesse ser, também eu queria tirar esse retrato para ver no ponto em que estava.»

Que pena tenho que as coisas do Senhor sejam tão mal compreendidas!...

Outros então diziam que todos os senhores Padres que me visitavam andavam a pedir esmolas por essas freguesias fora para me darem, e portanto que não me faltava nada.

Diziam que eu talhava o ar, fazendo de mim bruxa, que era corpo aberto; chegando várias pessoas a aproximar-se de mim para fazerem várias perguntas, como se eu adivinhasse. Falavam-lhes muito serenamente, fingindo não as compreender, mas, quando insistiam comigo, respondia-lhes: «Eu não adivinho, nem ninguém adivinha. Nós não temos o direito de penetrar nas consciências alheias. Isso é só para Nosso Senhor.»

Quando me contavam o que diziam a meu respeito, eu fingia não sofrer, mas sofria amargamente e respondia: «Eles falam de mim? é porque têm que dizer. Eu não tenho; deixai que falem para eles. Que Nosso Senhor lhes perdoe, que eu também lhes perdoo. Falam, falam e falarão. Não há quem os cale: uns contra mim, outros a favor de mim.»

E assim o tempo ia passando.

 

VISITA DE UM MéDICO ENVIADO POR DEUS - Em 29 de Janeiro de 1941, recebi a visita dum Sr. Padre conhecido, acompanhado por várias pessoas da sua freguesia. Apresentou-mas na chegada, mas só depois de conversar muito fiquei a saber que um deles era médico. Ao saber que tinha junto de mim um médico, corei de vergonha, não por estar a mentir do que tinha falado do meu sofrimento, mas por não o esperar aqui. Sua Excelência conservou-se calado e sorridente. Não sei o que sentia intimamente por ele. Mal eu pensava que, dentro em pouco, ele seria meu médico assistente.

Principiou a examinar-me minuciosamente, mas com toda a prudência e carinho. Depois de feito o seu exame, achou conveniente convidar o Sr. Dr. Abel Pacheco e o meu médico assistente naquela altura, que vieram conferenciar a meu respeito. Fiquei muito triste, porque já estava cheia de exames médicos, mas cedi, tendo sempre em vista a vontade de Nosso Senhor e o bem das almas.

Foi no dia 1 de Maio do mesmo ano que fui examinada pelo Sr. Dr. Abel Pacheco. O exame durou poucos minutos, contudo causou-me grande sofrimento para o corpo e para a alma. No corpo, porque as suas mãos pareciam de ferro, e na alma, porque já sentia humilhações e o resultado daquele exame. Com tudo isto ainda estava longe do fim. Fui prevenida pelo Sr. Dr. Dias de Azevedo que seria melhor voltar ao Porto, consultar o Sr. Dr. Gomes de Araùjo, se fosse essa a vontade de Nosso Senhor. Pediu-me que pedisse luz divina sobre o caso, porque em nada queria contrariar Nosso Senhor.

Pedi durante um mês. Mas, quanta mais luz pedia, mais em trevas ficava, tornando-se assim a dor da minha alma cada vez mais profunda, não sabendo o que havia de fazer, até que Nosso Senhor me disse que era da Sua divina vontade que fosse ao Porto.

O meu estado fìsico era gravìssimo, temiam tirar-me do leito para tão longa viagem; até eu temia, e muito, pois se não consentia que me tocassem no corpo, como havia de poder ir tão longe!... Animada com as palavras de Nosso Senhor, confiava n'Ele e, sob a Sua acção divina, preparei-me para sair na madrugada de 1 de Julho de 1941. Eram quatro horas da manhã, já eu tinha feito as minhas orações e, para fingir que ia muito alegre, principiei a chamar minha irmã, dizendo-lhe que ìamos para a cidade. Só por este meio escondia a minha dor e alegrava os meus. Quando dizia isto, senti o automóvel que pouco depois chegava a nossa casa. Entrou no meu quarto o Sr. Dr. Dias de Azevedo, acompanha por um senhor amigo. Depois de conversarmos um pouco, minha irmã vestiu-se e preparámo-nos para sair. às 4,50 partimos, era ainda de noite, para não alarmar o povo, e saìmos da nossa freguesia sem encontrar ninguém.

Em que silêncio ia a minha alma! Mergulhada num abismo de tristeza, mas sem me separa um momento da união ìntima do meu Jesus, ia-lhe pedindo sempre toda a coragem para o exame que ia ter; e pelo seu divino amor e pelas almas oferecia todo o meu sacrifìcio. Chamava pela Mãezinha e pelos santos e santas a quem mais amava. Não ligava importância a nada e tudo o que se me deparava causava-me profunda tristeza. De vez em quando, interrompiam o meu silêncio perguntando-me se ia bem. Agradecia, sem sair do abismo em que ia mergulhada. Era já dia claro quando parámos em casa do senhor que nos acompanhava, na Trofa. Era aì que eu ia descansar e receber o meu Jesus, esperando pela hora de seguir para o Porto. Antes de continuar a minha viagem, levaram-me ao jardim do Sr. Sampaio. Amparada e sob a mesma acção divina, fui até junto de umas florinhas, que colhi, dizendo: «Quando Nosso Senhor criou estas florinhas, já sabia que hoje as vinha aqui colher.» Depois, fui fotografada em dois lugares escolhidos. Desloquei-me de um lugar para o outro por meu pé, o que nunca pude fazer depois que acamei, pois nem sequer podia voltar-me de lado, na cama. Só um milagre divino, porque sem ele não me mexia, nem sequer consentia que me tocassem.

Depois, entrei no carro, segui a viagem, e a minha alma sofria horrivelmente. à distância de seis quilómetros do Porto, Nosso Senhor retirou a Sua acção divina. Principiei a sentir todos os sofrimentos do meu corpo e tornou-se tormentosa o resto da viagem e disse, não por saber a distância que faltava, mas o meu estado fez-me falar assim: «Já estamos perto do Porto.» E alguém me disse: «Estamos, estamos.» Porque tinha visto que só faltavam os 6 quilómetros a que me referi.

A ida de carro para o consultório foi o que há de mais doloroso. No corpo, sentia o maior martìrio, e na alma a maior agonia, parecendo que morria.

Antes de entrar na sala de consultas, dizia aos que me levavam nos braços: «Pousai-me, pousai-me, ainda que seja no chão!» De repente, apareceu o médico e instalou-me numa cama de observações, e aì estive até que fosse observada. Pouco antes de ir para a sala de consultas, Nosso Senhor tirou-me a agonia da alma, deixando-me só os sofrimentos fìsicos. Já podia resistir melhor.

Principiou o exame que foi muito doloroso e demorado. Quando me despia, disseram-me que não me afligisse. E eu, recordando o que fizeram a Nosso Senhor, disse: «Também despiram Jesus», não pensando em mais nada. O Dr. Gomes de Araùjo, apesar de me parecer um pouco brusco, foi prudente e delicado.

De o regresso a casa, voltou Jesus a exercer sobre mim as Sua acção divina para continuar a minha viagem, mas deu-me de novo as agonias da alma. Ao passar em Ribeirão, fui descansar em casa do Sr. Dr. Dias de Azevedo, a esperar pela noite, para poder entrar na freguesia sem ninguém perceber.

Tanto numa casa como na outra, fui tratada por todos com muito carinho, mas nada me confortava. Sorria a tudo, encobrindo o mais possìvel a minha dor. Saì de lá já de noite, e tudo me convidava a um silêncio cada vez mais profundo. Tudo me passava despercebido. Durante a viagem, só reparei numas flores do jardim de Famalicão, porque me chamaram a atenção para elas. Chegámos a casa era meia-noite e assim conseguimos que ninguém desse pela minha saìda.

Depois desta viagem, os sofrimentos agravaram-se muito, muito. Tudo o que deveria sentir no dia da viagem guardou-me Nosso Senhor para o dia seguinte, piorando sempre cada vez mais.

 

CARTA A NOSSA SENHORA

«Balasar, 30/4/1941

Querida Mãezinha

Ao principiar o Teu mês bendito, venho pedir-Te a Tua bênção, o Teu amor, para eu poder amar o Teu e meu querido Jesus. Quero amá-Lo tanto, tanto, quero ser uma louquinha de amor, quero só viver e morrer de amor! Ajudai, minha querida Mãezinha, o Vosso Jesus a imolar e sacrificar esta que quer dar o sangue e a vida pelas almas e pelo Vosso Jesus. Dá-me, Mãezinha, a Tua pureza, a Tua humildade, a Tua obediência; dá-me as tuas virtudes para que eu seja santa, para dar toda a glória ao Teu Jesus para quem só quero viver.

Mãezinha, peço-Te esta esmolinha do Céu: quero que o mês de Maio seja para mim o ùltimo que passo na terra. Quero ir depressa gozar do Teu Jesus e da Tua companhia. Quero continuar junto de Ti a implorar perdão e misericórdia para o mundo Teu. Tua filha a mais indigna, pobre Alexandrina.

P.S. - Hei-de fazer cair uma chuva de graças e de amor sobre aqueles e aquelas que na terra me são queridos. Sempre a Tua filha, Alexandrina.»

 

VISITA DO REVº PADRE TERÇAS. CONSEQUÊNCIAS DESTA VISITA - Em 27 de Agosto de 1941, recebi a visita do Sr. Abade acompanhado pelo Sr. Padre Terças e outro sacerdote. Esta visita foi para mim de grande desgosto, pois fiz o sacrifìcio de responder às perguntas que o Sr. Padre Terças me fez diante de todos, o que me custou imenso. Respondi a tudo conscientemente, porque prensava que viria em estudo como outros tinham vindo. Só Nosso Senhor pode avaliar quanto me custou ter de falar do assunto da Paixão, e foi sobre isto que mais me interrogou. O nosso Pároco disse-me que Sua Reverência queria voltar aqui na próxima sexta-feira, dia 29. Não queria ceder ao pedido sem consultar o meu Director espiritual, mas, como me disseram que se tinha de retirar para Lisboa nos dias imediatos a este, consenti dizendo: «Eu penso que Vossa Reverência não vem aqui por curiosidade.» Como me afirmasse que não, cedi prontamente, embora me fizesse sofrer muito a sua visita na sexta-feira. Sua Reverência não faltou, mas trouxe consigo mais três sacerdotes. Mal eu pensava que esta visita vinha erguer para mim um novo calvário. Não levou muito tempo que Sua Reverência publicasse o que observou e o que soube de mim.

Que Jesus tenha em conta a dor que me causou aquela publicação, por saber que a minha vida foi publicada e os meus segredos revelados, aquilo que tanto tempo escondi.

De vez em quando, chegavam-me aos ouvidos vários comentários a meu respeito. Eram espinhos que me cravavam no peito, mesmo sem as pessoas darem por isso. Eram variadas as impressões com que ficavam as pessoas que liam o livro ou ouviam falar de mim.

A minha ida ao Porto e a publicação da minha vida fizeram inquietar os espìritos dos Superiores do meu Director espiritual a ponto de o proibirem de vir junto de mim e de me prestar a assistência religiosa que necessito, assim como o proibiram também de me escrever e de receber as minhas notìcias.

Depois disto, principiei a viver de ilusões: virá hoje o meu Director espiritual, virá amanhã? Vinham ao meu pensamento mil e uma coisas. Impressionava-me por me lembrar que perdia o tempo em coisas inùteis, mas não era capaz de desviar o meu espìrito do que tanto me fazia sofrer. Passava algumas horas persuadida de que tudo podia suceder como eu pensava. Um dia, persuadi-me de que, apesar de não ser prevenida pelo meu Director espiritual, este viria celebrar o Santo Sacrifìcio da Missa no meu quartinho. Pensei: vem amanhã no comboio sem me prevenir. Principiei a ouvir o comboio ao longe e, ao chegar ao apeadeiro, pareceu-me que o comboio teve lá grande demora, motivada por desastre de que foi vìtima o meu Director espiritual, sendo apanhado por uma perna que lhe ficou logo cortada. Queriam levá-lo para a Póvoa, mas, como Sua Reverência dissesse que vinha visitar-me, pediu que o trouxessem à minha presença. Senti como se o visse entrar no meu quarto nos braços de várias pessoas, quase moribundo. Uma das pessoas trazia a perna na mão. Quando se me representou aquele quadro tanto ao vivo na minha alma, senti como que me pusesse de joelhos diante de Nossa Senhora, exclamando: «Ó Mãezinha, mostrai aqui o Vosso poder», que era o de colar a perna. Depois disto, figurou-se-me que não tinha vindo à nossa casa e que o levavam para o Hospital. Ao saber-se de tudo isto, senti que os seus irmãos em religião se regozijavam e diziam: aqui está uma prova evidente de que Nosso Senhor não queria que ele fosse junto dela.

Parecidas com estas ilusões tive mais, mas não me fizeram sofrer tanto como esta.

A minha vida foi toda uma vida de sacrifìcio; quase posso dizer que não sei o que é gozar, do que não sinto nenhuma pena. Sinto-me no fim da vida e, se junto à pena de ter ofendido Nosso Senhor eu podia juntar o gozo deste mundo, era um horror para mim. Só ter gozado o pecado, que horror!

Anseio pela eternidade, porque só lá saberei agradecer a Jesus o ter-me escolhido para viver esta vida de sacrifìcio, ansiando só por amar Jesus e salvar as almas.

Sei bem que poucas almas me compreenderão, mas uma só coisa me basta: Jesus tudo compreende.

  

O MEU ENTERRO - Os meus desejos são que o meu enterro seja pobrezinho. Quero que o meu caixão seja de forma a não ser muito bom, nem muito fraco, para não chamar a atenção de ninguém. Quero ir vestida de branco, como «Filha de Maria», mas muito modesta. Porém, sei que tenho um vestido muito bom, melhor do que era minha vontade: ofereceram-mo e, como não tenho vontade própria, por ser mais perfeito, aceito tudo o que me quiserem dar.

Se não for proibido pela Santa Igreja, quero no meu caixão muitas flores. Não porque as mereça, mas sim porque as amo muito. Se fosse por merecimento meu, nada tinha e nada levaria.

A minha vontade é ir para a terra, sem caixão de chumbo. Também não quero ofìcio, porque minha mãe não tem posses para isso.

No trajecto do meu enterro, queria o máximo recolhimento. Causa-me dó presenciar e ouvir a maneira como se fazem os acompanhamentos fùnebres.

Não quero autópsia; basta o meu corpo em exposição, enquanto viva, às consultas dos médicos.

 

A MINHA CAMPA - Quero ser enterrada, se puder ser, de rosto virado para o sacrário da nossa igreja. Assim como na vida anseio estar junto de Jesus Sacramentado e voltar-me para o sacrário as mais vezes possìveis, quero depois da minha morte continuar a velar o meu sacrário e manter-me voltada para ele. Sei que com os olhos do meu corpo não vejo o meu Jesus, mas quero ficar assim para melhor provar o amor que tenho à Divina Eucaristia.

Quero que a minha campa seja rodeada de plantas chamadas martìrios, para assim mostrar que os amei na vida e os amo depois da morte. A entrelaçar com os martìrios quero roseirinhas de trepar, mas daquelas que têm muitos espinhos. Amo e amarei durante a vida os martìrios que Jesus me dá e os espinhos que me ferem e amá-los-ei depois da morte e quero-os junto de mim, para mostrar que é com espinhos e com todos os martìrios que nos assemelhamos a Jesus, que consolamos o Seu Divino Coração e que salvamos as almas, filhinhas de todo o Seu Sangue. Que maior prova de amor podemos dar a Nosso Senhor senão sofrendo com alegria tudo o que é dor, desprezo e humilhações?! Que maior alegria podemos dar ao Seu Divino Coração senão dando-Lhe almas, muitas almas por quem Ele sofreu dando a vida?!

Quero também ao cimo da minha campa uma cruz, e junto dela, uma imagem da querida Mãezinha. Se puder ser, gostava que uma coroa de espinhos envolvesse a cruz. A cruz é para sinal que a levei durante a vida e amei até à morte. A Mãezinha é para mostrar que foi Ela quem me ajudou a subir o caminho doloroso do meu calvário, acompanhando-me até aos ùltimos momentos da minha vida. Confio que assim será. Ela é Mãe, e como Mãe não me deixará sozinha no ùltimo transe da minha vida.

Amo a Jesus, amo a Mãezinha, amo o sofrimento, e só no Céu compreenderei o valor de toda a minha dor!!!

 

QUARENTA DIAS PASSADOS NA FOZ (1943) - Para satisfazer os desejos e vontade do Sr. Arce-bispo Primaz, mais uma vez me sujeitei a uma nova conferência, que se rea-lizou no dia 27 de Maio deste ano. Quando me comunicaram isto, novo sofrimento se apoderou do meu espìrito, mas como visse em tudo só a vontade santìssima de Deus, aceitei, como sempre, por obediência, pois o que mais me custava era o ter de me sujeitar a mais um exame médico. Quando me disseram o dia em que os médicos vinham, pedi com todo o amor à minha querida Mãe do Céu que me desse a calma precisa para tudo suportar com coragem e resignação, pois era por Jesus e pelas almas que a tudo me ia sujeitar.

No dia combinado, compareceram o meu médico assis-tente, Sr. Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo, o Sr. Dr. Hen-rique Gomes de Araùjo e o Sr. Dr. Carlos Lima. Quando chegaram junto de mim, eu encontrava-me na maior serenidade e calma. Nosso Senhor tinha ouvido e acedido ao meu pedido! As primeiras palavras de um dos médicos foram para saber se eu sofria e por quem oferecia esses sofrimentos; se sofria contente e se ficaria satisfeita, se Nosso Senhor de um momento para o outro me tirasse esses mesmos sofrimentos. Respondi que realmente sofria muito e que oferecia todos estes grandes sofrimentos por amor de Nosso Senhor e para conver-são dos pecadores. Novamente me perguntaram qual era a mi-nha maior aspiração e eu respondi: «é o Céu!» Então dis-se-me se eu queria ser uma santa como Santa Teresa, Santa Clara, etc., e subir às honras do altar, deixar nome como esses grandes do mundo. «é o que menos me preocupa!»

Querendo tirar-me a confiança em Deus, pro-pôs-me o seguinte: Se para salvar os pecadores fosse necessário perder a própria alma, que faria? «Eu tinha toda a con-fiança que no fim de salvar as outras, a minha seria salva também; mas, se no fim perdesse a minha, então, não, pois nem Nosso Senhor seria capaz e pedir uma coisa dessas... E ainda digo mais: prometi a Nosso Senhor os meus olhos, que é o que tenho de mais querido no meu corpo, se isso fosse necessário para converter Hitler, Staline e todos os outros causadores da guerra.»

— E por que não come?

— Não como porque não posso, sinto-me cheia, não te-nho necessidade de comer, mas sinto saudade da comida.

Depois começaram a fazer o exame médico, que eu supor-tei sempre bem disposta. Foi muito rigoroso, mas, ao mesmo tempo, tiveram cuidado com o meu corpo.

No fim resolveram — visto eu não estar em condições de fazer a viagem — mandar para cá duas religiosas para se certificarem da veracidade de eu não me alimentar.

Quando eles se ausentaram, Nosso Senhor fez-me sentir que a resolução que eles tinham tomado não ia ter realização e fiquei à espera de notìcias que me trouxessem nova maneira de pensar dos médicos.

A 4 de Junho, veio cá o médico assistente, juntamente com o meu confessor ordinário, comunicar-me a resolução dos médicos e convencer-me, e à minha famìlia, para eu ir para o Refùgio da Paralisia Infantil, num quarto particular, estar lá um mês, para verificarem, mais de perto, tudo o que em mim se passava. Eu respondi imediatamente que não, mas logo me arrependi do que tinha dito e da obediência devida, e disse que sim, porque não queria desobedecer ao Se-nhor Arcebispo, deixar mal situados o meu Director e o médico assistente, e todos aqueles que tanto se têm interessado por mim. Pus, porém, umas condições:

1) de poder receber a Jesus todos os dias;

2) de minha irmã me acompanhar sempre;

3) de não ter mais exame nenhum, porque ia para observação e não para exame.

Durante aqueles dias que cá estive, pedi a Jesus e à Mãezinha que me dessem forças e coragem para ser a cora-gem dos meus, que se encontravam desolados. Quantas vezes, durante a noite, com o coração oprimido e as lágrimas a bai-larem-me nos olhos, eu pedia a Jesus que me ajudasse, pois parecia-me que me iam faltar as forças e via-me sem cora-gem para mim, quanto mais para dar aos outros!

Chegou o dia 10 de Junho, em que estava tudo prepa-rado para a minha partida para a Foz. A amargura que se apo-derou de mim era enorme, mas, ao mesmo tempo, sentia uma coragem tão grande que com ela podia encobrir o que ia na minha alma. Confiava tanto em Jesus, e estava tão conven-cida do seu Divino auxìlio que até julgava, que, se necessário fosse, Jesus enviaria os seus próprios anjos a ajudar-me no exìlio onde ia encontrar-me. Quando o médico chegou junto de mim, não teve coragem para me dizer que era preciso partir, mas eu disse-lhe então: «Vamos! quem não vai não vem.»

Então começa-ram as despedidas. Só Nosso Senhor sabe quanto me custou esta separação, pois todos os meus vieram abraçar-me e bei-jar-me cheios de dor. Eu só olhava para o Sagrado Coração de Jesus e para a querida Mãezinha a pedir-Lhes que me dessem coragem e forças.

Ao descer as escadas na maca, disse-lhes para os ani-mar: «Coragem! Tudo isto é por Jesus e pelas almas!» Não pude dizer mais nada, tal era o aperto que sentia em meu coração e seria impossìvel conter as lágrimas. Era isso o que eu não queria, não por mim, mas para não ser causa de maio-res dores para os meus. Quando fui posta na maca, rodeada por mais de cem pessoas, via as lágrimas nos olhos de quase todos, ouvia os gritos de minha mãe e mais pessoas de famì-lia. Era indizìvel a minha dor. Era ansiada (sic) de partir, mas partir depressa. O meu coração pulsava com tanta força que parecia arrancar-me as costelas. Nessa ocasião disse a Jesus: «Acei-tai, meu Jesus, todas as pulsações do meu coração, por Vosso amor e para salvação das almas.»

A viagem foi difìcil de fazer, pois o meu coração sentia imenso e parecia por vezes que ia sucumbir. Olhava para a minha irmã e via-a muito desolada. O médico dizia-me que, com doentes como eu, não cus-tava fazer viagens, porque me via sempre com um sorriso nos lábios, mas só Jesus sabia a amargura que ia no meu coração e as torturas do meu pobre corpo. Com as trepida-ções da auto-maca, eu sentia grandes aflições no coração, mas repetia sempre: «Tudo por Vosso amor, meu Jesus, e que a noite escura que sinto na minha alma, sirva para dar luz as almas!»

Ao chegar às ùltimas casas de Balasar, vi que o Sr. Sam-paio levantou as cortinas da auto-maca e notei que as lágri-mas assomaram aos olhos do médico, que ia a meu lado e exclamou: «Coitadinhas!» Ao ouvir estas palavras, perguntei-lhe o que era. Disseram-me que umas crianças, à beira da estrada, lançavam flores para o nosso carro. Senti-me então cheia de compaixão para com as criancinhas, enquanto as lágrimas tei-mavam deslizar-me nas faces, o que a custo pude conter. Quando chegámos a Matosinhos, o médico levantou a cortina da janela da auto-maca para eu ver o mar. Então um silêncio enorme se apoderou do meu coração e, ao ver o movimento contìnuo das ondas e a sua vinda até à praia, eu pedi a Jesus que o meu amor fosse também assim sem interrupção e dura-doiro.

Chegámos perto do Refùgio, e o Sr. Dr. Gomes de Araùjo não quis que a auto-maca fosse até à porta e para isso disse aos bombeiros que virassem a maca e me levassem assim pela rua, cobrindo-me o rosto para que ninguém me visse. Logo nessa ocasião, o meu coração mais triste ficou, pois adivinhava já o que seriam para mim esses longos trinta dias que iria passar nessa casa. Enquanto ma transportavam de rosto encoberto, parecia-me estar num caixão. A minha tristeza subia, e eu perguntava a mim mesma: «Que crime fiz eu?»

A subida das escadas do Refùgio foi um martìrio, por eu estar de cabeça para baixo. Só no quarto descobriram-me o rosto, e eu vi-me então rodeada pelo Sr. Dr. Araùjo e algumas das senhoras que iam servir de vigias, enquanto eu lá estivesse. Colocaram-me na cama que já estava destinada para mim.

à minha irmã mandaram-na para outro quarto, contra o que eu tinha pedido, pois este era um dos maiores sacrifìcios que podìamos fazer, tanto uma como a outra. Como havia eu de passar sem ela, que me dava todas as voltas precisas e me ajudava com as suas carinhosas palavras a levar este doloroso calvário?...

Estava apenas na cama quando a Deolinda se apresen-tou à porta trazendo uma mala, em que tìnhamos a nossa roupa. O médico, Dr. Araùjo, ao ver a minha irmã, berrou alto: «Essa mala lá fora!...». Foi espinho sobre espinho. Prin-cipiou a dar ordens: «As vigias, as vigias! A doente pode dizer o que quiser, mas as senhoras não têm licença de a interrogarem».

Depois de dar todas estas ordens, retirou-se, ficando o médico assistente e duas senhoras que estariam ali perma-nentes para vigiarem todos os seus movimentos.

à noitinha já, ao retirar-se para vir embora o Sr. Dr. Dias de Azevedo, então não consegui reter por mais tempo as lágrimas que me banhavam os olhos. O meu médico teve ainda esta fineza, este respeito pela minha dor - mais do que respeito, carinho: «Coragem, amanhã voltarei cá!»

Chorei sen-tidamente, mas logo ofereci essas lágrimas tão amargas ao meu querido Jesus. Ao verem-me tão desolada, sempre consentiram que essa noite ficasse junto de mim a minha irmã juntamente com uma das senhoras enfermeiras para ela aprender as voltas que a minha irmã me costuma dar, mas ajuntou logo: «Só por esta noite, porque amanhã não fica».

No dia seguinte, que era sexta-feira, começou então para mim o verdadeiro calvário naquela casa. Na ocasião do êxtase, como acontece todas as sextas-feiras, a minha irmã veio para junto de mim, encontrando-se também o médico assistente e uma enfermeira.

Nada escapou aos observadores, nem os pequenos pormenores que foram depois espalhados e comentados. Tais como estes: o Sr. Sampaio ter puxado pelo relógio, ... a minha irmã ter ajoelhado ao pé de mim para ouvir as palavras do êxtase, ... uma enfermeira ter chorado, etc.... O Sr. Dr. Azevedo escreveu, como sempre as palavras do êxtase para entregar aos médicos. A Deo-linda, que devia por ordem estar apartada do quarto, andava amargurada e pedia: «Nem ao menos poderei ver a minha irmã à porta do quarto? A minha vista alimentá-la-à, tal-vez?» E debruçada sobre a minha cama, chorava inconsolável.

Foi então que eu lhe disse: «Não te aflijas, Nosso Senhor há-de estar connosco!» A vigia que chorara durante o êxtase, batendo-lhe no ombro, disse-lhe: «Não chore, o Sr. Dr. Araùjo é de muita cari-dade!» Mas foi o bastante para nunca mais essa vigia poder apro-ximar-se de mim, a não ser nos ùltimos dias, quando já havia provas de verdade, e mesmo assim, só acompanhada por ou-tras pessoas.

Deve-se isto, e muitas coisas mais, a uma vigia que foi o meu carrasco durante os dias da Foz. Deus Nosso Se-nhor lhe perdoe.

Nessa noite, comecei a sentir uma crise tremenda de vómitos que, como sempre, muito mal me fazem e tanto me afligem, mas mais ainda aì, onde não tinha a não ser uma vez quem me amparasse.

No sábado, veio novamente o Sr. Dr. Gomes de Araùjo ver como eu me encontrava e saber de tudo o que se tinha passado. A minha prostração era tão grande que não dei conta de quando bateu à porta, que estava sempre fechada à chave; só o ouvi quando, ao pé da minha cama, dizia à en-fermeira: «Está pronta! Está pronta!» Foi então que abri os olhos e disse-lhe: «Ó Senhor Doutor, em casa também tenho estas coisas.» A resposta dele, muito pronta e imperiosa: «Menina, não pense que vem aqui para jejuar!» Compreendi onde queria chegar e senti-me profunda-mente ferida.

Quando soube do que se tinha passado na sexta-feira, exigiu os escritos do êxtase e foi então que disse berrando: «Parece impossìvel que o Dr. Azevedo, sendo um rapaz tão inteligente, se deixe levar por estas coisas. Isto tem que acabar. No entanto, que desapareçam todos os relógios para ela igno-rar as horas...» (Como se Nosso Senhor precisasse deles!)

Ao ver o meu estado, queria medicar-me, mas eu não o consenti, nem o consentiria. Quantas vezes as enfermeiras vie-ram junto de mim, convencidas de que eu tinha morrido. Foram cinco dias de contìnua agonia, mais da alma do que do corpo, pois durante estas crises não consentiram que a minha irmã viesse para junto de mim, eu que em casa chegava a precisar que duas pessoas me aliviassem. Julgavam todos que esta crise era devida à falta de alimentação, porque ao verem-me completamente isolada e sem ninguém que me pudesse levar qualquer alimento, eu sentiria necessidade de o pedir ou então que estava a mor-rer. Como estavam enganados! O meu alimento vinha-me da Hóstia bendita da minha Comunhão de cada manhã.

Foi durante esta crise que voltou a visitar-me o médico assistente e, depois de informado pela minha irmã lá fora da minha prisão, ao pé da minha cama, foi aconselhado pela vigia de que eu precisava de tratamento. E eu que ainda não tinha conta de ele entrar, abri os olhos para ele e ouvi que ele dizia para a mesma: «Esta doente veio para aqui para ser observado e nada mais. Creio que o Sr. Dr. Araùjo cumprirá com as condições. Não consinto que se lhe dê uma injecção ou outro medicamento, a não ser que ela o peça. E as senhoras verão que, passada esta crise, as olhei-ras desaparecerão, as cores voltam, o pulso volta ao seu normal. Não digo mesmo ao seu normal, talvez devido aos ares do mar... O que lhes afianço é uma coisa: morrerão as senho-ras, morrerei eu, mas ela cá no Refùgio não morre.»

Sentado ao pé de mim, veio dar-me um pouco de alìvio de que precisava. Porque Nosso Senhor assim permitiu e achou bem; passados cinco dias os vómitos desapareceram por completo e a cor natural do rosto voltou juntamente com o brilho dos olhos. à nova visita do médico assistente que ia frequentemente ver-me, a vigia teve esta frase: «Veja, Senhor Doutor! Olhe essa cara!» Ele, muito delicado sempre, mas com firmeza: «Foi com os bifes que comeu e com as injecções que levou.»

Jesus quis mais uma vez mostrar o seu poder nesta humilde criatura sua. Contudo, todas as senhoras-vigias cum-priram bem as ordens do médico, pois não me abandonavam um momento. A porta do meu quarto só se abria para dar pas-sagem aos médicos ou às enfermeiras.

à nova transformação que houve em mim, nem o médico nem as enfermeiras se que-riam convencer de que era possìvel eu continuar a viver sem me alimentar. Porque se usavam argumentos para me atemori-zarem, passava-se de repente a frases que mostravam cari-nho e interesse pela minha pessoa. Eu ouvi dizer nas con-ferências que tinham uns com os outros que o meu caso seria de histerismo ou outro qualquer fenómeno que não sabiam explicar. Um dia em que se aproximou de mim o Sr. Dr. Dias de Azevedo, eu disse-lhe o que ia na minha alma tão amargurada: «Para ser tratada como histérica não preciso de estar aqui.» Mas ele respondeu-me que tivesse coragem e confiança. Eu assim fiz, para cumprir em tudo a vontade santìssima de Deus. O Sr. Dr. Gomes de Araùjo visitava-me sempre duas ou três vezes ao dia e sempre a horas desencontradas, para ver se conseguia descobrir alguma coisa, penso eu, e algumas vezes entrou no meu quarto já sendo noite, sendo ele a vigia que foi baptizada por alguém com o nome de «cardeal-diabo».

Ainda que eu vivesse até ao fim do mundo, nunca mais poderia esquecer a impressão que me causava o abrir e fe-char das portas pelo médico, porque estava sempre à espera do que ele iria dizer. Sentia uma impressão tão grande que o meu coração estremecia e a minha alma mais triste se sen-tia. E quantas vezes dizia e repetia a Jesus: «Que esta noite sirva para dar luz a ele, às pessoas que me rodeiam e a todas as almas que se encontram nas trevas».

Nas conversas e interrogatórios, que várias vezes me fez, empregou o Sr. Doutor todos os meios possìveis, para me convencer a alimentar-me e fazer-me sentir que não devia fa-zer assim, porque Deus não gostava. Até pelos escrùpulos me quis levar. Mais, a enfermeira tentou muitas vezes levar-me pelo lado do coração; uma das vezes que falou comigo, até queria ver se conseguia tirar-me a fé. Serviu-se de quantos meios tinha ao seu alcance, e, com interrogatórios intermináveis e torturantes para me levar a desanimar, julgando que tudo isto, quanto se tem passado em mim, fosse influência humana e não de Deus. Se em todos os dias que era interrogada pelo médico me parecia ter diante de mim um lobo com pele de cordeiro, neste dia, pior ainda: parecia-me ver nele o próprio Satanás, com as suas artes, com seus sorrisos manhosos, a tentara tirar-me a fé e a persuadir-me que tudo era ilusão.

«Conven-ça-se, a menina — dizia ele — que Deus não quer que sofra. Se quer salvar os outros, que os salve Ele, se é verdade que tem poder para isso! Se é verdade que Deus recompensa aqueles que sofrem, para si já não tem re-compensa para lhe dar, pelo que tem sofrido».

Mas, meu Deus, eu sei que Vós sois infinito, infinito no poder, infinito nos Vos-sos prémios.

Se fosse como ele diz, por quem sofro eu?

Acompanhava as suas palavras com um olhar maliciosos de demónio. (Assim me parecia.) Eu, então respondi-lhe:

«São tão grandes, tão grandes as coisas de Nosso Senhor, e nós somos tão pequeninos, tão pequeninos, ao menos eu!» Ficou-se; e depois, indignado, disse: «Tem razão; mas eu sou pessoa maior um bocado!» - e saiu.

«Quão longe estava o médico de conhecer esta lei do amor das almas! Se ele soubesse o valor duma alma, veria então que nada é demais tudo quanto façamos para as salvar.

Era uma chuva constante de humilhações e sacrifìcios. Oh, se eu soubesse sofrer bem, quanto tinha que oferecer a Jesus! Estavam sempre a aparecer coisas novas que humilha-vam e sacrificavam. Tinha aos pés da minha cama um retrato da pequenina Jacinta, que me mandaram para lá. Eu olhava-a com amor e, então, já sem temer que as vigias contassem ao médico, dizia assim: «Querida Jacinta, tu, tão pequenina, soubeste o que isto custa! Ajuda-me, lá do Céu onde estás.» Só o auxìlio do Céu, só as orações de almas boas podiam ser a minha força, para subir tão doloroso calvário e suportar o peso de tão pesadìs-sima cruz!

Era interrogada pelo Sr. Dr. Gomes de Araùjo todas as vezes que ele vinha junto de mim. Repetia frequentes vezes as mesmas perguntas e todas as vezes me deixava assustadìssima, dizendo quase sempre: «Temos muito que conversar.»

Logo que eu o via sair do quarto, respirava fundo e dizia para mim mesma: Graças a Deus que já estou livre de ti. Mas logo o pensamento que ele depressa voltava me deixava um sofrimento bem amargo.

Um dia, sentado ao meu lado direito, procurou todos os meios para convencer-me de que tudo isto que se passava eram ilusões minhas e então principiou com uns rodeios, muito ao longe, sobre a Medicina, falando num professor seu e num Colégio do Porto onde ele tinha gasto muitas horas de noite no seu estudo, não tinha dormido, e tinha escrito muitas páginas e convencido de que tinha acertado com o seu estudo, foi ao encontro do professor contar-lhe o resultado das suas lições. O professor dizia-lhe: «Tem a certeza do que diz?» E ele afirmava-lhe, uma e outra vez, que sim, por esta e por aquela forma. A conversa já ia longa e eu fitava-o como se nada compreendesse, e dizia para mim mesma: «Andas por tão longe, para vires cair tão perto!» Enquanto ele continuava dizendo: «Eu estava convencido que tinha feito um belo estudo; o professor deixou-me dizer tudo e depois disse-me: "Não vê que está enganado, que não pode ser nada disso, por esta e por aquela razão?" Eu fiquei: Meu Deus, tantas horas perdidas! Tantas horas de ilusões! Tudo caiu por terra!» — Eu, que já via há muito tempo aonde ele queria chegar, sorri-me e disse: «Não cai, Senhor Doutor. Tenho à minha frente um Director muito santo e muito sábio e estudou o caso por alguns anos. E, se a obra é de Deus, não há nada que a deite por terra».

Ele, um pouco embaraçado, disse-me: «Ai não!...» - fingindo com as suas palavras que não era isso o que ele queria dizer. Dada a minha resposta, depressa se retirou, e já era tempo.

Ai, meu Jesus, só conVosco podia desabafar, só para Vós eram as minhas lágrimas. Cantava com o maior dos entusiasmos. Mas dentro em mim e até aos meus próprios olhos parecia-me não haver sol nem dia. Algumas vezes, durante a noite, lembrava-me: o que estará, agora, minha irmã a fazer? Estará a chorar? E lembrando-me que ela sofria tanto por minha causa, uma vez não pude conter as lágrimas. Chorei, chorei. Só receava que Jesus ficasse triste pelas minhas lágrimas. Mas Ele bem sabia que tudo queria e aceitava por Seu amor, com desejo imenso de lhe dar todas as almas. E oferecia-Lhe as minhas lágrimas como actos de amor para os sacrários. Quanta mais amargura, mais amor, não é, meu Jesus? Aceitai. Foi minha mãe visitar-me aos 16 dias e aos 30. Tinha tanta saudade dela! Estava tão pouquinho tempo junto de mim e sempre sob os olhares curiosos das espias! Ela chorava e eu fingia não ter coração: sorria-me e gracejava com ela, acari-ciava-a, e com o meu sorriso enganador escondia a amargura que me ia na alma, e retirava as lágrimas que teimavam des-lizar-me nas faces. Animava-a e desabafava intimamente sozi-nha com o meu Jesus. Era a minha cruz, e quem não havia de levá-la por amor d'Aquele que morreu por mim?

Assim iam passando os dias nesta luta constante, alternados pela mu-dança das senhoras enfermeiras, que iam e vinham conforme a vontade do médico. Com algumas sofri imenso porque chegaram a ir além dos direitos que lhes competiam e dos deveres que tinham a cumprir. Ao aproximarem-se os dias que o médico tinha dito que nos iria pôr mais à vontade, visto estar convencido da verdade, deixando minha irmã passar mais algum tempo junto de mim e da vigia que desempenhava a sua missão, concedendo também, aos 29 dias, uma visita, embora de fugida, das irmãs franciscanas do Refùgio, pensáva-mos também mandar dizer aos meus o dia do regresso, mas, sem o esperarmos, deu-se o contrário.

Uma das vigias informou do que se passava, a meu respeito, um médico que não me conhecia nem conhecia o caso, o que levantou novas dùvidas.

Atreveu-se esse médico a dizer que não podia ser, que as vigias facilmente se deixavam enganar e que só acredita-ria, mandando para lá enfermeiras da sua confiança.

O Sr. Dr. Araùjo, um pouco indignado por não acredi-tarem na observação feita por ele, exigiu que o mesmo mandasse então uma pessoa da sua confiança. E escolheu uma irmã dele. Quando nós pensávamos ver suavizada a nossa dor, foi então que se nos pediu nova prova, mais triste e dolorosa.

O Sr. Dr. Araùjo procurou convencer-nos de que era conve-niente passar lá ainda dez dias, embora ele estivesse conven-cidìssimo da verdade, e, contra a vontade de minha irmã, ele insistiu que era preciso ficar para convencer o outro médico. Eu respondi-lhe: «Quem está trinta está quarenta». Assim é que ficou resolvido.

O Dr. Álvaro, na verdade, nem exigia tanto tempo, bastava-lhe só, para se convencer, que eu ficasse quarenta e oito horas sem comer e sem evacuar, e não exigia mais.

Foi o mesmo Dr. Araùjo que, delicadamente, para honra do seu nome, convidou a senhora a ficar mais um dia, depois mais outro.

Mesmo depois de cumprida a sua missão, essa senhora voltou várias vezes a visitar-me, convencida enfim da verdade. Este ùltimo tempo foi um verdadeiro calvário e eu oferecia a Nosso Senhor e à Mãezinha este grande sacrifìcio. Dura prova, meu Deus!

O Dr. Araùjo, sem me dizer o que ia fazer, tomou a borracha que tinha sobre o estômago e um garrafão de água que as vigias tinham para molharem o pano da cabeça e infundiu lá o que ele quis para eu, que ignorava o facto, se chupasse do pano ou da borracha, como o outro médico afirmava, houvesse em mim algum transtorno que eles lá sabiam, exigindo das vigias que eu não pedisse que me fosse mudado o gelo. Assim o fiz, apesar de, por vezes, ela tentar mudá-lo. Eu respondia: «Põe-se fora de mim para arrefecer. Manda o Sr. Doutor e é assim que eu cumpro.» Voltou-se então ao rigor de antes ou pior, proibindo de qualquer forma até que se me falasse de Jesus, julgando que com isso podia tirar o que anda dentro de nós. «Não consinto - dizia ele - que chame a sua irmã a não ser uma vez por noite.» A vigia, muitas vezes, como que a tentar-me, durante a noite, com carinho impostor (não quer dizer que ela seja impostora, mas era a impressão que me deixava): «Santinha, minha santinha - dizia-me - sempre nessa posição! Eu chamo, eu chamo a sua irmã.»

- Muito obrigada, minha senhora, não quero. Manda o Senhor Doutor: é só uma vez que ela vem.»

E quando, de facto, a minha irmã vinha por sua vez dar-me o jeito na cama, segundo o médico permitira, a vigia acendia a luz, abria a porta e punha-se a par com a minha irmã. Logo que a irmã se retirava, fingindo compaixão e cuidados pelo frio que eu podia apanhar, descobria-me mais, para ver se alguma coisa me tivesse deixado debaixo da roupa.

Eu com-preendia muito bem e abria os braços sobre as almofadas para ela ver melhor, fingindo não compreender. «Só por Vós, Jesus!»

Não faltaram as seduções para ver se eu tomava alguma coisa das suas comidas. Quando me mostravam os petiscos sem dizer nada, eu contentava-me com sorrir-lhes... E quando ofereciam a comida com palavras, eu agradecia: «Muito obri-gada!», mas sempre a sorrir, mostrando não compreender a sua maldade.

Quantas vezes me foi tirada a roupa toda para ser exa-minada!

Quando me via só, e principalmente de noite, parecia-me que o tempo tinha duração da eternidade. Sentia que o meu coração fosse como uma árvore que enraizasse com as suas veias pelo soalho e pelas paredes e que a fùria de tanta tempestade as arrancava, ficava-me tudo por terra... e que todos e tudo me calcassem. A fùria da tempestade era tão grande que, por fim, sentia que quisesse arrancar essas veias e tudo caìsse por terra. Dizendo isto, sinto de não dizer nada do que eu passei nesses dias... Tudo se me apresenta pavorosamente à minha memória. Que tormento! ... Só o amor de Jesus pode vencer e a loucura das almas!

Sentindo aproximar-se o médico: «Lá vem o carrasco visitar a pobre encarcerada pelo amor de Jesus e das lamas. Não ofendi ninguém a não ser a Vós, meu Jesus, mas os homens querem que desta maneira e sem o pensarem eu pague assim as minhas ingratidões.»

Vendo a minha irmã desalentada que aparecia de vez em quando à bandeira da porta a perguntar se eu estava pior... procurava encorajá-la. Coitada! Ela ouvira a conversa do médico que o meu envenenamento era certo, por eu não evacuar. Coitados deles!... Jesus sabe fazer as coisas melhor do que os homens!

Na véspera da partida, fora o dia das visitas. Passaram ao pé de mim todas as criancinhas do Refùgio, a quem dei rebuçados e com quem rezei por todos o da casa.

A minha irmã sentia-se outra e todos o notaram. Fui visitada talvez por mil e quinhentas pessoas... Os polìcias tiveram de intervir para manter a ordem. Achei muita graça a um dos polìcias que, encarregado de manter a ordem, se limitou a pôr-se ao meu lado e ali ficou todo o tempo, contentando-se com dizer de vez em quando ao povo: «Passem! Passem!»

Que impressão, meu Deus, aquele burburinho do povo! Não valeram as sùplicas da minha irmã para que acabassem com aquilo. Não valeram de nada os polìcias. O mesmo médico teve de ir à janela a dizer que se devia acabar porque era impossìvel mais movimento para me não matarem. Quanta gente julgava que a própria doente tivesse morrido! Eu, de facto, fiquei humilhada, abismada e cansadìssima com o nojo de mim mesma pelos beijos recebidos, as lágrimas, etc. que me deixaram no rosto, a dizer-me uma estima que não mereço e não quero.

A primeira coisa que eu fiz foi pedir à minha irmã que me lavasse. No dia da partida, de manhã, o Médico, que não dormira quase nada, pela responsabilidade, chegou ao Refùgio onde muita gente esperava para poder visitar-me... e depois de estar um pouco comigo, deixou entrar algumas pessoas.

Foi então que nos disse que ficássemos à vontade e que a observação terminara; deixou a minha irmã comer ao pé de mim e disse-me: «No mês do Outubro terão lá, em Balasar, a minha visita, não como médico espião, mas como amigo que as estima.»

Beijei, reconhecida, a mão do Sr. Dr. de Araùjo e agradeci reconhecida todos os cuidados que tiveram para comigo, e fiz isso com toda a sinceridade, pois sabia muito bem que, em-bora tivesse sido áspero para comigo, mostrou toda a seriedade com que devia ser tomado o meu caso.

Naquela tarde do dia 20 de Julho, foram as despedidas das religiosas e das vigias. Todas as vigias me fizeram oferta das suas prendas. Algumas delas vieram assistir à minha partida. Estava já dentro da auto-maca e foi uma despejar sobre mim um frasco de perfume. Trazia consigo um ramo de cravos, oferta de uma senhora, horas antes de eu me retirar. No decorrer da viagem, ofereceram-me dois ramos de flores. Recebi-as por delicadeza, apesar de não prever o resultado que vinha a dar, que havia de vir pouco depois a ser causa de maiores sofrimentos para mim. Penso que as pessoas que mas ofereceram era por saberem a estima e a loucura que eu tinha por elas. Só Jesus sabe quanto eu amo florinhas, porque amo o Autor delas. Quantas vezes as queridas florinhas me serviam para meditação - via nelas o poder, a bondade e o amor de Jesus! Nem o perfume, nem as flores, nem a multidão do povo que rodeava o nosso carro no decorrer da viagem foram motivo da mais pequenina vaidade para mim. Quando parámos para eu descansar e eu via tanto povo a aproximar-se de mim com tantas exclamações, eu dizia logo ao meu médico assistente, que vinha ao meu lado: «Vamos, vamos, Sr. Doutor!»

Por vezes, pensava que me tornava impertinente, mas ele tinha muita paciência comigo.

Durante a viagem, vivi mais dentro em mim do que fora. O mar, tudo o que se me apresentava aos meus olhos, convidavam-me ao silêncio, à vida ìntima com Deus. Não tinha de que ter vaidade: tudo isso eram motivos para me humilhar e fazer pequenina até desaparecer. O que seria de mim se fosse julgada pelo mundo! Deitaram tanta malìcia onde não havia nenhuma. Perdoai-lhes, Jesus! Não conhecem as Vossas coisas!

Comovi-me com as lágrimas das vigias e das pessoas. Foi preciso telefonar à polìcia para conter o povo. E saì daquela bendita casa alegre por ter cumprido o meu dever e por regressar aos meus e ao meu querido quartinho, de que tivera tantas saudades. Quando cheguei ao meu quartinho, parecia mentira entrar nele. Houve lágrimas, mas desta vez muito diferentes: eram de alegria. Depois de estar na minha cama, por muito tempo, não pude consentir que me tocassem, soltava grandes gemidos com dores das mais dolorosas. Foi o efeito da viagem. Agora digo eu: Por quem me sacrifiquei assim? Seria isto também por vaidade? Ó mundo, ó pobre mundo! Vaidade, mas pelo quê? Que somos nós sem Deus? Quem seria capaz de sofrer tanto por uma grandeza e uma vaidade do mundo?

Quarenta dias passados na Foz: só Jesus sabe o que eu lá passei, quantos espinhos a ferirem-me, quantas setas cravadas em meu coração! Quantas humilhações, quantas humilhações!

Razão tinha o meu médico na minha ida para lá, ao colocar-me na testa um pano molhado, em dizer-me: «Tem por aqui uns cabelos brancos, mas quando vier ainda há-de ter muitos mais.» E, de facto, assim aconteceu: ele já adivinhava tudo o que me esperava. Mas é tão bom passarmos por tudo por amor de Jesus!

 

 

 

 

APÊNDICE

 

«Desde os meus seis ou sete anos não gostava de estar ociosa, e então ocupava-me em pôr tudo em ordem em casa. Gostava muito de ir ao rio lavar roupa. Quando mais não tinha que lavar, tirava o meu aventalinho e ia lavá-lo. Entretinha-me a arrumar a lenha, pondo as achas encasteladas e muito direitinhas.

às vezes, era no jardim que trabalhava, ocupando-me a cuidar das plantas que haviam de dar flores que oferecerìamos para adornar os altares da igreja.

Gostava de tudo perfeito e asseado, mesmo quando doente.

Tinha nojo do que estava sujo e fazia limpezas, as mais custosas, porque alegrava-me de ver tudo limpinho.

Pouco depois de virmos da Póvoa de Varzim - onde aprendi o pouco que sei - viemos morar para o Calvário. A casa onde vivìamos não era assim como é hoje. Tinha a cozinha na parte de baixo. Na primeira noite que passámos aqui, minha mãe mandou-me despejar fora da porta da cozinha uma gamela de água. Eu tive medo e por essa razão disse à minha mãe que não ia. Ela deu-me uma bofetada. Por má vontade nunca disse à minha mãe: eu não vou. Deus me livre! Ela procurava-nos a cara e não sei onde devìamos ir encontrá-la!...

Minha irmã, com os seus 12 anos, principiou a aprender a costurar. Uma das primeiras peças de vestuário que fez foi uma camisa para mim. A camisa era muito larga e com um talho como se fosse para um rapaz. Eu, apesar de ter os meus nove anos, escarneci da obra e da costureira. Peguei nela, vestia por cima da roupa que trazia e vim assim até à nossa casa. Minha irmã, às gargalhadas, ia dizendo: «Ó Alexandrina, tira a camisa, que é uma vergonha!...» Eu não me importei; vim assim e também me ria à vontade.

Em Santa Eulália de Rio Covo (tinha eu os meus 11 ou 12 anos) viviam meus tios que adoeceram com uma febre intitulada a espanhola. Minha avó foi tratar deles, mas adoeceu também. Para olhar por eles foi minha mãe que também ficou doente. Por fim, fomos nós, apesar de ser novinhas. O meu tio morreu à noite e ficámos lá até à Missa do sétimo dia.

Foi preciso ir ao arroz, mas tinha que passar pelo quarto donde meu tio morrera. Ao chegar à porta do quarto, senti-me tomada de medo. Não entrei. A minha avó veio dar-mo. à noite, era preciso ir fechar a janela. Chegando à parte da sala, disse comigo: Eu hei-de perder o medo. E passei devagar, mesmo com esta intenção. Abri a porta, passei por onde tinha visto o cadáver e fui ao quarto onde ele morreu. Desde então, nunca tive medo. Venci-me a mim mesma, à minha custa.

Quando tinha doze ou treze anos, tinha muita força. Um homem começou a fazer-se mito forte com outras raparigas. Ele estava sentado. Eu dirigi-me a ele e voltei-o. Ele pôs-se a gritar: «Deixa-me! Deixa-me!» Mas deixei-o só quando quis. O meu fim era só: como ele era homem, que mostrasse a sua força.

Aos treze anos dei uma bofetada a um homem casado que me tinha dirigido uns palavrões... Virei as costas a um rapaz rico que me esperava num lugar solitário, por onde eu tinha de passar, para me falar em namoro.

Com catorze anos, tinha muito gosto em assistir aos moribundos. Lembro-me de um homenzinho que estava a morrer e de uma pequena minha amiga. Fui à casa do homenzinho e encontrei-o no meio duns manteirinhos velhos. Vim a casa e pedi à minha mãe que lhe emprestasse roupa de cama. Minha mãe fez-me a vontade e eu, muito contente, fui levar a roupa e fiquei a fazer companhia às filhas. O homem durou uns doze dias. Apareceu em casa do doente um homem a pedir lenha à filha dele, mas ela não a tinha. Começou a disparatar. Eu disse: «Ela não tem tido tempo de a ir arranjar; que há-de fazer?» O homem respondeu: «Se não fosse pela generosidade da tua mãe, levavas duas bofetadas!» Não mas deu, porque eu calei-me. Quando não, era ele capaz de mas dar e eu ficava com elas...

Veio aqui uma rapariga dizer que estava a morrer uma vizinha. Minha irmã pegou num livro e num garrafãozinho de água benta e foi à casa da moribunda. Seguiram-na duas aprendizas de costura. Eu fui também. Minha irmã começou a ler as orações da boa morte. Estava nervosa e tremia, pois custava-lhe muito assistir aos moribundos. A minha irmã acabou de ler quando a mulherzinha morreu e disse: «Até agora fiz o que pude; agora não tenho coragem para mais.» Vi a filha ao pé da mãe da morta. A neta fugiu e eu não tive coragem para a deixar só. Fiquei a ajudar a lavá-la e a vesti-la. Estava cheia de chagas. Exalava um cheiro horrìvel. Julguei que caìa sem sentidos, porque me sentia mal. Outra mulher que se encontrava no quarto, percebendo o meu estado, foi buscar uns raminhos de sardinheiras e deu-mos a cheirar. Só vim para casa depois de tudo pronto.

Com os meus dezasseis anos, e já doente, fui à casa de uma vizinha onde minha irmã estava a trabalhar de costura. Ao deparar com um fato de rapaz, vesti-o e apareci junto da minha irmã e da dona da casa. Riram-se a escangalhar. Depois disse-me a dona da casa: «Olha, vai pela estrada fora, que os meus filhos e o meu marido andam a podar as videiras por cima da estrada.» Eu pensei que me conheceriam, mas resolvi e fui. Os senhores não me reconheceram e, muito admirados, pararam de trabalhar, para ver se conheciam o cavalheiro. Da janela da casa, minha irmã e a dona da casa encheram-se de rir.

Entre os meus 17-18 anos, eu e a minha irmã partimos daqui para irmos a Aldreu, com o fim de fazermos flores artificiais por conta das zeladoras e a pedido do pároco. Eu já andava doente. Fui para ajudara a Deolinda e virmos embora mais depressa. Hospedámo-nos na residência do Pároco. Dois rapazes dos lados de Viana foram lá e queriam namorar com a Deolinda, mesmo nas vésperas de virmos embora. Pediram ao pároco para jogarmos as cartas. Pusemo-nos à lareira e o jogo passou-se em conversa. O pároco, quando nos viu, dirigiu-se aos rapazes assim: «Ai, ai! Então estou aqui há quatro anos e nunca vieram cá jogar e hoje vieram?»

Na noite seguinte, quando havìamos de vir embora, houve grande trovoada e chuva que fez muita lama. Sendo eu muito doente, a sobrinha do pároco emprestou-me uns socos e a minha irmã veio descalça. Um quarto de hora depois de sairmos de casa, desatou a chover novamente. O sangue espirrava-me dos pés, por causa do calçado não ser meu e por ter os pés muito mimosos, pois havia muito tempo que me não descalçava. As dores eram muitas e, por fim, tive de me descalçar, molhando-nos todas. Quando chegámos à estação, o comboio tinha partido haviam passado cinco minutos. Minha irmã desatou a chorar ao ver como eu estava. Eram nove horas da manhã. Só havia comboio às 11 horas, mas só parava em Barcelos, não nos convinha esse comboio. Esperámos na estação. Apareceram uns professores de Aldreu que nos levaram a tomar café. Só continuámos a viagem mais tarde, até que chegámos a casa da tia em Santa Eulália. Ela preparou-nos uma boa refeição e não queria que viéssemos embora por nos ver cansadas e ser tarde. Teimámos e prometemos vir só até Chorente, onde vivia a tia Felismina. De lá viemos até Balasar, onde chegámos alta noite. Batemos à porta, mas a mãe não estava em casa. Uma vizinha disse: «Olhem, a Sra. Matilde está a morrer.» A vossa mãe estava lá. Fomos ter com ela. No dia seguinte fui a casa da moribunda. Uma sobrinha dela disse-me: «Precisava tanto de ir a casa...» Eu respondi: «Vá, que eu fico.» E ela: «Não tens medo? - Eu não tenho medo nenhum!» Daì a pouco, a Sra. Matilde agonizava. Eu rezei sempre aquilo que entendia, mas sem medo nenhum.

 

 

 



[i] O ano de nascimento indicado pela Alexandrina na autobiografia não corresponde ao da certidão de baptismo, que indica o ano de 1904, devido a um erro de cédula pessoal passada pelo escrivão da Póvoa, que fez o assento de perfilhação da Deolinda e da Alexandrina. Esta medida legal foi tomada por ocasião duma grave doença da mãe, para assegurar às duas crianças o direito de herdar o que era dela.

[ii] Josefina Alves de Sousa, vulgarmente chamada «Josefina-Escola», por viver no edifìcio da escola, juntamente com seu irmão professor.

[iii] O sofrimento moral a que alude a Alexandrina com tanta discrição fica plenamente desvendado nesta recomendação feita pelo P.e Pinho à Deolinda logo que tomou conta da sua alma: «Nunca deixe sua irmã sozinha quando cá vier visitá-la o Abade.»

[iv] Nota do P.e Pinho: «Esqueceu a narração de como, em Setembro de 1936, se escreveu para a Santa Sé sobre a Consagração.